{"id":20404,"date":"2023-07-09T11:11:44","date_gmt":"2023-07-09T14:11:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20404"},"modified":"2023-07-09T11:11:44","modified_gmt":"2023-07-09T14:11:44","slug":"brasil-gerundio-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/brasil-gerundio-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"BRASIL GER\u00daNDIO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O ger\u00fandio deu passagem para o gerundismo, pr\u00e1tica lament\u00e1vel, usada ad nauseam pelos operadores de\u00a0 telemarketing, que insistem em se apropriar dos radicais \u201cando\u201d, \u201cendo\u201d e \u201cindo\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ensa\u00edstas na d\u00e9cada de 1930 propuseram supostos que alimentam, desde nossas ra\u00edzes europeias, uma cordialidade e aceita\u00e7\u00e3o racial que juntas mascaram realidades que come\u00e7am a mostrar esquinas e quebradas. E mecanismos variados servem de artif\u00edcio para medir caminhos feitos de avan\u00e7os e resist\u00eancias que repontam nas express\u00f5es coloquiais. Observando tentativas de mudan\u00e7as dr\u00e1sticas e estrat\u00e9gias para a acomoda\u00e7\u00e3o de conflitos, Jo\u00e3o Alexandre Barbosa cunhou a express\u00e3o \u201ctradi\u00e7\u00e3o do impasse\u201d pela qual reconhece que, frente \u00e0s press\u00f5es de baixo para cima, nossas elites reinventam alternativas neutralizadoras que permitem traduzir para nossa realidade o que o escritor italiano Guiseppe Tomasi di Lampedusa estabeleceu no livro \u201cO leopardo\u201d, afirmando que \u201c\u00e9 preciso mudar para que tudo fique como est\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>O tempo continuado, pois, se apesenta como teorema explicativo de nossas dificuldades de transforma\u00e7\u00f5es. \u00c9 nesse contexto que o ger\u00fandio ganha quilate, distanciando o linguajar brasileiro-colonial, do metropolitano-portugu\u00eas. De sa\u00edda, advoga-se a exist\u00eancia de uma \u201cl\u00edngua brasileira\u201d, ou pelo menos de um \u201cportugu\u00eas brasileiro\u201d. Curioso que, mesmo entre n\u00f3s, h\u00e1 divis\u00f5es que fundem em uma s\u00f3 moeda o ger\u00fandio e o gerundismo. Mais refinado, o ger\u00fandio \u00e9 classudo; o gerundismo, coitado, \u201cfoi se popularizando\u201d.<\/p>\n<p>Partamos do nosso sotaque que se prende \u00e0 entona\u00e7\u00e3o caracter\u00edstica do linguajar lusitano do in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. Sim, o portugu\u00eas de Portugal se dinamizou numa l\u00f3gica imperial, aben\u00e7oada por casticismos consagradores da norma culta. E, no Brasil, nosso linguajar ganhou ritmo pr\u00f3prio, afetado por tesouros ind\u00edgenas e africanos, que, contudo, reproduziram mecanismos transferidos para poderes locais, obedecendo divis\u00f5es de classe e adequa\u00e7\u00f5es regionais. Parcela dos nossos, ainda que abrandada a rigidez da l\u00edngua de Cam\u00f5es, continua a se banhar na chamada norma culta enquanto outro grupo, pobre e marginalizado, n\u00e3o inclu\u00eddo no c\u00edrculo dos \u201ceducados\u201d, mant\u00e9m-se fabricando maneiras pr\u00f3prias de express\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 inevit\u00e1vel reconhecer, pelos marginalizados ou pela elite, que o falar brasileiro, se sustenta pautado pela ideia de processo de transi\u00e7\u00e3o, de modifica\u00e7\u00e3o. E isso explica o reinado do ger\u00fandio como elemento capaz de nos situar historicamente. De tal forma o ger\u00fandio se instalou que deu passagem para o gerundismo, pr\u00e1tica lament\u00e1vel, usada <em>ad nauseam<\/em> pelos inef\u00e1veis chamados de telemarketing, que insistem em se apropriar dos radicais \u201cando\u201d, \u201cendo\u201d e \u201cindo\u201d. Quando juntado ao verbo estar, tais inven\u00e7\u00f5es convocam ganas dos puristas que n\u00e3o suportam coisas como \u201cvou estar apresentando\u201d&#8230; \u201coferecendo\u201d&#8230; \u201cindo\u201d. Por um ou outro caminho, pela norma culta ou pelo dizer popular, o movimento do tr\u00e2nsito se imp\u00f5e em condi\u00e7\u00e3o diversa da matriz europeia que se vale do infinitivo, algo como \u00a0\u201cestou a apresentar\u201d, a \u201coferecer\u201d, \u201ca ir\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/o-leopardo.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20405\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/o-leopardo-324x450.jpg\" alt=\"\" width=\"324\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/o-leopardo-324x450.jpg 324w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/o-leopardo-216x300.jpg 216w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/o-leopardo.jpg 468w\" sizes=\"auto, (max-width: 324px) 100vw, 324px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Lampedusa \u201c<em>\u00e9 preciso mudar para que tudo fique como est\u00e1<\/em>\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que alguns sinais das express\u00f5es colonizadoras sobrevivem e n\u00e3o s\u00e3o questionados. Dia desses listava alguns dizeres buscando suas origens e por elas entendi o impacto da origem do sistema mon\u00e1rquico em nossa mem\u00f3ria cultural t\u00e3o cheia de reis, rainhas, pr\u00edncipes e princesas; seja em carnavais, festas religiosas, concursos de belezas. N\u00e3o deixa de ser intrigante registrar express\u00f5es como \u201cquem foi para Portugal perdeu o lugar\u201d &#8211; que se liga ao apoio dado pelo povo a Dom Pedro II, quando o pai optou ir para o \u201cReino\u201d; resistentes express\u00f5es como \u201cv\u00e1 tomar banho\u201d &#8211; forma que os locais assumiram para se diferenciar dos portugueses, n\u00e3o chegados \u00e0 essa pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>E como afirma\u00e7\u00e3o distintiva, v\u00e1rias express\u00f5es ressurgem no gosto geral como \u201cmeia tigela\u201d &#8211; ligada ao pagamento de servi\u00e7os medidos pela quantidade de comida dada em troca de tarefas incompletas. Outra: \u201cvoc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando\u201d, referindo-se ao nobres interpelados como cidad\u00e3os comuns, evocando seu posto nobre. Mais uma \u201cdar com o pau\u201d que se explica pela resist\u00eancia de escravizados que preferiam morrer ao jugo senhorial, e ent\u00e3o eram obrigados a engolir, por for\u00e7a de uma colher feita especialmente para isso. J\u00e1 \u201cpanos quentes\u201d eram trapos esquentados em \u00e1gua e usados para aliviar dores e febres. Curiosa \u00e9 a hist\u00f3ria de \u201ca cavalo dado n\u00e3o se olha os dentes\u201d derivada de um cidad\u00e3o portugu\u00eas que tapeava pessoas com velhos pandarecos, pois os dentes dos cavalos novos nascem aos poucos.<\/p>\n<p>E a soma de tantas express\u00f5es mostra a dificuldade de se pensar o Brasil que a um tempo consagra o ger\u00fandio e mant\u00e9m refer\u00eancias metropolitanas, muitas do s\u00e9culo XIX. Uma hip\u00f3tese sugere que o dilema entre avan\u00e7o e mem\u00f3ria do passado mon\u00e1rquico reside na consci\u00eancia de nossa independ\u00eancia, momento em que o idioma se abrasileirou. Por uma ou por outra via, fica clara a din\u00e2mica do nosso abrasileiramento que continua exercitando o ger\u00fandio, mudando para continuar do mesmo jeitinho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ger\u00fandio deu passagem para o gerundismo, pr\u00e1tica lament\u00e1vel, usada ad nauseam pelos operadores de\u00a0 telemarketing, que insistem em se apropriar dos radicais \u201cando\u201d, \u201cendo\u201d &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20406,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20404","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20404"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20404\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20407,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20404\/revisions\/20407"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20406"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}