{"id":20543,"date":"2023-09-24T07:37:51","date_gmt":"2023-09-24T10:37:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20543"},"modified":"2023-09-24T07:37:51","modified_gmt":"2023-09-24T10:37:51","slug":"papagaiadas-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/papagaiadas-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PAPAGAIADAS! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Sabe-se que p\u00e1ginas da Hist\u00f3ria nem sempre s\u00e3o justas. A lista de personagens n\u00e3o merecedores de destaques positivos \u00e9 grande, e \u00e0 contrapelo h\u00e1 an\u00f4nimos que ficariam bem em garbosos pante\u00f5es. O mesmo se diz de animais, pois alguns s\u00e3o prestigiados, tidos como parceiros incondicionais &#8211; quantas vezes n\u00e3o ouvimos \u201cdonos\u201d chamando seus <em>pets<\/em> de filhos, com nomes pomposos, enfeites ex\u00f3ticos, tosas da hora, roupinhas e at\u00e9 festas de anivers\u00e1rios. E h\u00e1 os outros, mais ou menos aceitos ou rejeitados&#8230;<\/p>\n<p>De regra, dois crit\u00e9rios concorrem para o prest\u00edgio dos bichanos: os detentores de poderes naturais, fortes, campe\u00f5es da cadeia alimentar &#8211; le\u00f5es s\u00e3o elevados a reis e \u00e1guias chegam a s\u00edmbolos nacionais. Em n\u00edvel dom\u00e9stico, c\u00e3es, gatos, \u00e0s vezes hamsters e coelhos, s\u00e3o aclamados. Aves selecionadas tamb\u00e9m constelam escolhas das quais can\u00e1rios, araras e calopsitas logram prioridades. Pensando nessas varia\u00e7\u00f5es, valeria supor uma esp\u00e9cie de darwinismo psico\/animal. E \u00e9 exatamente neste contexto que acontecem as iniquidades.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Papagaios-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20544\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Papagaios-1.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Papagaios-1.jpg 320w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Papagaios-1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Levando-se em conta os papagaios na escala de prefer\u00eancias, ocorreu-me uma retomada capaz de nutrir argumentos realocadores. Calma, muita calma nesta hora, pois sabe-se do protagonismo de alguns famosos. Contudo, dando asas (desculpem-me pelo trocadilho) ao crit\u00e9rio seletivo, vale reclamar melhor coloca\u00e7\u00e3o para os penados em geral que, humilhados, tantas vezes se prestam a piadas chulas ou dizeres rebaixadores. Os amados, nesta listagem, s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es honrosas e muitas vezes apagam os demais.<\/p>\n<p>Sabe-se que papagaios s\u00e3o aves que existem h\u00e1 milh\u00f5es de anos. Acredita-se que tenham surgido na Austr\u00e1lia e de l\u00e1 migrado, gerando alhures cerca de 350 esp\u00e9cies diferentes &#8211; com destaque as dos pa\u00edses tropicais que se distinguem pelo tamanho, colorido e multiplicidade de sons emitidos. \u00c9 exatamente isso que permite reclamar da injusti\u00e7a classificat\u00f3ria, em particular para n\u00f3s brasileiros.<\/p>\n<p>No mais das vezes, o protagonismo dos bichos na motiva\u00e7\u00e3o colonizadora europeia \u00e9 achatado. Lembremos, por exemplo, que Colombo no retorno de sua primeira viagem \u00e0 Am\u00e9rica<em>, segundo Las Casas, causou furor com 40 exemplares. Em termos de Brasil, desde a Carta de Caminha, tivemos a exalta\u00e7\u00e3o dos \u201clouros\u201d a ponto do<\/em> secret\u00e1rio veneziano em Portugal se referir a n\u00f3s como \u201cTerra dos papagaios\u201d &#8211; e assim entramos na literatura de viagens.<\/p>\n<p><em>E n\u00e3o tardou para que as aves brasileiras concorressem no mercado de animais traficados, implicando inclusive riscos de extin\u00e7\u00e3o. E no processo, o imagin\u00e1rio sobre o Brasil sempre se fartou dos papagaios, de tal forma que lendas correram a ponto de se ouvir que dom Pedro I optou pelo \u201cgrito\u201d devido a revoada alucinante de papagaios que repetiam \u201cIndepend\u00eancia ou morte\u201d.<\/em> Se o teor desse fabul\u00e1rio \u00e9 duvidoso, n\u00e3o se pode dizer o mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao filho, Dom Pedro II, que sendo ornit\u00f3logo, mais que estudar os p\u00e1ssaros, colecionava-os e s\u00e3o famosos alguns de seus mantos feitos com plumagens dessas aves.<\/p>\n<p>E atrav\u00e9s dos tempos certos papagaios conquistaram protagonismos. Curiosamente, personagens expressivos do mundo das artes e da pol\u00edtica se apresentavam com suas \u201caves falantes\u201d. Talvez o caso mais impressionante seja o de Winston Churchill, Charlie, que aprendeu a xingar Hitler. N\u00e3o faltam indica\u00e7\u00f5es como Garcia Marques que, segundo conta\u00e7\u00e3o corrente, formulou seu realismo fant\u00e1sticos em conversas com o interlocutor \u201cArturo\u201d. Ali\u00e1s, em literatura n\u00e3o d\u00e1 para esquecer Virginia Wolf no delicioso conto \u201cA vi\u00fava e o papagaio\u201d, uma das maiores elegias ao bicho. \u00c9 claro que nosso Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo n\u00e3o perdeu a oportunidade e nos faz pensar filosoficamente com o \u201cPapagaio depressivo\u201d.<\/p>\n<p><em> <a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20545\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-1-350x450.jpg\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-1-350x450.jpg 350w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-1-233x300.jpg 233w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-1.jpg 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 350px) 100vw, 350px\" \/><\/a>|<\/em><\/p>\n<p>E tantos s\u00e3o os exemplos na pintura, como o caso de Frida Kahlo que fez seu autorretrato ao lado de um exemplar e n\u00e3o satisfeita mais tarde pintou \u201cEu e meus papagaios\u201d. Isto sem antes falar do audacioso Coubert com sua \u201cMulher com papagaio\u201d. \u00c9 l\u00f3gico que Portinari n\u00e3o os deixaria passar sem registro, identificando-os com a exuber\u00e2ncia de nossa paisagem.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20546\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-2-341x450.jpg\" alt=\"\" width=\"341\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-2-341x450.jpg 341w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-2-227x300.jpg 227w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Frida-2.jpg 530w\" sizes=\"auto, (max-width: 341px) 100vw, 341px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Seria parcial, por\u00e9m deixar de assinalar a sedu\u00e7\u00e3o provocada pelos papagaios hoje, em nossa cultura. Nesse quesito, ali\u00e1s, ganha prioridade o \u201cZ\u00e9 Carioca\u201d de Walt Disney, projetado em 1942 &#8211; atualizado com varia\u00e7\u00f5es em \u201cAl\u00f4, Amigos\u201d (1942), \u201cVoc\u00ea j\u00e1 foi a Bahia?\u201d (1944), mais recentemente em 2011 com \u201cRio\u201d, e em 2014 com \u201cA floresta m\u00e1gica\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20547\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2-450x450.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Portinari-2.jpg 564w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>De um jeito ou de outro, simbolicamente os papagaios integraram nosso cotidiano fazendo parte de nossas refer\u00eancias, boas ou ruins. Atestado disso, Ana Maria Braga notabilizou o \u201clouro Jos\u00e9\u201d, colocando-o como interlocutor privilegiado, n\u00e3o sem raz\u00e3o compondo o cen\u00e1rio da cozinha, cora\u00e7\u00e3o da casa. E no cotidiano o papagaio se faz presente seja nos brinquedos infantis &#8211; ah, as pipas \u2013 ou em dizeres populares onde ali\u00e1s se destaca a express\u00e3o \u201cfalar como papagaio\u201d. Valho-me, ali\u00e1s desta men\u00e7\u00e3o para encerrar esta cr\u00f4nica que, com raz\u00e3o, leva o nome de papagaiada e, assim, falando reclamo por lugar de honra, al\u00e9m dos famosos, pois afinal, de um jeito ou de outro, mais ou menos amados, conhecidos ou an\u00f4nimos, os papagaios nos representam. Somos todos papagaios.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sabe-se que p\u00e1ginas da Hist\u00f3ria nem sempre s\u00e3o justas. A lista de personagens n\u00e3o merecedores de destaques positivos \u00e9 grande, e \u00e0 contrapelo h\u00e1 an\u00f4nimos &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20548,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20543","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20543"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20543\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20549,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20543\/revisions\/20549"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20548"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}