{"id":20475,"date":"2023-08-20T08:10:47","date_gmt":"2023-08-20T11:10:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20475"},"modified":"2023-08-20T08:19:03","modified_gmt":"2023-08-20T11:19:03","slug":"envelhecentemente-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/envelhecentemente-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"ENVELHECENTE(MENTE) (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o; a palavra <em>envelhecente<\/em> n\u00e3o existe, mas se Guimar\u00e3es que tamb\u00e9m era Rosa a tivesse proferido, certamente a sujeitaria na condi\u00e7\u00e3o de adv\u00e9rbio. E diverso \u201cde modo\u201d, \u201cde lugar\u201d, ou \u201cintensidade\u201d. Seria \u201cadv\u00e9rbio de tempo\u201d, de passagens que modificam n\u00e3o s\u00f3 a a\u00e7\u00e3o do verbo, mas muta\u00e7\u00f5es biol\u00f3gicas. A medita\u00e7\u00e3o sobre o andamento <em>bio-existencial<\/em>, por sua vez, permite acompanhamento musical e abre caminho para um cancioneiro l\u00edrico, algo pr\u00f3ximo da sagra\u00e7\u00e3o da vida como se a compuls\u00e3o da finitude coroasse nossas trajet\u00f3rias.<\/p>\n<p>Da prosa \u00e0 poesia, da poesia \u00e0 m\u00fasica, Caetano Veloso reponta dignificando a discuss\u00e3o sobre o envelhecer lembrando, por\u00e9m, que h\u00e1 um Caetano que concorre com outro Caetano. Explico-me: tem o compositor e int\u00e9rprete das modinhas amorosas, e tem outro desconcertante, fil\u00f3sofo rec\u00f4ndito, timoneiro de embarca\u00e7\u00f5es arriscadas. E foi o segundo que musicou \u201c<em>O homem velho<\/em>\u201d, pequeno tesouro asilado entre tantos versos carentes de destaques. Considerando a vida, e nela as fases experimentadas pelos nossos corpos, Caetano vitoriou \u201c<em>o homem velho deixa a vida e morte para tr\u00e1s\/ Cabe\u00e7a a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais\/ O grande espelho que \u00e9 o mundo ousaria refletir os seus sinais\/ O homem velho \u00e9 o rei dos animais<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Capa-O-homem-velho.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20476\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Capa-O-homem-velho.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Capa-O-homem-velho.jpg 400w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Capa-O-homem-velho-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Capa-O-homem-velho-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Capa-O-homem-velho-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Capa-O-homem-velho-360x360.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u201c<em>Rei dos animais<\/em>\u201d, nossa! Afirma\u00e7\u00e3o potente, solene, bonita, n\u00e9? Ent\u00e3o, assumindo a majestade que me cabe, avalio a extens\u00e3o de minha experi\u00eancia para responder uma \u00fanica pergunta: que rei sou eu? Assim, do alto de mim mesmo, me dou a vislumbrar um trajeto alongado em meandros, atalhos por vezes sombreados e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, diviso at\u00e9 alguns campos floridos, exuberantes! Dia desses, ouvindo um programa na TV, o \u00e2ncora perguntava aos convidados \u201c<em>o que gostaria que fosse escrito em sua l\u00e1pide<\/em>\u201d e eu, do meu melhor soturno, formulei uma resposta \u201c<em>morri, estou bem, mas n\u00e3o faria tudo do mesmo jeito<\/em>\u201d. Grato, tenho repetido que minha trajet\u00f3ria produziu o que fui\/sou, mas poderia ter sido diferente. Melhor? Despertei roteiros percorridos em busca dos momentos capitais que me qualificariam <em>rei dos animais<\/em>.<\/p>\n<p>E claro que o peso dos anos, oito d\u00e9cadas somadas, foi o primeiro ponto ponderado. Tratei mal meu corpo, morada da minha vida: ainda que n\u00e3o tenha me tornado fumante e nem abusado do \u00e1lcool ou de drogas, n\u00e3o fui adequado nas escolhas alimentares. At\u00e9 tentei, mas a rotina da vida me fez consumidor de alternativas tolas: calorias em excesso, corantes, aditivos, ultraprocessados, refrigerantes&#8230; Por for\u00e7a da profiss\u00e3o nunca me dediquei aos exerc\u00edcios f\u00edsicos e na aus\u00eancia dessas pr\u00e1ticas perdi massa muscular, ganhei peso e agora dependente de articula\u00e7\u00f5es mal-humoradas. \u00c9 verdade que em troca me tornei profissional atento, cumpridor de obriga\u00e7\u00f5es protocolares, pesquisador produtivo, mas exagerei no trabalho; tornei-me \u00edntimo de ser\u00f5es. Mas haveria meio termo? E o que isto tem a ver com meu reinado? E novamente me volta \u00e0 cabe\u00e7a o mesmo \u201csegundo\u201d Caetano cobrando ju\u00edzo na \u201c<em>Ora\u00e7\u00e3o ao tempo<\/em>\u201d e at\u00e9 ou\u00e7o \u201c<em>\u00e9s um senhor t\u00e3o bonito\/ Quanto a cara do meu filho\/ Tempo, tempo, tempo, tempo\/ Vou te fazer um pedido\/ Tempo, tempo, tempo, tempo&#8230; Entro em um acordo contigo\/ Tempo, tempo, tempo, tempo<\/em>\u201d. A palavra \u201cacordo\u201d acendeu meus olhos para um acerto de contas com minha ess\u00eancia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Rei-dos-animais.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20477\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Rei-dos-animais-450x276.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Rei-dos-animais-450x276.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Rei-dos-animais-300x184.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Rei-dos-animais.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Falta um pouco para em sentir o rei dos animais&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Dei \u00e1gua \u00e0 nau de meu pret\u00e9rito imperfeito e destilei os momentos em que me senti envelhecendo. Devo antes dizer que o antigo que sou n\u00e3o demorou a ser reconhecido aos olhos alheios. Eu, pelo contr\u00e1rio, apenas notei quando entrando em vag\u00e3o de metr\u00f4 tipos se levantavam para que eu me sentasse. Em outra oportunidade atinei quando afetivamente as pessoas come\u00e7aram a se referir a mim como \u201csenhorzinho\u201d, \u201cvovozinho\u201d, \u201ctiozinho\u201d, tudo no diminutivo. Sabe aquela hist\u00f3ria do lugar na fila do banco, da gratuidade nos transportes?&#8230;<\/p>\n<p>Se pudesse refazer trilhas, teria aproveitado melhor o grande amor que se foi t\u00e3o cedo, festado mais os filhos nos rituais de passagens, agradecido com abra\u00e7os e risadas aos meus pais e irm\u00e3os e seria ainda mais intenso com tantos bons amigos. Pois \u00e9, tudo isso ladainhado convoca retomadas do s\u00e1bio Caetano. Reconhe\u00e7o-me ainda \u201c<em>envelhecente<\/em>\u201d, resta-me um trecho de estrada a seguir, e logro desempenhar o anunciado contido em versos da can\u00e7\u00e3o: \u201c<em>eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron\/ E ao seu olhar tudo que \u00e9 cor muda de tom<\/em>\u201d. Ainda n\u00e3o cheguei l\u00e1, como biblicamente Abrah\u00e3o deixou Hebron em busca de outro arremate. Segundo Caetano, percebo que ainda resta um pouco de estrada para realmente me sentir <em>rei dos animais<\/em>, e assim sa\u00fado o adv\u00e9rbio inventado e, <em>envelhecentemente<\/em>, garanto a coroa\u00e7\u00e3o que me justificaria como <em>rei dos animais<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o; a palavra envelhecente n\u00e3o existe, mas se Guimar\u00e3es que tamb\u00e9m era Rosa a tivesse proferido, certamente a sujeitaria na condi\u00e7\u00e3o de adv\u00e9rbio. E diverso &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20481,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20475","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20475"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20475\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20479,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20475\/revisions\/20479"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20481"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}