{"id":20461,"date":"2023-08-13T10:42:00","date_gmt":"2023-08-13T13:42:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20461"},"modified":"2023-08-13T10:42:00","modified_gmt":"2023-08-13T13:42:00","slug":"pai-problema-pai-solucao-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/pai-problema-pai-solucao-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PAI PROBLEMA, PAI SOLU\u00c7\u00c3O! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Confesso que procurei muito por um t\u00edtulo adequado porque \u201cpai\u201d \u00e9 um dos temas mais\u00a0sens\u00edveis de minha agenda emocional. E n\u00e3o pretendia ser desmancha prazer em uma\u00a0celebra\u00e7\u00e3o que merece festa. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o queria ser repetitivo ecoando o \u00f3bvio. Isto me\u00a0fez retomar a g\u00eanese de meu interesse. Toda crian\u00e7a sonha ser algu\u00e9m destacado: jogador de\u00a0futebol, artista&#8230; Mesmo os mais corriqueiros falam em se tornar m\u00e9dicos, engenheiros,\u00a0advogados (recentemente, astronautas, especialistas em intelig\u00eancia artificial ou chef). Comigo\u00a0foi diferente, mesmo antes de me definir pela doc\u00eancia, crian\u00e7a ainda, sempre quis me tornar\u00a0pai, o melhor do mundo.<\/p>\n<p>Ca\u00e7ador de mim, ao longo da vida colecionei can\u00e7\u00f5es, poemas e sobretudo livros afeitos \u00e0s\u00a0rela\u00e7\u00f5es de pais e filhos. Depurei reflex\u00f5es e, finalmente guiado por alguma literatura, cheguei\u00a0a um termo: \u201cPai problema, Pai solu\u00e7\u00e3o\u201d, e explico-me na trilha da paternidade redentora.\u00a0Quando doei minha biblioteca para a UNIFESP, fiz quest\u00e3o de manter volumes sobre pais e\u00a0filhos. Guardei, por exemplo, entre outros, \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d &#8211; n\u00e3o\u00a0consegui me desvencilhar daquele acerto final, do personagem morto. Nem sei dizer o que\u00a0causou em mim o livro de Milton Hatoum, \u201cDois Irm\u00e3os\u201d, pois sendo filho de libaneses, vi\u00a0minha experi\u00eancia familiar enquadrada naquela moldura familiar. Se algu\u00e9m me pedisse um\u00a0\u00fanico texto autobiogr\u00e1fico aproximando pai e prole \u201cO Filho Eterno\u201d de Crist\u00f3v\u00e3o Tezza seria o\u00a0eleito dada a dificuldade de um progenitor cuidando do filho com s\u00edndrome de Down. E n\u00e3o s\u00f3\u00a0esse, pois mesmo sendo pai de tr\u00eas homens, me comovi com \u201cPai de menina\u201d do apresentador\u00a0Marcos Mion, e at\u00e9 com o pai de primeira viagem, Marcos Piangers, com o ing\u00eanuo \u201cO papai \u00e9\u00a0pop\u201d. Dia desses, me surpreendi apresentando uma lista de textos imperd\u00edveis e fiz quest\u00e3o de\u00a0colocar nos primeiros lugares o \u201cQuase mem\u00f3ria\u201d do Carlos Heitor Cony, p\u00e1ginas contando a\u00a0incr\u00edvel proeza do personagem-filho que recebeu no sepultamento do pai um pacote com\u00a0cromos fundamentais para explicar a vida familiar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/dois-irmaos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20462\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/dois-irmaos-450x328.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"328\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/dois-irmaos-450x328.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/dois-irmaos-300x219.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/dois-irmaos-768x559.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/dois-irmaos.jpg 810w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Moldura de minha experi\u00eancia pessoal&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 claro que, al\u00e9m da literatura brasileira, bibliotecas seriam compostas por essa tem\u00e1tica, mas\u00a0devo revelar que leitor ass\u00edduo, acho que jamais encontraria um texto capaz de bater o do\u00eddo\u00a0\u201cPai, pai\u201d de Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan, lan\u00e7ado em 2017. Tudo nesse livro \u00e9 arrebatador, a come\u00e7ar pela dram\u00e1tica capa. As p\u00e1ginas seguintes s\u00e3o perfurantes e nelas nada mais grave do\u00a0que a problematiza\u00e7\u00e3o de sentimentos que se arriscam na contram\u00e3o exaltativa.<\/p>\n<p>Diria, sem medo de errar, que todos os textos lidos sobre a sagra\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica pai\/paternidade\u00a0at\u00e9 ent\u00e3o serviriam como conforto para o \u201cPai, pai\u201d. Ali\u00e1s, assumindo riscos do exagero, diria\u00a0que poucos escritos arrancaram tanto sobressalto como o sofrimento do menino submetido a um destino amaldi\u00e7oado vida afora. Sabe aquele livro que voc\u00ea tem que interromper a leitura\u00a0para sorver a dor e derreter a indigna\u00e7\u00e3o? Pois \u00e9 este: a defini\u00e7\u00e3o de um progenitor b\u00eabado,\u00a0violento, agressivo, uma epopeia de falsidades que obriga o leitor a tomadas de f\u00f4lego. O\u00a0ingresso precoce aos 10 anos num convento foi pren\u00fancio de uma vida de muitas outras\u00a0fugas, algumas de alcance coletivo, como a sa\u00edda do Brasil por motivos pol\u00edticos. As cogita\u00e7\u00f5es\u00a0sobre a pr\u00f3pria orienta\u00e7\u00e3o sexual se misturam com temas da cultura ampla que, de maneira\u00a0tramada, explicam o menino do interior paulista mo\u00eddo nas engrenagens da crescente\u00a0globaliza\u00e7\u00e3o. Certamente, contudo, o mais surpreendente das 252 p\u00e1ginas \u00e9 a lavagem do \u00f3dio\u00a0tornado perd\u00e3o. Isso \u00e9 arrebatador.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Trevisan.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20463\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Trevisan.jpg\" alt=\"\" width=\"320\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Trevisan.jpg 320w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Trevisan-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Tudo que meu pai me deu foi um espermatozoide&#8221;, Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A primeira frase do livro equivale a um soco no est\u00f4mago, convite ao abismo, gole de fel:\u00a0\u201cTudo que meu pai me deu foi um espermatozoide\u201d. O meio do livro \u00e9 de doloroso\u00a0afastamento do pai, \u201cpresen\u00e7a ausente\u201d, mas o fim retoma o trajeto vivencial e purifica\u00a0m\u00e1goas sintetizadas no dizer derradeiro: \u201cMeu pai me deu um espermatozoide, e assim eu gerei um pai\u201d. Chorei&#8230; Chorei pela coragem do reconhecimento rasgado de clich\u00eas e gratid\u00f5es\u00a0culpadas.<\/p>\n<p>A viagem empreendida entre um ponto e outro, entre a abertura e o ep\u00edlogo do \u201cPai, pai\u201d\u00a0contrasta com os conte\u00fados comuns e rom\u00e2nticos, exaltativos de paternidades sempre\u00a0exibidas sem charadas ou meandros cr\u00edticos, santificadores. A transforma\u00e7\u00e3o do julgamento\u00a0sobre uma hist\u00f3ria como esta serve de roteiro para o perd\u00e3o de tantos que fogem do figurino\u00a0do pai fidalgo, benevolente e cheio de exemplos legados sem cr\u00edtica. Por paradoxal que pare\u00e7a\u00a0trata-se de um livro positivo. Positivo sobretudo porque afinal exalta a paternidade refinada\u00a0pela dor e pela complexa supera\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as. E tanto depura que equivale reconhecer\u00a0que qualquer rela\u00e7\u00e3o pai\/filho implica repensares que carregam em si a fia\u00e7\u00e3o de fiapos soltos.\u00a0E tudo leva \u00e0 humaniza\u00e7\u00e3o de pais que corrigem rotas tortuosas, pois, afinal, que pai nunca\u00a0errou?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confesso que procurei muito por um t\u00edtulo adequado porque \u201cpai\u201d \u00e9 um dos temas mais\u00a0sens\u00edveis de minha agenda emocional. 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