{"id":20388,"date":"2023-07-02T08:15:46","date_gmt":"2023-07-02T11:15:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20388"},"modified":"2023-07-02T08:15:46","modified_gmt":"2023-07-02T11:15:46","slug":"infidelidades-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/infidelidades-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"(IN)FIDELIDADES (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Sim, (in)fidelidades no plural, por favor. A fidelidade pura e simples convoca o singular, qualificando o pacto pessoal, amoroso, impl\u00edcito na dial\u00e9tica do dois em um. Nem quero enquadrar a fidelidade que imagino leg\u00edtima em regras contratuais, registradas, lotadas de clausulas e exigente de cart\u00f3rios, carimbos e at\u00e9 firma reconhecida. Duvido muito de pactos que ordenam assinaturas, testemunhos e apadrinhamentos, ou seja, daqueles contratos que se firmam em cima do risco pendente de trai\u00e7\u00f5es. Desprezo-os, mesmo sabendo de sua necessidade, pois, afinal, \u201co mundo \u00e9 um moinho\u201d como j\u00e1 avisava Cartola.<\/p>\n<p>A fidelidade a que me refiro \u00e9 filha da express\u00e3o anglo-sax\u00f4nica \u201cwireless fidelity\u201d (fidelidade sem media\u00e7\u00f5es), direta, apoiada no \u00e9ter de vontades comungadas \u00e0s vezes sem necessidade de palavras. E sinto-me derrotado ao admitir a vit\u00f3ria do consumismo capitalista que tanto desvirtuou o conceito a ponto de colar aquela express\u00e3o brit\u00e2nica aos aparelhos de som, conhecidos como \u201cwi-fi\u201d. E que dizer de pr\u00e1ticas de mercado que tentam \u201cfidelizar\u201d clientes, como companhias a\u00e9reas, grandes magazines, bancos, tudo com b\u00f4nus ou vantagens materiais. \u00c9 por essas que, afora o amor rom\u00e2ntico, candidato-me a ser o mais infiel dos humanos. E assumo minha vulnerabilidade que ali\u00e1s me avaliza como ser mutante e at\u00e9 sem-vergonha. E como tal, uso como trilha sonora a profecia de Raul Seixas que me abona reconhecer uma \u201cmetamorfose ambulante\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fidelidade-uma-questao-moral-ou-juridica.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20390\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fidelidade-uma-questao-moral-ou-juridica-450x293.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"293\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fidelidade-uma-questao-moral-ou-juridica-450x293.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fidelidade-uma-questao-moral-ou-juridica-300x195.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fidelidade-uma-questao-moral-ou-juridica-768x500.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/fidelidade-uma-questao-moral-ou-juridica.jpg 888w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Infidelidade: quest\u00e3o moral ou jur\u00eddica?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Numa arqueologia pessoal identifico a origem disso tudo h\u00e1 algumas d\u00e9cadas quando ao entrar em um supermercado para comprar cerveja me vi perdido entre tantos r\u00f3tulos. Sabe, depois de uma pequena guerra interna, optei por uma garrafa de vinho, escolha facilitada pela oferta do dia. D\u00b4outra feita entrei em uma livraria para presentear algu\u00e9m com um livro e eram tantas as alternativas que me vi ancorado na sess\u00e3o de autoajuda, pedindo socorro aos especialistas. Sa\u00ed de m\u00e3o vazia&#8230;<\/p>\n<p>Imagine que me perguntaram qual o meu santo de devo\u00e7\u00e3o. Meu Deus, pensei na ladainha inteira e nos tantos \u201cora pro nobis\u201d que tenho declinado. Perturbado com a densidade demogr\u00e1fica do c\u00e9u, recortei alguns populares como Santo Ant\u00f4nio, S\u00e3o Jo\u00e3o, S\u00e3o Pedro &#8211; pensei em S\u00e3o Gon\u00e7alo que tocava viola em prost\u00edbulo &#8211; e em S\u00e3o Jorge guerreiro e, olhe s\u00f3, tive que exilar S\u00e3o Francisco que tanto amo, pois na lista nem coube S\u00e3o Judas, aquele das causas imposs\u00edveis, cancelado juntamente como S\u00e3o Longuinho que me socorre v\u00e1rias vezes ao dia. Al\u00e9m disto, percebi que estava sendo machista, pois n\u00e3o relacionei santa alguma, e ao tomar consci\u00eancia disso me vi perdido na pluralidade de Nossas Senhoras: da Sa\u00fade, de Guadalupe, de F\u00e1tima, de Lourdes, da Concei\u00e7\u00e3o, das Dores, do Bom-parto, das Candeias, da Boa morte, do (Perp\u00e9tuo) Socorro&#8230; e que dizer da Nossa de Aparecida que, sendo padroeira do Brasil inteiro, seria impatri\u00f3tico deix\u00e1-la de fora&#8230;<\/p>\n<p>Do c\u00e9u para o inferno foi um pulo, ou melhor uma queda motivada pelo registro de 1449 figuras demon\u00edacas. Ciente de meu limite cognitivo, restou nominar os mais conhecidos: \u00a0Coisa-ruim, 7-Peles, Satan\u00e1s, Tinhoso, Capeta, Sat\u00e3, D\u00eamo, Dem\u00f4nio, C\u00e3o, Anjo-Mau, Pr\u00edncipe-das-Trevas, Chifrudo, Leviat\u00e3, Belzebu, L\u00facifer. Viu?! Ent\u00e3o, como escolher apenas um para chamar de meu? E a galeria das flores? Imagine que s\u00f3 de rosas existem seis mil varia\u00e7\u00f5es catalogadas, e h\u00e1 uma palheta de duas mil varia\u00e7\u00f5es de cores. M\u00fasicas? S\u00f3 para considerar as brasileiras, como escolher entre \u201cA noite do meu bem\u201d, \u201c\u00faltimo desejo\u201d, \u201cTico-tico no fub\u00e1\u201d, \u201cA flor e o espinho\u201d, \u201cNervos de a\u00e7o\u201d, \u201cRomaria\u201d, \u201cAs rosas n\u00e3o falam\u201d ou \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, como? Sabe, sem pudor algum a cada questionamento escolho uma, sem me corar. E juro fidelidade como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Capeta.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20389\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Capeta.jpg\" alt=\"\" width=\"302\" height=\"167\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Capeta.jpg 302w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Capeta-300x166.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/Capeta-265x147.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 302px) 100vw, 302px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Quando perguntam qual minha cidade preferida, me perco em roteiros tentadores e girando uma roleta que para em uma qualquer at\u00e9 me sinto cidad\u00e3o local, seja de Nova York ou na cearense Quixeramobim; da rec\u00f4ndita Baependi, no estado de Minas, ou na sofisticada Zermatt, na Sui\u00e7a. Quando o papo versa sobre restaurantes a coisa pega mais ainda, porque dependendo do interlocutor sou capaz de citar o melhor do mundo, o Geranium, de Copenhagen, na Dinamarca, ao pastel do Mercado de Taubat\u00e9 no estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: sou consumista perdidamente infiel, burgu\u00eas vulgar, peregrino do tr\u00e2nsito capitalista, canalha da fidelidade, louco por liquida\u00e7\u00f5es e brech\u00f3s. Devo, contudo, dizer que com a mesma fleugma sou incapaz de trair um amor, uma amizade, um bem querer. Mas sou leal, sincero, her\u00f3i capaz muita coisa pela cren\u00e7a na reciprocidade afetiva abstrata. (In)fidelidade(s) a parte, sou fiel a mim mesmo sendo burocraticamente (in)fiel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sim, (in)fidelidades no plural, por favor. 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