{"id":20409,"date":"2023-07-15T11:51:23","date_gmt":"2023-07-15T14:51:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20409"},"modified":"2023-07-15T11:51:23","modified_gmt":"2023-07-15T14:51:23","slug":"lixo-perfumado-que-milan-kundera-analisava-e-a-estetica-do-brasil-de-hoje-mario-sergio-conti-fsp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/lixo-perfumado-que-milan-kundera-analisava-e-a-estetica-do-brasil-de-hoje-mario-sergio-conti-fsp\/","title":{"rendered":"Lixo perfumado que Milan Kundera analisava \u00e9 a est\u00e9tica do Brasil de hoje (M\u00e1rio S\u00e9rgio Conti &#8211; FSP)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para mestre Sebe e outros adeptos do kitsch<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>Kitsch, que tanto fascinou o escritor, foge do ins\u00f3lito, da ironia e do racioc\u00ednio, impondo imagens e emo\u00e7\u00f5es arcaicas<\/em><\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/07\/morre-o-escritor-milan-kundera-aos-94-anos.shtml\">Milan Kundera, que morreu na ter\u00e7a<\/a>, era\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/construcao\/cs2810200103.htm\">fascinado pelo kitsch<\/a>.\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2023\/07\/obra-de-milan-kundera-supera-a-guerra-o-exilio-e-a-diaspora-com-humor.shtml\">Pilar de &#8220;A Insustent\u00e1vel Leveza do Ser&#8221;<\/a>, ele \u00e9 analisado longamente e a fundo nos ensaios de &#8220;A Arte do Romance&#8221; e &#8220;A Cortina&#8221;. Suas rumina\u00e7\u00f5es ajudam a entender a est\u00e9tica vigente no Brasil atual.<\/p>\n<p>&#8220;A palavra kitsch nasce em Munique em meados do s\u00e9culo 19 e designa o res\u00edduo xaroposo do grande s\u00e9culo rom\u00e2ntico&#8221;, Kundera explica. Ela d\u00e1 nome ao v\u00e9u r\u00f3seo que encobre a realidade, ao exibicionismo despudorado de emo\u00e7\u00f5es, ao lixo no qual se joga perfume.<\/p>\n<p>O kitsch tem pontos de contato com o mau gosto, a vulgaridade e a breguice, mas vai longe. \u00c9 a arte abastardada, a ditadura do cora\u00e7\u00e3o comovido sobre as verdades da raz\u00e3o, o modo de ser da massifica\u00e7\u00e3o, o &#8220;mal est\u00e9tico supremo&#8221;.<\/p>\n<p>A fraude est\u00e1 em toda parte.<\/p>\n<p>Est\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2017\/07\/1902855-pavarotti-sera-homenageado-com-tres-albuns-nos-10-anos-de-morte.shtml\">nos discos de Pavarotti,<\/a>\u00a0que retalha \u00f3peras para real\u00e7ar d\u00f3s de peito virtuosos. No piano meloso de Horowitz, que edulcora a m\u00fasica de raiz amarga.\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/jorge-amado\/\">No Jorge Amado stalinista<\/a>, que d\u00e1 como autom\u00e1tico um futuro r\u00f3seo; e no mercantil, que apimenta a trama com cal\u00e3o e lasc\u00edvia standard.<\/p>\n<p>Est\u00e1 na alma e na pele da ind\u00fastria cultural. Na miscigena\u00e7\u00e3o sorridente dos an\u00fancios de margarina, carros, churrasqueiras e bancos. Nos caf\u00e9s da manh\u00e3 ass\u00e9pticos das novelas. Nas caras e bocas padronizadas dos filmes de Hollywood. Af\u00e1vel, o kitsch irradia um mundo sem conflitos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20410\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Ilustracao-de-Bruna-Barros.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o de Bruna Barros para a coluna de M\u00e1rio S\u00e9rgio Conti<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A realidade \u00e9 feita de engarrafamentos, radares e multas, bip bip de motoboys, polui\u00e7\u00e3o, receio de assaltos, exaspera\u00e7\u00e3o. Todavia, a imagem que se v\u00ea \u00e9 a de duas Kombi, uma aposentada h\u00e1 mil\u00eanios e outra inexistente nas ruas, deslizando solit\u00e1rias numa estrada vazia no arrebol. Puro kitsch.<\/p>\n<p>&#8220;O kitsch \u00e9 o ideal est\u00e9tico de todos os pol\u00edticos&#8221;, escreve Kundera em &#8220;A Insustent\u00e1vel Leveza do Ser&#8221;. Um senador americano fict\u00edcio v\u00ea crian\u00e7as correndo num gramado e, com ar sonhador, diz a uma mo\u00e7a que veio do lado cinzento da cortina de ferro que &#8220;\u00e9 isso que chamo de felicidade&#8221;.<\/p>\n<p>A frase, observa o narrador do romance, n\u00e3o \u00e9 apenas uma express\u00e3o de alegria, mas tamb\u00e9m de condescend\u00eancia com uma mulher oriunda de um pa\u00eds comunista onde, &#8220;o senador estava convencido, a grama n\u00e3o cresce e as crian\u00e7as n\u00e3o correm&#8221;.<\/p>\n<p>O kitsch foge do ins\u00f3lito, da ironia, do racioc\u00ednio. Imp\u00f5e imagens e emo\u00e7\u00f5es arcaicas: a cantora rediviva que se reconcilia com a filha argent\u00e1ria; a fam\u00edlia \u00e0 mesa no despertar de um novo dia; a nostalgia de um passado id\u00edlico porque foi idealizado; a petizada peralta correndo \u00e0 solta.<\/p>\n<p>O kitsch precisa de um par de l\u00e1grimas para fazer efeito. Kundera esclarece: &#8220;A primeira l\u00e1grima diz: como \u00e9 bonito crian\u00e7as correndo num gramado! A segunda diz: como \u00e9 bonito se emocionar com toda a humanidade ao ver crian\u00e7as correndo num gramado!&#8221;.<\/p>\n<p>Por isso crian\u00e7as atraem pol\u00edticos, que as pegam no colo e, enternecidos, sorriem para c\u00e2meras e celulares. Avisam assim que s\u00e3o afetuosos, cuidar\u00e3o dos pequerruchos. Uns acreditam; outros n\u00e3o ligam.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0s l\u00e1grimas, periga afogarem a pol\u00edtica.\u00a0<a href=\"https:\/\/m.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/jair-bolsonaro\/index.shtml?pg=5\">Bolsonaro as deixa escorrer<\/a>\u00a0pela face ao posar de v\u00edtima dos nefandos comunistas \u2014ou seja, dia sim, dia n\u00e3o.\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/folha-topicos\/lula\/\">Lula solu\u00e7a e pega o len\u00e7o<\/a>\u00a0ao falar de crian\u00e7as pobres, da injusti\u00e7a de sua pris\u00e3o e da morte do neto.<\/p>\n<p>Ai de ti se disseres que s\u00e3o l\u00e1grimas de crocodilos. Ser\u00e1s vaiado pelos f\u00e3s do atual e do ex-presidente, pelos apol\u00edticos e ap\u00e1ticos. Todos apupar\u00e3o tua frieza de esquerda caviar porque o choror\u00f4, simulado ou sincero, \u00e9 essencial nos melodramas do kitsch. Bu\u00e1\u00e1\u00e1!<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Milan-Kundera-1973.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20411\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Milan-Kundera-1973-450x341.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Milan-Kundera-1973-450x341.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Milan-Kundera-1973-300x228.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Milan-Kundera-1973-768x583.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Milan-Kundera-1973.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Milan Kundera em Praga em 1973<\/em><\/p>\n<p>Kundera foi comunista, depois dissidente e, por fim, se exilou na Fran\u00e7a quando a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica aplastou com tanques\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mundo\/2018\/08\/em-1968-sovieticos-invadem-tchecoslovaquia-e-reprimem-primavera-de-praga.shtml\">a Primavera de Praga, no ano de 1968<\/a>. Na cr\u00edtica ao kitsch pol\u00edtico, inventou a &#8220;Grande Marcha&#8221;, a que &#8220;une as pessoas de esquerda de todos os tempos e tend\u00eancias&#8221;.<\/p>\n<p>No\u00e7\u00e3o nascida de revolu\u00e7\u00f5es, a &#8220;Grande Marcha&#8221; caminha rumo &#8220;\u00e0 fraternidade, \u00e0 igualdade, \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 felicidade&#8221;. Nela, os obst\u00e1culos &#8220;s\u00e3o necess\u00e1rios para que possa ser a grande marcha&#8221;. Da\u00ed vem o coro do porte de &#8220;n\u00e3o passar\u00e3o!&#8221; e de &#8220;a luta continua!&#8221;.<\/p>\n<p>A ideia de revolu\u00e7\u00e3o implodiu, e com ela o objetivo de fraternidade, igualdade e felicidade vindas do coletivo. A &#8220;Grande Marcha&#8221; teve de ser substitu\u00edda. No Brasil, entrou em vigor no lugar o &#8220;Grande Papo&#8221;.<\/p>\n<p>Dia e noite, se ouve que \u00e9 s\u00f3 conversar, e trocar seis por meia d\u00fazia, para que devagar se v\u00e1 ao longe. Com\u00a0 o &#8220;Grande Papo&#8221;, os maiorais ceder\u00e3o seus jatinhos, ap\u00eas em Miami, iates e limosines. Na boa, juntos chegaremos l\u00e1 \u2014 daqui a mil anos. Basta que a ral\u00e9 acredite no novo kitsch.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para mestre Sebe e outros adeptos do kitsch Kitsch, que tanto fascinou o escritor, foge do ins\u00f3lito, da ironia e do racioc\u00ednio, impondo imagens e &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20412,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20409","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20409","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20409"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20409\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20413,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20409\/revisions\/20413"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20412"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20409"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20409"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20409"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}