{"id":20626,"date":"2023-11-05T09:30:55","date_gmt":"2023-11-05T12:30:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20626"},"modified":"2023-11-05T09:30:55","modified_gmt":"2023-11-05T12:30:55","slug":"a-travesti-e-a-mosca-na-sopa-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-travesti-e-a-mosca-na-sopa-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A TRAVESTI E A \u201cMOSCA NA SOPA\u201d&#8230; (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Em tarde agrad\u00e1vel, num quiosque na praia, conversava com poucos amigos quando passou uma esfuziante travesti que, alheia ao grupo, sentou-se na mesa ao lado. Exagerada em seus apetrechos, n\u00e3o havia como ignorar a figura excessiva em todos os detalhes. O tamanho dos p\u00e9s, das m\u00e3os, a musculatura geral e o gog\u00f3 n\u00e3o deixavam d\u00favidas, ainda que os trejeitos, os peitos mal sustentados por um decote ousado, e principalmente a vasta peruca loira convidasse supor o feminino. N\u00f3s, discretos senhores \u2013 discret\u00edssimos representantes da terceira idade \u2013 vimo-nos perturbados. A conversa que flu\u00eda sobre temas do cotidiano de repente experimentou o sil\u00eancio. Para felicidade geral da turma, depois de atender a um chamado pelo celular, a \u201cmo\u00e7a\u201d levantou-se e partiu. Ficamos sem a\u00e7\u00e3o por alguns minutos e no vazio, titubeamos.<\/p>\n<p>Estranh\u00edssimo como certas situa\u00e7\u00f5es e temas s\u00e3o interditos em nossa cultura sempre t\u00e3o seletiva, moralista e satisfeita em meandros. Estava claro que precisar\u00edamos abordar a quest\u00e3o que nos desconsertara, mas faltava dicion\u00e1rio. Em minha cabe\u00e7a uma pequena cole\u00e7\u00e3o de perguntas desordenadas se articulava, contudo sem for\u00e7a de enuncia\u00e7\u00e3o. Respirei fundo e finalmente tomei coragem para libertar a primeira \u201cviram? Que acham\u201d? Pueril, n\u00e9, mas era a entrada poss\u00edvel. A calada foi substitu\u00edda por sussurros do tipo \u201cpois, \u00e9\u201d, \u201csei l\u00e1\u201d, \u201ccredo\u201d, \u201c\u00e9 o fim dos tempos\u201d. Resolvi verticalizar a conversa e, corajoso, investi \u201cnotaram como n\u00e3o temos argumentos para comentar certas coisas, simplesmente murmuramos bobagens sem consist\u00eancia&#8230; somos mesmo muito preconceituosos\u201d. Peguei pesado, n\u00e9?!&#8230; e at\u00e9 tive algumas rea\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Velhinhos-no-bar.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20627\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Velhinhos-no-bar-450x338.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Velhinhos-no-bar-450x338.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Velhinhos-no-bar-300x225.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Velhinhos-no-bar.webp 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Senhores respeit\u00e1veis futricam e trocam figurinhas nos botecos da vida<\/em><\/p>\n<p>Um dos mais falantes exclamou \u201csempre foi assim, agora est\u00e1 mais escancarado\u201d. O moralista soltou a indigna\u00e7\u00e3o reprimida \u201c\u00e9 uma vergonha, eles (sic) n\u00e3o t\u00eam mais no\u00e7\u00e3o de lugar, est\u00e3o em toda parte e n\u00e3o respeitam ningu\u00e9m\u201d. Outro completou \u201cantes era mais no carnaval\u201d. Sabe, fui me enquizilando com a lat\u00eancia patriarcal e machista de minha gera\u00e7\u00e3o incapaz de aceitar a diferen\u00e7a projetada na din\u00e2mica do tempo. Por fim, algu\u00e9m soltou a frase que me valeu como senha \u201cs\u00e3o uns marginais que precisam do alfabeto todo para se reconhecerem: LGBTQUIA +&#8230; antes veado ou bicha e bastava&#8230;\u201d. Mantendo minha fleugma rebati \u201cora, o que aprendemos com o tempo? Ser\u00e1 que nossa gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada a dizer sobre direitos humanos; n\u00e3o tem o dever de mostrar que desde jovens lutamos pela democracia e pelo conv\u00edvio com o diferente\u201d? E um tanto irritado arrematei \u201cfalta Hist\u00f3ria nesta hist\u00f3ria\u201d. Para aliviar, decorri um pouco sobre papeis dos eunucos desde o s\u00e9culo IV; dos castrados que tiveram destaques at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, inclusive como cantores profissionais. Dissertei brevemente sobre sexualidade na Gr\u00e9cia cl\u00e1ssica e no Imp\u00e9rio Romano; salientei a inven\u00e7\u00e3o da moral sexista moldada pela Inquisi\u00e7\u00e3o que discriminava o homossexualismo pelo \u201cdesperd\u00edcio de esperma que impedia a reprodu\u00e7\u00e3o\u201d. Tudo em v\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Inconformado, levei para casa a ess\u00eancia daquele epis\u00f3dio e resolvi me indagar dos intervenientes silenciadores de minha gera\u00e7\u00e3o: ser\u00e1 que o preconceito tem nuan\u00e7as de idade, me perguntava, e dei corda \u00e0 quest\u00e3o sobre a transversal da (in)toler\u00e2ncia: ser\u00e1 que qualquer gera\u00e7\u00e3o padece a mesma fundamenta\u00e7\u00e3o frente \u00e0s discrimina\u00e7\u00f5es? Por l\u00f3gico, evoquei a masculinidade discursiva como denominador universal, mas me detive relativizando nossas posturas frente outras realidades e vi que, mesmo com contradi\u00e7\u00f5es, alhures est\u00e3o muito mais soltos. Aqui como l\u00e1, a cole\u00e7\u00e3o de leis favor\u00e1veis \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es sexuais livres atua de maneira a proteger os direitos privados, individuais. \u00c9 tamb\u00e9m verdade que nossas regras legais t\u00eam avan\u00e7os que, contudo, n\u00e3o chegam \u00e0 pr\u00e1tica cultural. Resolvi por lupa sobre o caso espec\u00edfico de meus coet\u00e2neos e me inquiri sobre as li\u00e7\u00f5es do passado. Fundamentei minha afli\u00e7\u00e3o contando com marcadores cruciais nos cortes de posicionamentos estruturais: a transposi\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra; o advento dos anos dourados na era JK; a Abertura Pol\u00edtica com a consequente supera\u00e7\u00e3o da ditadura que nos sufocou por 21 anos; a longa cr\u00edtica permitida pela contracultura; os anos de renova\u00e7\u00e3o depois da era Collor&#8230; e perplexo reafirmei minha d\u00favida sobre o papel da experi\u00eancia geracional na supera\u00e7\u00e3o de entraves socioculturais. Ser\u00e1 que, afinal, n\u00e3o aprendemos nada? Qual o legado de minha gera\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Rogeria.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20628\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Rogeria-445x450.webp\" alt=\"\" width=\"445\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Rogeria-445x450.webp 445w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Rogeria-296x300.webp 296w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Rogeria-80x80.webp 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/11\/Rogeria.webp 589w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Rog\u00e9ria era conhecido como travesti da fam\u00edlia brasileira<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em 1973, Raul Seixas nos anos de chumbo lan\u00e7ava uma can\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda intitulada \u201cMosca na sopa\u201d. Com \u00edmpeto sutil me vejo autorizado a recuperar a sutileza da mensagem que indica a fun\u00e7\u00e3o da mosca perturbadora. Gosto muito do final que provoca \u201ce n\u00e3o adianta\/ vir me dedetizar\/ pois nem o DDT\/ pode assim me exterminar\/ porque voc\u00ea mata uma\/ e vem outra em seu lugar\u201d. E viva a travesti que trouxe o maluco beleza de volta e permitiu por a mosca na sopa dos velhos acomodados&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tarde agrad\u00e1vel, num quiosque na praia, conversava com poucos amigos quando passou uma esfuziante travesti que, alheia ao grupo, sentou-se na mesa ao lado. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20629,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20626","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20626","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20626"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20626\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20630,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20626\/revisions\/20630"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20629"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20626"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20626"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20626"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}