{"id":20508,"date":"2023-09-03T09:49:43","date_gmt":"2023-09-03T12:49:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20508"},"modified":"2023-09-03T09:49:43","modified_gmt":"2023-09-03T12:49:43","slug":"os-gatos-de-hemingway-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/os-gatos-de-hemingway-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"OS GATOS DE HEMINGWAY (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong><sub>Para Isa M\u00e1rcia<\/sub><\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ernest Hemingway \u00e9 figura importante no topo de minhas prefer\u00eancias. Seguramente, \u201c<em>O velho e o mar<\/em>\u201d disputa primazia entre os cinco textos mais solares de tudo que li. A fa\u00e7anha do velho Santiago que aos 84 anos, solit\u00e1rio, fisgou um marlim gigante &#8211; de cerca de 5 metros e 700 quilos &#8211; \u00e9 das proezas mais arrebatadoras que conhe\u00e7o. O prest\u00edgio desse livro foi tamanho que o fez merecedor do Nobel de Literatura em 1954.<\/p>\n<p>Na intimidade de quem tem exposto o cora\u00e7\u00e3o de leitor, devo confessar um segredo: n\u00e3o sei se sou mais devoto da obra de Hemingway ou de sua conturbada trajet\u00f3ria. Sendo desde menino pessoa singular dado o neur\u00f3tico trato maternal &#8211; que o considerava menina &#8211; e a intensa liga\u00e7\u00e3o com o silente pai com quem mais conseguia se ligar nas aventuras de ca\u00e7a e pesca, cresceu marcado por dilemas de autoafirma\u00e7\u00e3o. Vale lembrar que seu pai, manuseando arma de estima\u00e7\u00e3o, disparou-a ferindo-se mortalmente e, mais tarde, num gesto de dif\u00edcil explica\u00e7\u00e3o, a pr\u00f3pria m\u00e3e enviou ao filho, de presente, a fat\u00eddica pistola.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-velho-e-o-mar.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20509\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-velho-e-o-mar-297x450.gif\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-velho-e-o-mar-297x450.gif 297w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/O-velho-e-o-mar-198x300.gif 198w\" sizes=\"auto, (max-width: 297px) 100vw, 297px\" \/><\/a><\/p>\n<p>E um ros\u00e1rio de frustra\u00e7\u00f5es aturdiu a vida do mo\u00e7o que, baixo demais, foi refutado pelo Ex\u00e9rcito na tentativa de se tornar soldado na Primeira Guerra, fato que agravou seu temperamento depressivo e o fez chegado ao \u00e1lcool e ao fumo. Seu ref\u00fagio era a escrita sempre concisa e objetiva, profunda e introspectiva. Publicamente, era reconhecido como machista e, mulherengo, se casou quatro vezes, al\u00e9m da cole\u00e7\u00e3o de amores bandidos. A este respeito, ali\u00e1s, seu colega escritor Scott Fitzgerald profetizou uma frase: \u201c<em>voc\u00ea vai precisar de uma mulher a cada livro<\/em>\u201d. Mas n\u00e3o foram as mulheres as \u00fanicas paix\u00f5es do constantemente infortunado que, afinal, se suicidou em 1961.<\/p>\n<p>Seria dif\u00edcil escolher qual o feito mais bizarro de Hemingway: a insensata aud\u00e1cia nos campos de batalha da Espanha na Guerra Civil onde atuou como rep\u00f3rter de guerra; o combate incans\u00e1vel contra o nazifascismo; a inacredit\u00e1vel experi\u00eancia como toureiro, ou as perip\u00e9cias como piloto? Dono de barba e bigode caprichosamente cultivado, gabava-se de ser o melhor atirador de toda Cuba, terra que adorava e onde morou at\u00e9 que o embargo norte-americano exigiu a retirada de todos os cidad\u00e3os estadunidenses depois da Revolu\u00e7\u00e3o castrista. Afastado de Cuba, escolheu a cidade de Key West na Florida como local para resid\u00eancia por ser aquele o ponto mais pr\u00f3ximo da Ilha de Fidel.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, em seu lar no extremo sul dos Estados Unidos, Hemingway recebeu de presente de amigo marinheiro uma gatinha a que chamou <em>Snowball<\/em>. Na realidade, a paix\u00e3o do escritor por animais era conhecida. Teve v\u00e1rios cachorros e p\u00e1ssaros, mas nenhum bichano angariou tanta simpatia como a gata que, ali\u00e1s, tinha uma caracter\u00edstica distintiva: era portadora de uma anomalia rara, polidactilia, isto \u00e9, tinha seis dedos em cada pata que, segundo uma tradi\u00e7\u00e3o corrente, era sinal de sorte. De tal maneira Hemingway cultivou o amor a <em>Snowball<\/em> que a colocou em seu testamento, definindo verba especial ao cuidado dela e de seus descendentes, que mant\u00e9m at\u00e9 hoje. Com o tempo, a casa vitoriana de Hemingway virou uma esp\u00e9cie de museu, conservando detalhes como ele os deixou. L\u00e1, tudo \u00e9 est\u00e1tico, mas a quebra pelos in\u00fameros gatos d\u00e1 uma estranha vivacidade ao ambiente.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Hemingway-com-snow-ball.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20510\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Hemingway-com-snow-ball-450x302.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"302\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Hemingway-com-snow-ball-450x302.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Hemingway-com-snow-ball-300x201.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Hemingway-com-snow-ball-768x515.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Hemingway-com-snow-ball-1536x1029.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/Hemingway-com-snow-ball-2048x1372.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Entre as v\u00e1rias refer\u00eancias escritas deixadas por Hemingway sobre gatos algumas dizem de sua magnitude amorosa:<\/p>\n<ul>\n<li>Um gato tem honestidade emocional absoluta: os seres humanos, por uma raz\u00e3o ou outra, podem esconder os seus sentimentos, os gatos jamais;<\/li>\n<li>Os gatos s\u00e3o criaturas grandiosas porque n\u00e3o esperam que os humanos o sejam;<\/li>\n<li>Creio que os gatos s\u00e3o esp\u00edritos vindos \u00e0 Terra. Um gato \u00e9 um ser humano disfar\u00e7ado, s\u00f3 que n\u00e3o perturba a paz alheia;<\/li>\n<li>N\u00e3o h\u00e1 nada mais grandioso e arrebatador do que um gato lutando contra algo que n\u00e3o existe, vale a pena viver para contemplar essa vis\u00e3o;<\/li>\n<li>Os gatos sempre sabem se as pessoas valem ou n\u00e3o. Com frequ\u00eancia, simplesmente decidem n\u00e3o gastar seus afetos com qualquer um.<\/li>\n<\/ul>\n<p>H\u00e1 algo intrigante na escolha de Hemingway pelos gatos. Mesmo decantando outros animais, foram os felinos dom\u00e9sticos que primordialmente capitalizaram seu afeto e como ele dizia \u201c<em>me traduzem<\/em>\u201d. Quantos conhecem as marcas temperamentais do grande escritor podem imaginar porqu\u00eas. Diria que h\u00e1 um fator maior explicativo dessa prefer\u00eancia, a s\u00edntese de tudo que o autor pretendia: ser acolhido e, no aconchego, ser amado. Ser amado como foi sua <em>Snowball<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Isa M\u00e1rcia Ernest Hemingway \u00e9 figura importante no topo de minhas prefer\u00eancias. Seguramente, \u201cO velho e o mar\u201d disputa primazia entre os cinco textos &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20511,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20508","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20508","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20508"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20508\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20512,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20508\/revisions\/20512"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20511"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20508"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20508"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20508"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}