{"id":20408,"date":"2023-07-16T08:32:50","date_gmt":"2023-07-16T11:32:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20408"},"modified":"2023-07-16T08:32:50","modified_gmt":"2023-07-16T11:32:50","slug":"imagine-john-lennon-ate-quando-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/imagine-john-lennon-ate-quando-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"IMAGINE: JOHN LENNON, AT\u00c9 QUANDO? (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\">Para<strong> Silvio Tendler, utopista padr\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Foi de repente, algo assim do nada, que me surpreendeu prestando aten\u00e7\u00e3o na letra de <em>Imagine<\/em>, de John Lennon. Senti-me rezando. E n\u00e3o saberia dizer de algum porqu\u00ea desse estranhamento, pois h\u00e1 mais de 50 anos \u2013 primeira grava\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1975 \u2013 ou\u00e7o e at\u00e9 cantarolo: \u201c<em>You may say I\u2019m a dreamer\/ but I\u2019m not the only one<\/em>\u201d. E retomei a letra numa tradu\u00e7\u00e3o pessoal \u201c<em>Voc\u00ea pode dizer que sou um sonhador\/ mas eu n\u00e3o sou o \u00fanico<\/em>\u201d, e fui progressivamente declinando os versos seguintes \u201c<em>Espero que um dia voc\u00ea se junte a n\u00f3s\/ e o mundo ser\u00e1 um s\u00f3<\/em>\u201d. Nossa, mais de meio s\u00e9culo depois dessa convoca\u00e7\u00e3o ainda pulsam os mesmos chamamentos. Perguntei-me ent\u00e3o das raz\u00f5es latejantes que mant\u00e9m o insistente sucesso como teorema social a ser decifrado. Afinal, de que enredo <em>Imagine<\/em> seria trilha sonora? Sua presen\u00e7a insistente teria alguma fun\u00e7\u00e3o maior do que a beleza mel\u00f3dica? Ali\u00e1s, ela persiste apenas como pe\u00e7a cat\u00e1rtica?<\/p>\n<p>Minha primeira resposta veio por conta das inef\u00e1veis repeti\u00e7\u00f5es que afinal esvaziam mensagens t\u00e3o pungentes como \u201c<em>nenhum inferno sob n\u00f3s\/ acima de n\u00f3s apenas o c\u00e9u\/ Imagine todas as pessoas vivendo o presente<\/em>\u201d. Creio que a primeira vez que ouvi foi pela voz mansa de Joan Baez e depois por outras grava\u00e7\u00f5es, todas intensas: Stevie Wonder, Madonna, Elton John, Diana Ross. E n\u00e3o faltaram as vers\u00f5es para o portugu\u00eas: Roberto Carlos, F\u00e1bio Jr. Daniela Mercury entre outros &#8211; mas nenhuma t\u00e3o apaixonada com a de Cauby Peixoto com aquele vozerio potente e encena\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. A medida em que dava estrada para a reflex\u00e3o, atalhos se abriram. A mensagem \u00e9 recomenda\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria, mas limitando a propalada irmandade global, redimensionando o escopo de Lennon, pensei no Brasil hoje t\u00e3o retaliado. E imaginei&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LENNON.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20414\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LENNON-349x450.jpg\" alt=\"\" width=\"349\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LENNON-349x450.jpg 349w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LENNON-233x300.jpg 233w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/LENNON.jpg 543w\" sizes=\"auto, (max-width: 349px) 100vw, 349px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 1975, eu dava continuidade \u00e0 sina de professor de Hist\u00f3ria impulsionando minha carreira como professor na Universidade de S\u00e3o Paulo. Naquele m\u00eas de agosto, empolgado, defendia minha tese de doutorado sob o t\u00edtulo \u201cA presen\u00e7a do Brasil na Companhia de Jesus\u201d. Misto de utopia e inoc\u00eancia, parecia-me virtuoso engrossar a lista dos que sondavam redesenhar nossa Hist\u00f3ria desde a coloniza\u00e7\u00e3o. A premissa me comovia: supor que a grande institui\u00e7\u00e3o colonizadora-jesu\u00edtica, a maior de todas, teria se \u201cabrasileirado\u201d. A pretens\u00e3o era enorme: contrapor \u00e0 monumental obra de Serafim Leite \u201cA Companhia de Jesus no Brasil\u201d. E justificava minha hip\u00f3tese mostrando, por exemplo, que apenas no Brasil seria poss\u00edvel o ingresso do Padre Ant\u00f4nio Vieira, mulato, na Ordem tropicalizada \u2013 na Europa seria invi\u00e1vel. E junto arrolava os \u201cbons ares\u201d que teriam trazido Anchieta tuberculoso para c\u00e1, e dele o esfor\u00e7o para traduzir para a \u201cl\u00edngua geral\u201d a fabula\u00e7\u00e3o b\u00edblica que haveria de se adaptar \u00e0 audi\u00eancia tupiniquim. Minha ingenuidade era tamanha que pretendia inverter a interpreta\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio lusitano trocado pela inevitabilidade das adequa\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<p>A par disso, o lado cruel daquele 1975, escancarava a ditadura civil-militar que n\u00e3o conseguia mais conter o pr\u00f3prio mal cheiro, e ent\u00e3o o general Geisel, aquele ditador em tr\u00e2nsito, iniciava a Abertura Pol\u00edtica difundida sob andamento \u201clenta, gradual e segura\u201d. \u00a0Evidente na farsa do milagre econ\u00f4mico, todo aparato militar se desmoronava pela incontin\u00eancia da repress\u00e3o respons\u00e1vel pelo assassinato de 191 pessoas e por 243 desaparecidos &#8211; tudo segundo dados apurados pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade. No ros\u00e1rio de crimes b\u00e1rbaros, todos execr\u00e1veis e impunes, um significou a gota d\u2019\u00e1gua: o \u201csuic\u00eddio\u201d de Vladmir Herzog nos por\u00f5es do DOI-CODI. Ainda que outras mortes fossem perpetradas depois, a de Vlado marcou aquele 1975 como o momento do basta. E a voz das utopias repontaram no \u201cDiretas J\u00e1\u201d. Nossa, como o <em>Imagine<\/em>, era cab\u00edvel!&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Vlado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20415\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Vlado-450x245.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"245\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Vlado-450x245.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Vlado-300x164.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Vlado-768x419.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Vlado.jpg 792w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Vladimir Herzog, jornalista assassinado no DOI-CODI em outubro de 1975<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os tempos passaram, o sonho democr\u00e1tico foi se esvaindo e na observ\u00e2ncia da onda c\u00edclica, outra vez, o obscurantismo nos assolou, agora sob artimanhas atualizadas. No ar, <em>Imagine<\/em> continuou sua saga convocando sonhadores que, na timidez das possibilidades, juntando devaneios, fez uma estrela \u2013 a \u00fanica poss\u00edvel \u2013 brilhar.<\/p>\n<p>Vendo tudo, por\u00e9m, at\u00e9 d\u00f3i reeditar a quest\u00e3o proposta pelo pr\u00f3prio Lennon \u201c<em>eu me pergunto se voc\u00ea consegue\/ sem necessidade de gan\u00e2ncia ou fome\/ uma irmandade dos homens\/ <\/em><em>imagine todas as pessoas\/ compartilhando o mundo inteiro<\/em>\u201d. Em um Brasil t\u00e3o esfarelado, com apologia ao \u00f3dio, facilita\u00e7\u00e3o do uso de armas, meio ambiente degradado, com 21 milh\u00f5es de famintos, viola\u00e7\u00e3o da cultura e da ci\u00eancia, de agress\u00e3o \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, indaga-se at\u00e9 quando <em>Imagine<\/em> se manter\u00e1? Ser\u00e1 que a cole\u00e7\u00e3o de distopias que de tempo em tempo assola nossa hist\u00f3ria um dia conseguir\u00e1 tirar aquele Lennon das paradas? Ser\u00e1? Imaginemos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Silvio Tendler, utopista padr\u00e3o \u00a0Foi de repente, algo assim do nada, que me surpreendeu prestando aten\u00e7\u00e3o na letra de Imagine, de John Lennon. 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