{"id":20483,"date":"2023-08-27T09:23:10","date_gmt":"2023-08-27T12:23:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20483"},"modified":"2023-08-27T09:24:08","modified_gmt":"2023-08-27T12:24:08","slug":"o-cachorro-de-rondon-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-cachorro-de-rondon-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O CACHORRO DE RONDON (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Catarina Lobour\u00e9 Madeira Barreto Ferreira<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>&#8220;Meu Ca\u00ed, mais humano do que muitos humanos!&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Todo contador de hist\u00f3rias tem pronto um caso na ponta da l\u00edngua. Ali\u00e1s, vale dizer que todo real contador, os bons de verdade, tem mil, tudo, \u00e9 claro, dependendo da ocasi\u00e3o e da audi\u00eancia. Doces c\u00ednicos, encantadores cr\u00f4nicos, narradores carentes de aplausos potencializam repert\u00f3rios surpreendentes. Com este \u00e1libi, me permito dizer que tenho uma estranha paix\u00e3o pela biografia de alguns personagens esquisitos, tipos que nem sempre comp\u00f5em a lista dos queridinhos oficializados pela opini\u00e3o p\u00fablica. De regra, trata-se de pessoas <em>gauches<\/em>, her\u00f3is com perfis contestadores, gente meio exc\u00eantrica. Exce\u00e7\u00e3o honrosa, o General C\u00e2ndido Rondon.<\/p>\n<p>Nascido no interior do Mato Grosso, na min\u00fascula Santo Ant\u00f4nio de Leveger, em 1865, caboclo descendente de ind\u00edgenas guan\u00e1, boror\u00f3 e terena, se fez como militar especializado em telegrafia. Durante a d\u00e9cada de 1920, atuou no Movimento Tenentista e na Revolu\u00e7\u00e3o de 1924 em S\u00e3o Paulo, condi\u00e7\u00e3o que ali\u00e1s lhe garantiu o t\u00edtulo de General. Dono de posi\u00e7\u00f5es firmes, foi contra a Revolu\u00e7\u00e3o de 30 &#8211; o que lhe custou dias de pris\u00e3o. Sobretudo, Rondon destaca-se por tr\u00eas bandeiras que justificam a refer\u00eancia \u201c<em>o ideal feito homem\u201d<\/em>: sua incans\u00e1vel dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 causa ind\u00edgena, o declarado combate ao nazifascismo e a coragem para miss\u00f5es de alto risco. Por certo, sua atua\u00e7\u00e3o em 1907 implantando linhas telegr\u00e1ficas na Amaz\u00f4nia &#8211; e a lideran\u00e7a na chamada \u201cComiss\u00e3o Rondon\u201d, que durou at\u00e9 1915 &#8211; foi um dos atos mais consequentes da nossa hist\u00f3ria recente. H\u00e1 muitos detalhes invulgares em sua trajet\u00f3ria, inclusive sua presen\u00e7a na expedi\u00e7\u00e3o que trouxe o presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, interessado em explorar o Vale do Rio Paraguai e a regi\u00e3o amaz\u00f4nica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RRndon_e_Roosevelt.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20488\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RRndon_e_Roosevelt-450x232.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"232\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RRndon_e_Roosevelt-450x232.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RRndon_e_Roosevelt-300x155.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/RRndon_e_Roosevelt.webp 655w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Presidente Roosevelt estava interessado em explorar o Vale do Rio Paraguai e a regi\u00e3o amaz\u00f4nica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A par de tantas andan\u00e7as, todas interessantes, ao lado de feitos her\u00f3icos e de causas fundamentais para o nosso desenvolvimento, h\u00e1 uma singularidade apaixonante na vida do General Rondon: sua devo\u00e7\u00e3o incontida por um cachorro de estima\u00e7\u00e3o, Ca\u00ed era seu nome. Esther de Viveiros coletou muitas entrevistas com o intr\u00e9pido general e em mais de 600 p\u00e1ginas produziu um livro fascinante \u201c<em>Rondon conta sua vida<\/em>\u201d, leitura aconselh\u00e1vel inclusive pelo pref\u00e1cio de Rachel de Queiroz. Como seria de se esperar. as perip\u00e9cias contidas s\u00e3o in\u00fameras, mas nenhuma \u00e9 mais comovente que a despedida de Rondon de seu amado Ca\u00ed. E s\u00e3o seus os dizeres sobre a morte do companheiro insepar\u00e1vel:<\/p>\n<p><em>\u201c\u00c0 tardinha do dia 2 de junho (1919) veio ainda me receber, embora j\u00e1 andasse doente, saltando para a canoa onde eu estava &#8211; teve ent\u00e3o a primeira s\u00edncope. Tentou, ainda assim, carregar o meu chap\u00e9u, o que fazia sempre, quando eu chegava. Porque era um c\u00e3o excepcionalmente inteligente, um pointer de rara beleza. Meu nobre Ca\u00ed! Admitindo minha superioridade, n\u00e3o te consideravas, entretanto, escravo. Era volunt\u00e1ria a tua submiss\u00e3o e teus olhos, quase humanos, viam em mim um deus, um rei, acima de tudo justo, capaz de conhecer todos os teus pensamentos para, de ti, s\u00f3 exigir aquilo que te conviesse.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Por teu lado, lias o que se passava em mim, compreendias minha disposi\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo, conservando-te horas a meus p\u00e9s, im\u00f3vel se me vias ocupado. E, se me sentias triste, vinhas encostar tua bela cabe\u00e7a, olhando-me como se dissesses: \u2018N\u00e3o te aflijas, aqui estou eu, o teu verdadeiro amigo, pronto para substituir todos os teus amigos que falharem, para combater todos os teus inimigos. Vamos dar um passeio e n\u00e3o penses mais. Eu n\u00e3o costumo pensar&#8230;\u2019 Tudo isso acompanhado de expressivo movimento de cauda&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Meu Ca\u00ed, mais humano do que muitos humanos! Disse-me, uma vez, um \u00edndio que nos acompanhava depois de muito observ\u00e1-lo:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Meu Coronel, Ca\u00ed n\u00e3o \u00e9 cachorro!<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Que \u00e9 ele, ent\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Ca\u00ed \u00e9&#8230; gente&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>E que precioso auxiliar, como guarda do acampamento, carregando a caderneta com inexced\u00edvel zelo, indo buscar o que se lhe pedia, encontrando, com seu admir\u00e1vel faro, as fichas que, durante a medi\u00e7\u00e3o, ca\u00edam entre as folhas secas.<\/em><\/p>\n<p><em>Perdera-se, certa vez, uma caderneta. Chamei-o e, segurando-lhe a cabe\u00e7a pelas orelhas, olhei-o bem nos olhos e ordenei repetidas vezes, com voz firme:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Caderneta, Ca\u00ed, busca!<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rondon_e_os_indios_2.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20487\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rondon_e_os_indios_2-450x285.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"285\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rondon_e_os_indios_2-450x285.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rondon_e_os_indios_2-300x190.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/rondon_e_os_indios_2.webp 655w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Rondon tinha uma incans\u00e1vel dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 causa ind\u00edgena<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>Da\u00ed a dois dias voltava ele com a caderneta na boca. N\u00e3o admitiu que ningu\u00e9m lhe tocasse. Correu para mim, deitou sua grande cabe\u00e7a no meu colo, a me fitar amorosamente, a solicitar os afagos que lhe n\u00e3o foram regateados&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Morreu quando terminamos nossos trabalhos, quando n\u00e3o mais corr\u00edamos perigo e eu n\u00e3o tive a alegria de lhe proporcionar vida sossegada na ch\u00e1cara onde sonhava viver com os meus, com a minha bicharada&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Vida que n\u00e3o estava muito longe, porque eram meus \u00faltimos esfor\u00e7os no sentido de minha completa emancipa\u00e7\u00e3o da vida do mato&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>Enterramo-lo no \u00faltimo dia de servi\u00e7o da expedi\u00e7\u00e3o, no porto do antigo fortim da Concei\u00e7\u00e3o, debaixo de tr\u00eas grandes loureiros cuiabanos&#8230;<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Desde menino aprendi a respeitar Rondon por raz\u00f5es c\u00edvicas, maduro refiz minha admira\u00e7\u00e3o, com a hist\u00f3ria de Ca\u00ed. E fico pensando na dignidade de biografias que insistem em trocar o lado her\u00f3ico pelo humano como se n\u00e3o houvesse lugar para delicadezas nas figuras p\u00fablicas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Catarina Lobour\u00e9 Madeira Barreto Ferreira &#8220;Meu Ca\u00ed, mais humano do que muitos humanos!&#8221; Todo contador de hist\u00f3rias tem pronto um caso na ponta da &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20489,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20483","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20483"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20483\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20491,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20483\/revisions\/20491"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20489"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}