{"id":20607,"date":"2023-10-29T08:43:34","date_gmt":"2023-10-29T11:43:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20607"},"modified":"2023-10-29T08:43:34","modified_gmt":"2023-10-29T11:43:34","slug":"bertha-lutz-a-sufragista-peladona-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/bertha-lutz-a-sufragista-peladona-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"BERTHA LUTZ: A SUFRAGISTA PELADONA&#8230; (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Suely e Leandro Moreira<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>&#8220;<\/em>Fa\u00e7a da Educa\u00e7\u00e3o um Prazer&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Sou daqueles que sa\u00fadam os estudos de g\u00eanero por identificar neles a ess\u00eancia da participa\u00e7\u00e3o social. Principalmente quando os cruzamentos de interesses se buscam como forma de entendimento da esp\u00e9cie humana, vejo luzes e assim prest\u00edgio mulheres se destacando em favor de posicionamentos representativos e por isto democr\u00e1ticos. A pauta \u00e9 extensa e os temas se multiplicam real\u00e7ando a opacidade hist\u00f3rica sempre masculinizante. Al\u00e9m dos assuntos relativos aos apagamentos silenciadores de minorias sociol\u00f3gicas, valorizo sobremaneira mulheres estudando o comportamento masculino na mesma l\u00f3gica de homens procurando compreens\u00e3o em pesquisas sobre mulheres. E viva a diferen\u00e7a. \u00c9 claro que coloco limites tanto nos tais \u201clugares de fala\u201d quanto nos \u201clugares de falo\u201d, e em uma ou outra tend\u00eancia denuncio obsess\u00f5es que transpiram tribalismos irremedi\u00e1veis, coisas mesquinhas, atitudes geradoras de polos.<\/p>\n<p>Toda essa argumenta\u00e7\u00e3o me serve de base para abordar um lance prosaico, relativo a uma das personagens que mais me fascinam na hist\u00f3ria do Brasil: Bertha Lutz. Cientista renomada, filha de autoridade no campo da sa\u00fade nacional, Bertha ficou conhecida pelo brilho pessoal, principalmente por sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, sendo distinguida deputada federal nos anos de 1930. Sem se dizer feminista, liderou um dos mais bem sucedidos processos de cidadania do Brasil: a luta pelo voto feminino. Com base em um lapso da Constitui\u00e7\u00e3o Republicana de 1891, notou que havia espa\u00e7o para requalificar a mulher como cidad\u00e3 com plenos direitos, inclusive de votar em paridade com os homens. Com esse mote, mobilizou vasta leva de mulheres e demais seguidores que, por fim, conseguiram coloc\u00e1-las como eleitoras e candidatas regulares. Ali\u00e1s, a luta das chamadas sufragistas \u00e9 exemplar e mereceria uma revis\u00e3o na pauta dos estudos sobre as mulheres e sobre as transforma\u00e7\u00f5es progressistas de nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Bertha-Lutz-no-Senado-Federal.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20608\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Bertha-Lutz-no-Senado-Federal-450x330.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"330\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Bertha-Lutz-no-Senado-Federal-450x330.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Bertha-Lutz-no-Senado-Federal-300x220.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Bertha-Lutz-no-Senado-Federal-768x563.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/Bertha-Lutz-no-Senado-Federal.jpg 860w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>No caso espec\u00edfico da sra. Lutz, contudo, h\u00e1 alguns destaques significativos que poucos sabem e que podem iluminar a personalidade que n\u00e3o atuou apenas na seara pol\u00edtica. Longe de ser recatada e do lar, Bertha tinha comportamentos nada condizentes com a moral e os bons costumes daquele tempo sisudo e rabugento. \u00a0Segundo noticia o hist\u00f3rico do Consulado Italiano do Rio de Janeiro, com base em publica\u00e7\u00e3o do jornal \u201cO Imparcial\u201d de 28 de janeiro de 1937, no mesmo pr\u00e9dio onde ainda funciona a representa\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia no come\u00e7o da Rua Ant\u00f4nio Carlos, no Centro da antiga capital federal, a ent\u00e3o \u201cCasa d\u2019Italia\u201d oferecia cursos de l\u00edngua, cultura e arte italianas. No pr\u00e9dio em frente, no Edif\u00edcio Santa Branca, morava a proeminente personagem que, sem pudor algum, desfilava nua, com as janelas bem abertas. A atra\u00e7\u00e3o fazia a alegria de jovens alunos e era tamanho o sucesso que in\u00fameras vezes a dire\u00e7\u00e3o da escola tinha que alertar os jovens dos riscos de penalidades e at\u00e9 de reprova\u00e7\u00f5es. E pouco adiantava. O problema se complicou a tal ponto que a \u201csenhora de idade madura\u201d, como dizia o jornal, foi denunciada v\u00e1rias vezes para a pol\u00edcia. Acontece que ao mesmo tempo ela era deputada, eleita pelo voto popular, e, pois, gozava de \u201cimunidade parlamentar\u201d. A provoca\u00e7\u00e3o da parlamente s\u00f3 crescia at\u00e9 que chegou um dia em que os cuidados com o corte de unhas do p\u00e9 tanto entretiveram os pupilos que foi necess\u00e1rio chamar a aten\u00e7\u00e3o pelo jornal que, para regozijo dos rapazes, pouco ou nada conseguiu fazer, posto que qualquer san\u00e7\u00e3o deveria antes passar pela mesa diretora da C\u00e2mara dos Deputados.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/bertha_jovem.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20609\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/bertha_jovem.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/bertha_jovem.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/bertha_jovem-225x300.jpg 225w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Bertha Lutz jovem<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Certamente, a repetida mostra p\u00fablica da nudez da distinta dama revelava um posicionamento pol\u00edtico mais amplo em que, al\u00e9m de contestar a moral pudica do tempo, implicava tamb\u00e9m discutir o papel da pol\u00edcia, incapaz de solucionar problemas como aquele. Sim, houve solu\u00e7\u00e3o do problema pois sabe-se que depois de muitas idas e vindas \u00e0 Delegacia \u201cfinalmente, com muita habilidade e serenidade, os policiais conseguiram convenc\u00ea-la a interromper a mostra de naturalismo, e os professores puderam retomar suas aulas\u201d. O que n\u00e3o fica claro, mas merece considera\u00e7\u00e3o, \u00e9 o velado sentimento antifascista que dominava o progressismo da \u00e9poca. Filha de judeus que assistiam assustados o crescimento do fascismo, aquela nudez ostensiva n\u00e3o seria um ato pol\u00edtico? Fa\u00e7am suas apostas&#8230;<\/p>\n<p>Por certo o relato deste caso poderia passar como pitoresco. Reivindica-se, contudo, algo mais. Colocada na biografia de uma personagem como Bertha Lutz, dada a sonoridade de sua presen\u00e7a na cena nacional, indaga-se da provoca\u00e7\u00e3o contida no ato exibicionista. Certamente os bi\u00f3grafos dela haveriam de explorar o caso como atestado de uma percep\u00e7\u00e3o de moral que precisava ser agredida e tamb\u00e9m de uma postura pol\u00edtica contra institui\u00e7\u00f5es dependente do humor fascista em ascens\u00e3o. O uso do corpo de parlamentar protegida pela lei, certamente, expressava a vontade transgressora daquela mulher \u00fanica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Suely e Leandro Moreira &#8220;Fa\u00e7a da Educa\u00e7\u00e3o um Prazer&#8221; Sou daqueles que sa\u00fadam os estudos de g\u00eanero por identificar neles a ess\u00eancia da participa\u00e7\u00e3o &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20610,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20607","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20607"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20607\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20611,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20607\/revisions\/20611"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20610"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}