{"id":20419,"date":"2023-07-23T09:40:44","date_gmt":"2023-07-23T12:40:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20419"},"modified":"2023-07-23T09:40:44","modified_gmt":"2023-07-23T12:40:44","slug":"e-agora-ze-celso-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/e-agora-ze-celso-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"E AGORA, Z\u00c9 CELSO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Dif\u00edcil contar o que senti com a troca de cen\u00e1rio do Z\u00e9 Celso Martinez, afastado de n\u00f3s no dia 6 \u00faltimo. Nem vou especular se ele est\u00e1 bem, melhor do que estaria no Teatro Oficina, palco que pariu em dores, alegrias e aplausos de quantos copulam com a arte. Imposs\u00edvel estar mais \u00e0 vontade posto que ali foi o lugar onde viveu embaralhando a pe\u00e7a existencial na qual misturou representa\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica, e muita invencionice. N\u00e3o h\u00e1, contudo, como dar por barato o ritual de passagem, a charada da despedida antes de superar os 50 tons de suas cinzas tornadas.<\/p>\n<p>A criatura foi velada no pr\u00f3prio Teatro que criou. <em>Velada<\/em>, palavra estranha e m\u00f3rbida; <em>velada<\/em>, ironia pura, quase desacato; <em>velada<\/em>, logo ele que queimou o mesmismo com \u00edmpeto oswaldiano do \u201cRei da vela\u201d, libelo absoluto da moderniza\u00e7\u00e3o da nossa cultura. Em torno de seu corpo, a l\u00f3gica centr\u00edfuga da algazarra se fez cord\u00e3o no qual tipos bacantes se soltaram em frenesis requebrados por carpideiras e carpideiros invertidos. E num alucinado transe festou-se o enredo carnavalesco da Vila Izabel, assinado por ele em 1975, \u201c<em>Quero o perfume das flores\/ a\u00e7\u00e3o, luz e cores\/ nesta festa popular\/ eu sou o teatro brasileiro\/ da vida o espelho verdadeiro\/ sambando neste Carnaval\/ com a minha arte que \u00e9 imortal\/ barreiras as ven\u00e7o com bravura\/ transmitindo a toda gente\/ distra\u00e7\u00e3o e cultura\/ sou a magia permanente\/ que na hist\u00f3ria do Brasil\/ sempre se fez presente\/ tenho beleza, sou a esperan\u00e7a\/ trago alegria\/ neste dia de folia<\/em>\u201d. Ressalte-se \u201c<em>eu sou o teatro brasileiro&#8230; trago alegria neste dia de folia<\/em>\u201d. E folia n\u00e3o faltou naquele dia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Rei-da-vela.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-20420\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Rei-da-vela.jpeg\" alt=\"\" width=\"418\" height=\"268\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em termos musicais, tantas outras trilhas se mostraram paut\u00e1veis e valeriam como prel\u00fadios para aquele festim pag\u00e3o, avesso perfeito de qualquer solenidade contrita, solene, gregoriana. \u201c<em>Ningu\u00e9m chorou\/ ningu\u00e9m riu, e era carnaval<\/em>\u201d, pois \u00e9, parece que S\u00e9rgio Ricardo se antecipou sugerindo que \u201c<em>no fogo de um barrac\u00e3o\/ s\u00f3 se cozinha ilus\u00e3o<\/em>\u201d e, arte imitando a vida, soou como trilha do dram\u00e1tico fogo no apartamento. N\u00e3o poderia, \u00e9 claro, faltar a evoca\u00e7\u00e3o do \u201c<em>fita amarela<\/em>\u201d de Noel e Almirante reafirmando o que se encenou \u201c<em>n\u00e3o quero flores\/ nem coroa com espinho\/ s\u00f3 quero choro de flauta\/ com viol\u00e3o e cavaquinho<\/em>\u201d. Sabe, quem repontou garantindo a patuscada, sabe?! Ningu\u00e9m mais ningu\u00e9m menos que Rita Lee, justamente ela que se evaporou t\u00e3o recentemente, se sugeriu no verso s\u00e1bio \u201c<em>pra que sofrer com despedida?\/<\/em><em> se quem parte n\u00e3o leva\/ nem o sol, nem as trevas\/ e quem fica n\u00e3o se esquece tudo o que sonhou<\/em>\u201d. E tantos outros cantos deixaram seus cantos para o espanta-choro do Z\u00e9 Celso&#8230;<\/p>\n<p>E de arte em arte, a literatura t\u00e3o prezada tamb\u00e9m se fez pref\u00e1cio corrigindo a tradi\u00e7\u00e3o m\u00f3rbida, e n\u00e3o haveria de ser de outro jeito, pois o Macuna\u00edma que nos habita n\u00e3o permitiria vest\u00edgio de luto circunspecto. Dos livros, a primeira voz inscrita veio pela pena de Machado de Assis no \u201c<em>Mem\u00f3ria p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em>\u201d. E antevejo o pr\u00f3prio autor-ator-defunto dando conta do legado na voz do morto-falante \u201c<em>minha obra em si mesma \u00e9 tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te n\u00e3o agradar, pago-te com um piparote, e adeus<\/em>\u201d. Sim a Deus, \u00e0s deusas, aos orix\u00e1s e encantados. Evo\u00e9&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Velorio-Ze-Celso.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20421\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Velorio-Ze-Celso-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Velorio-Ze-Celso-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Velorio-Ze-Celso-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Velorio-Ze-Celso-768x512.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Velorio-Ze-Celso.webp 924w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O vel\u00f3rio de Z\u00e9 Celso no Teatro Oficina foi uma manifesta\u00e7\u00e3o de vida e alegria<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Outro texto se incorporou: \u201c<em>Morte e a morte de Quincas Berro d\u2019\u00e1gua<\/em>\u201d. Como que atualizando o velho Quincas do \u201c<em>Mem\u00f3ria p\u00f3stuma<\/em>\u201d, o de Jorge Amado, o \u201c<em>berro d\u2019\u00e1gua<\/em>\u201d, berrou ressuscitando o irreverente inerte disfar\u00e7ado. O amado Jorge, danado adivinho, anteviu tudo e predisse a apoteose: \u201c<em>Assim \u00e9 o mundo, povoado de c\u00e9ticos e negativistas, amarrados, como bois na canga, \u00e0 ordem e \u00e0 lei, aos procedimentos habituais, ao papel selado<\/em>\u201d. Talvez o mais decisivo seja a nota-fim \u201c<em>No meio da confus\u00e3o ouviu-se Quincas dizer: me enterro como entender na hora que resolver. Podem guardar seu caix\u00e3o pra melhor ocasi\u00e3o. N\u00e3o vou deixar me prender em cova rasa no ch\u00e3o<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>E assim, sem ir Z\u00e9 Celso se foi deixando-nos o desafio de continuidades. Tomara que saibamos manter acesso o legado e que possamos agradecer pelas li\u00e7\u00f5es de vida e morte. Tomara&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dif\u00edcil contar o que senti com a troca de cen\u00e1rio do Z\u00e9 Celso Martinez, afastado de n\u00f3s no dia 6 \u00faltimo. 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