{"id":20454,"date":"2023-08-06T08:56:22","date_gmt":"2023-08-06T11:56:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20454"},"modified":"2023-08-06T08:56:22","modified_gmt":"2023-08-06T11:56:22","slug":"a-arte-de-mudar-de-assunto-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/a-arte-de-mudar-de-assunto-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"A ARTE DE MUDAR DE ASSUNTO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>A verdade saindo do po\u00e7o, Jean-Leon G\u00e8rome, 1896<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Em\u00edlio Antonio Frascischetti<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A conversa frugal de repente virou pol\u00eamica. Tratava-se de encontro almejado, reuni\u00e3o de amigos de adolesc\u00eancia que n\u00e3o se viam h\u00e1 cerca de 50 anos. E \u00e9ramos t\u00e3o unidos no col\u00e9gio interno. Organizei tudo em casa para juntar um do Nordeste e outro do Sul, um historiador, outro cr\u00edtico liter\u00e1rio, ambos reputados. Come\u00e7amos bem, apresentamos s\u00ednteses de nossas trajet\u00f3rias, comentamos sobre filhos e netos, coisas do g\u00eanero. Sem que d\u00e9ssemos conta, por\u00e9m, o papo desandou para pol\u00edtica e, n\u00e3o demorou, os dois pareciam inimigos na fronteira da agress\u00e3o. Vitaminei meu lado anfitri\u00e3o e evoquei or\u00e1culos capazes de me iluminar e, numa fagulha, surgiu a oportunidade: um dos contentores defendendo seu pol\u00edtico de estima\u00e7\u00e3o, quase aos gritos soltou a frase redentora: \u201cele \u00e9 um ladr\u00e3o, esta \u00e9 a verdade nua e crua\u201d. Foi o que bastou.<\/p>\n<p>Peguei carona na deixa e interrompi: \u201cvoc\u00eas conhecem a lenda da verdade e da mentira\u201d? Servindo mais uma ta\u00e7a de vinho fui contando a historinha que motivou o pintor Jean-Leon G\u00e9rome, em 1896, a dar forma a um de seus quadros mais instigantes que, ali\u00e1s, n\u00e3o sem raz\u00e3o \u00e9 chamado \u201c<em><strong>A verdade saindo do po\u00e7o<\/strong><\/em>\u201d. Pois bem, com ar de Gandhi tropical, assumi a conta\u00e7\u00e3o: \u201cum dia, a mentira se encontrou com a verdade \u00e0 beira de um po\u00e7o. Como o calor era intenso, a mentira convidou a verdade para um banho refrescante. Iludida, a convidada concordou e ambas, nuas, entraram na \u00e1gua. Arrebatada, a verdade se deixou distrair e, r\u00e1pida, a mentira fugiu. Desesperada, a verdade recusando-se a vestir as roupas da mentira, saiu mundo afora, nua e crua\u201d.<\/p>\n<p>Confesso que foi desconcertante ser interrompido pelo amigo nortista que da altura de seu conhecimento de arte disse: \u201c\u00e9, mas antes Luigi Mussini, em 1847, retratou a verdade aproximada da ci\u00eancia e ent\u00e3o os fil\u00f3sofos (S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles) se juntam aos f\u00edsicos, astr\u00f4nomos e matem\u00e1ticos (Galileu, Pascal, Kepler) e um apontando para o feito do outro indicava o caminho da ci\u00eancia\u201d e, completando com ironia, \u201cao contr\u00e1rio dos negacionistas\u201d. Pronto, a terceira guerra mundial estava declarada.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20456\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-450x299.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"299\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-450x299.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cO triunfo da verdade\u201d, Luigi Mussini, 1847<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Novamente apelei para uma varia\u00e7\u00e3o do mesmo tema lembrando que anteriormente Peter Paul Rubens, em 1622, tamb\u00e9m se valeu da mesma figura\u00e7\u00e3o sugerindo a verdade vitoriosa sobre a disc\u00f3rdia e a falsidade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-Rubens.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20457\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-Rubens-163x450.jpg\" alt=\"\" width=\"163\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-Rubens-163x450.jpg 163w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-Rubens-109x300.jpg 109w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Triunfo-da-verdade-Rubens.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 163px) 100vw, 163px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>\u201cO triunfo da verdade\u201d, Peter Paul Rubens, 1622<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O amigo do sul n\u00e3o se deixou vencer e como especialista em cultura renascentista, recobrou a ant\u00edtese da verdade, mostrando a mentira como pr\u00e1tica e, para evidenciar, recuperou o fato de Michelangelo ter apelado para falsifica\u00e7\u00f5es. E foi dizendo: \u201cn\u00e3o se esque\u00e7am que em 1496, com 21 anos, Michelangelo forjou a escultura \u2018<em><strong>Eros Adormecido<\/strong><\/em>\u2019 e com requinte, at\u00e9 enterrou para melhor falsear a pe\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>O nortista, n\u00e3o se dando por vencido, aproveitou a oportunidade e replicou: \u201cent\u00e3o a <em>fakenews<\/em> j\u00e1 existia e seu partido apenas aperfei\u00e7oou\u201d. Novamente, interferi apoiado no fabuloso livro de Noah Charney \u201c<em><strong>O ladr\u00e3o de arte<\/strong><\/em>\u201d, argumentando que houve um tempo em que a c\u00f3pia era prezada como atividade exemplar, atestado de aptid\u00e3o e, transformados em personagens intrigantes, alguns desses \u201cartistas\u201d tornaram-se famosos como \u00e9 o caso de Wolfgang Beltracchi, que produziu uma quantidade enorme de falsifica\u00e7\u00f5es famosas e at\u00e9 passou de vil\u00e3o a her\u00f3i.<\/p>\n<p>Na medida em que o tema centrou na quest\u00e3o art\u00edstica, os interesses foram se alterando, mesmo assim, temendo que tang\u00eassemos exemplos como \u201cDesastres da guerra\u201d (Goya), \u201cGuernica\u201d (Picasso) ou \u201cGuerra e paz\u201d (Portinari), tratei de questionar sobre prefer\u00eancias pessoais e ent\u00e3o uma enxurrada de possibilidades se abriu: \u201cAs meninas\u201d de Velasquez; \u201cA noite estrelada\u201d de Van Gogh; \u201cA cria\u00e7\u00e3o\u201d de Michelangelo; \u201cA \u00faltima ceia\u201d de Da Vinci; \u201cO grito\u201d de Munch; \u201cO nascimento de V\u00eanus\u201d de Botticelli; de \u201cPicasso o escolhido foi \u201cLes d\u00e9moiselles d\u2019Avignon\u201d e de Monet \u201cA ponte sobre uma Lagoa de l\u00edrios d\u2019\u00e1gua\u201d; de Dali \u201cA persist\u00eancia da mem\u00f3ria\u201d, e, \u00e9 claro, n\u00e3o poderia faltar \u201cA mo\u00e7a com brinco de p\u00e9rola\u201d de Vermeer e nem o intrigante \u201cA trai\u00e7\u00e3o das imagens\u201d de Magritte e \u201cO beijo\u201d de Klimt. Do Brasil ganharam destaque tanto Tarsila com o \u201cAbapuru\u201d, \u201cOs retirantes\u201d de Portinari, como de Di Cavalcanti com \u201cAs cinco mo\u00e7as de Guaratinguet\u00e1\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Salvatori-Mundi.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20458\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Salvatori-Mundi-306x450.jpg\" alt=\"\" width=\"306\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Salvatori-Mundi-306x450.jpg 306w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Salvatori-Mundi-204x300.jpg 204w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/Salvatori-Mundi.jpg 387w\" sizes=\"auto, (max-width: 306px) 100vw, 306px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Salvator Mundi, atribuido a Leonardo Da Vinci<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Antes que o volume de cita\u00e7\u00f5es chegasse ao milh\u00e3o, sugeri que escolhessem uma s\u00f3, e ent\u00e3o entrou na disputa \u201c<em><strong>Salvator Mundi<\/strong><\/em>\u201d atribuido a Da Vinci\u201d. A palavra \u201catribuido\u201d bastou como estupim para nova disputa &#8211; disputa n\u00e3o, guerra &#8211; mas esta eu deixei rolar porque seria travada em outro campo, na arena da arte que, assim, sugeria outra arte, esta capaz de exigir argumentos e legitimar a mudan\u00e7a de assunto, o conhecimento, a cultura em busca das vestes da verdade de cada um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A verdade saindo do po\u00e7o, Jean-Leon G\u00e8rome, 1896 Para Em\u00edlio Antonio Frascischetti A conversa frugal de repente virou pol\u00eamica. 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