{"id":20538,"date":"2023-09-17T10:28:34","date_gmt":"2023-09-17T13:28:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20538"},"modified":"2023-09-17T10:28:34","modified_gmt":"2023-09-17T13:28:34","slug":"o-galo-a-galinha-os-ovos-e-a-modernidade-sertaneja-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-galo-a-galinha-os-ovos-e-a-modernidade-sertaneja-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O GALO, A GALINHA, OS OVOS E A MODERNIDADE SERTANEJA! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Todos somos donos de esquisitices, algumas mansas, outras nem tanto. Coleciono bizarrices, mas uma em especial me cativa: um di\u00e1logo intermitente, meio tonto e bem torto, com um amigo com quem, de quando em vez, troco confid\u00eancias por telefone, durante madrugadas. At\u00e9 a\u00ed, pouco ou nada de excepcional, pois h\u00e1 grupos que, encorujados, preferem falar no escuro. Sou desses. Cultivo os mist\u00e9rios e complica\u00e7\u00f5es da noite. O realmente inusitado \u00e9 que ao longo de anos desenrolamos um papo sobre galos. Sim galos, os machos das galinhas. Diria que tudo come\u00e7ou certa madrugada quando eu, morador de Copacabana, ouvi um nas vizinhan\u00e7as lardeando a manh\u00e3 que haveria de ser. Tamb\u00e9m isso n\u00e3o chamaria tanto a aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse o interlocutor, Renato Teixeira. Sim, ele mesmo o contador de causos versejados<br \/>\nna intimidade do mund\u00e3o interiorano, rururbano.<br \/>\nPois \u00e9, dia desses seletava m\u00fasicas deste meu bardo preferido quando notei men\u00e7\u00e3o ao retumbante cocoric\u00f3. \u201cRa\u00edzes\u201d, \u00e9 o nome de uma composi\u00e7\u00e3o que se irrompe faustosa: \u201cgalo cantou\/ madrugada na campina\/ manh\u00e3 menina\/ t\u00e1 na flor do meu jardim\/ hoje \u00e9 domingo\/ me desculpe eu t\u00f4 sem pressa\/ nem preciso de conversa\/ n\u00e3o h\u00e1 nada pra cumprir\u201d. Pronto, estava pautado mais um desafio interpretativo. Como pode algu\u00e9m sintetizar dilemas t\u00e3o complexos, inscritos na modernidade: o galo da campina alheio \u00e0s conven\u00e7\u00f5es; o andamento desacelerado dum domingo; o mundo do trabalho descontinuado por direito ao descanso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Renato-Teixeira.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20539\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Renato-Teixeira-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Renato-Teixeira-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Renato-Teixeira-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Renato-Teixeira-768x512.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Renato-Teixeira.webp 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Renato Teixeira \u00e9 interlocutor de Mestre Sebe nas madrugadas insones<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Com cab\u00edvel exagero, quest\u00f5es da atualidade brasileira poderiam dar contornos hipot\u00e9ticos a um riscado sociol\u00f3gico que confronta: a tradi\u00e7\u00e3o rural com o tempo da produ\u00e7\u00e3o capitalista; o campo com a cidade; a natureza com a lavoura em escala, e o trabalhador no jogo de tens\u00f5es. E, n\u00e3o bastasse, no caso dessa composi\u00e7\u00e3o, o galo imp\u00e1vido, indiferente ao calend\u00e1rio, louvando o dia que se repete cadente. Isto s\u00f3 bastaria para digress\u00f5es capazes de nutrir comp\u00eandios, mas nossas conversas sobre o regente do galinheiro motivavam outros papos, pois afinal, a filosofia caipira brota de sementes nost\u00e1lgicas.<br \/>\nEvocando o parceiro Almir Sater, certa feita, gastamos horas falando da pot\u00eancia dos imponentes que n\u00e3o aceitam concorr\u00eancia amorosa. Ser\u00e1 que o decantado machismo que nos distingue brasileiros se engalanou da\u00ed? \u201cReis do terreiro\u201d, os galos d\u00e3o conta de damas apaixonadas e \u00e9 de suas galas que se firma uma fonte de renda motivadora de exporta\u00e7\u00f5es internacionais. E nessa saga elogiosa exaltamos tamb\u00e9m sua plumagem mais exuberante e plural do que as delas; a garbosidade senhoril ostentada sem pudor algum, e n\u00e3o nos esquecemos das esporas sempre afiadas e amea\u00e7adoras.<br \/>\nE somamos tantos predicados que me pus a questionar por que, em certos casos, os galos s\u00e3o relegados em prosa e versos. \u00c9 verdade que h\u00e1 listas de piadas picantes, marchinhas tinhosas e nomes de blocos carnavalescos e at\u00e9 refer\u00eancias \u00e0 bebidas alco\u00f3licas (ah! os \u2018rabos de galos\u2019), mas s\u00e3o as donas dos \u201covos de ouro\u201d, desde antes de Esopo, as premiadas com narrativas laudat\u00f3rias \u2013 ali\u00e1s, gosto imenso de um conto de Clarice Lispector intitulado \u201cUma galinha\u201d e que dizer das cr\u00f4nicas de Luis Fernando Ver\u00edssimo: \u201cLadr\u00e3o de galinha\u201d, \u201cA decad\u00eancia do ocidente\u201d, \u201cA cr\u00f4nica e o ovo\u201d e o hil\u00e1rio \u201cA P\u00e1scoa\u201d?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Galo.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20540\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Galo-450x327.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"327\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Galo-450x327.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Galo-300x218.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Galo.webp 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><br \/>\nH\u00e1 algo de mais perturbador na retomada, digamos ontol\u00f3gica, do galo, da galinha e dos ovos na modernidade brasileira. Explico-me formulando um novo teorema que carrega um conte\u00fado metaf\u00edsico importante para quantos se preocupam com as tecituras \u00e9ticas e morais da comunica\u00e7\u00e3o na sociedade de massa. Primeiro aventei a possibilidade de triunfo do discurso feminista que elidia o macho da popular equa\u00e7\u00e3o \u201co que vem primeiro, o ovo ou a galinha\u201d. E n\u00e3o canso de me espantar com o apagamento do desencantado macho, esquecido como se tudo houvesse que haver apenas com a \u201cgalinha pintadinha\u201d e seus ovos. E o galo, onde teria ido parar? Inc\u00f4moda pergunta, n\u00e9? Sem resposta indicativa, ent\u00e3o desdobram-se suposi\u00e7\u00f5es que acabam por revelar a exclus\u00e3o do macho como se fosse dispens\u00e1vel. Mas, como vingan\u00e7a da natureza, sem ele, n\u00e3o se consegue definir o ponto de partida, pois n\u00e3o se sabe da primazia.<br \/>\nA par de enigmas discursivos, livre de conjunturas emaranhadas, o pr\u00f3prio Renato Teixeira sugere um deixa disso. Basta respeitar a natureza que mostra \u201ca luz invadindo a terra\u201d e mais, rebate complica\u00e7\u00f5es fabricadas no escuro que \u201ca noite n\u00e3o revela\u201d e segue salientando as contradi\u00e7\u00f5es entre a tradi\u00e7\u00e3o e a modernidade lembrando que no domingo masmorrento a \u201cr\u00e1dio agora t\u00e1 tocando Rancho Fundo\u201d e, por fim, conclui pela solid\u00e3o da modernidade sertaneja \u201csomos s\u00f3 eu e o mundo\u201d e gra\u00e7as ao galo que anuncia que \u201camanhecer \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o do universo\/ que nos ensina que \u00e9 preciso renascer\/ o novo amanhece\/ o novo amanhece\u201d. Simples assim..<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos somos donos de esquisitices, algumas mansas, outras nem tanto. 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