{"id":20376,"date":"2023-06-25T08:24:29","date_gmt":"2023-06-25T11:24:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20376"},"modified":"2023-06-25T08:24:29","modified_gmt":"2023-06-25T11:24:29","slug":"o-macaco-o-futebol-a-biblia-e-o-darwinismo-esportivo-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-macaco-o-futebol-a-biblia-e-o-darwinismo-esportivo-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O MACACO, O FUTEBOL, A B\u00cdBLIA E O DARWINISMO ESPORTIVO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Sele\u00e7\u00e3o brasileira jogou com uniforme preto em protesto contra o racismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Para Marcel Diego Tonini<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em 2014, pouco antes da Copa do Mundo, a revista francesa <em>SoFoot<\/em> publicou um artigo brusco intitulado \u201c<em>Vive le Bordel Br\u00e9silien<\/em>\u201d, alardeando a prepara\u00e7\u00e3o do evento como descontrole nacional. Depois do 7 x 1 perpetrado pela sele\u00e7\u00e3o alem\u00e3, o magazine regozijava \u201c<em>nous avons pr\u00e9venu que cela \u00e9chouerait<\/em>\u201d, como que celebrando o que agourou. O ano 2014 foi um divisor de \u00e1guas e ent\u00e3o nossos craques viraram vitrine.<\/p>\n<p>O \u201cesporte bret\u00e3o\u201d, de long\u00ednquo lastro branco e europeu, que at\u00e9 ali disfar\u00e7ava sua gana hegem\u00f4nica, n\u00e3o mais conteve despeitos e retomou a busca por requalifica\u00e7\u00e3o valorizando ofensivas capazes de reposicionar princ\u00edpios abalados pela populariza\u00e7\u00e3o do esporte mundo afora. O preconceito como marca inerente \u00e0 domina\u00e7\u00e3o metropolitana projetava diferen\u00e7as identificadas, principalmente, nos jogadores negros, em particular brasileiros. E um darwinismo esportivo foi se globalizando opondo racialmente uns contra outros. C\u00e1 e l\u00e1, jogadores negros t\u00eam, cada vez mais, padecido ofensas, a maioria aproximando os atletas dos macacos. A pr\u00e1tica \u00e9 velha sim, mas estranhamente recondicionada.<\/p>\n<p>Para felicidade geral dos Direitos Humanos, entidades do mundo todo t\u00eam se posicionado no combate, emblemando uma luta que merece nuan\u00e7as antropol\u00f3gicas. E isto leva a considerar os sutis percursos da mem\u00f3ria social. A discrimina\u00e7\u00e3o dos negros no futebol deve, pois, ser vista sob a \u00f3tica da cultura de massa, reafirmada na simbologia s\u00edmia. Antes, conv\u00e9m lembrar que o uso de mascotes animais \u00e9 pr\u00e1tica inerente a times mundo afora. Entre n\u00f3s, por exemplo, s\u00f3 de aves temos: gralha, periquito, azul\u00e3o, urubu. Isso afora: porcos, peixes, le\u00e3o, burro. A lista \u00e9 longa, mas nenhuma inclui o macaco. Por que ser\u00e1?&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Esporte-bretao.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20377\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Esporte-bretao.jpg\" alt=\"\" width=\"261\" height=\"193\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Esporte bret\u00e3o nasceu branco<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Contrariamente, n\u00e3o faltam refer\u00eancia no vast\u00edssimo repert\u00f3rio de ditos populares: \u201cmacacos me mordam\u201d, \u201cestar com a macaca\u201d, \u201ccada macaco no seu galho\u201d, \u201cmacaco velho n\u00e3o mete a m\u00e3o em cumbuca\u201d. Isto sem falar da popular \u201cmacaquice\u201d ou \u201cmicagem\u201d como imita\u00e7\u00e3o grotesca. Frente a isso, a quest\u00e3o que se apresenta sugere a questionar as raz\u00f5es desse uso como mote ofensivo, em particular em rela\u00e7\u00e3o aos jogadores brasileiros, inclusive no Brasil, centralmente nos estados de coloniza\u00e7\u00e3o europeia. Indo mais longe, por\u00e9m, pode-se definir um caminho bifurcado que remete a duas ra\u00edzes explicativas, uma ligada ao reino animal e outra \u00e0 cultura religiosa.<\/p>\n<p>Ao se referir a um jogador negro como macaco, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 desqualificar o atleta, colocando-o em n\u00edvel inferior \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana. Em termos hist\u00f3ricos, a categoria de escravizados perpetuou a classifica\u00e7\u00e3o rebaixada na escala evolutiva. E isto tem lugar na mem\u00f3ria hist\u00f3rica que subjugou a \u00c1frica como celeiro de seres degradados por regimes de trabalhos for\u00e7ados. No caso do futebol, como se n\u00e3o houvesse cabimento para eles no campo dos brancos, um impulso perverso deixa vazar recalques submersos nos subterr\u00e2neos da imagina\u00e7\u00e3o coletiva de matriz europeia.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo mais que precisa ser discutido: os preconceitos derivados de leituras b\u00edblicas mal ajambradas. O caso da lend\u00e1ria maldi\u00e7\u00e3o de No\u00e9 dirigida ao filho Caim &#8211; que ridicularizou o pai nu e embriagado &#8211; \u00e9 res\u00edduo de mem\u00f3ria ancestral naturalizadora de preconceitos latentes. O castigo feito expuls\u00e3o da fam\u00edlia fez com que Caim arrastasse a puni\u00e7\u00e3o transmitida aos seus descendentes, os negros.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da suposta linhagem evolucionista ou pretensamente b\u00edblica, a transmiss\u00e3o oral sem filtros, tem servido de caminho para a hipot\u00e9tica inferioridade da condi\u00e7\u00e3o negra e, ato cont\u00ednuo, col\u00e1-la na figura\u00e7\u00e3o do macaco. Assim, a transmiss\u00e3o secular de algumas explica\u00e7\u00f5es vem produzindo efeitos de dif\u00edceis decifra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Macaca-ou-gorila.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20378\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Macaca-ou-gorila-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Macaca-ou-gorila-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Macaca-ou-gorila-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Macaca-ou-gorila.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Os cartolas da Ponte Preta n\u00e3o conseguiram mudar macaca por gorila<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A popular\u00edssima express\u00e3o \u201cmacacos me mordam\u201d, por exemplo, tem raiz na Guerra do Paraguai, quando, frente ao Imperador Dom Pedro II, o genro, Conde D\u2019Eu, a cunhou, referindo-se aos soldados negros cedidos pelos fazendeiros de caf\u00e9. A express\u00e3o \u201cestar com a macaca\u201d sempre foi empregada como agitamento rid\u00edculo, palha\u00e7ada feita para divertir o outro, \u00e9 refer\u00eancia amplamente aceita. Bastante ferino, o dizer \u201ccada macaco no seu galho\u201d delimita o lugar de cada um na escala social, definido pela figura do macaco &#8211; isso, diga-se, anula o senso do lugar democr\u00e1tico, comum a todos.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma express\u00e3o que compromete esse repert\u00f3rio \u201cmacaco velho n\u00e3o mete a m\u00e3o em cumbuca\u201d. Curiosamente, o dizer congol\u00eas, inverte o exclusivismo negativo atribu\u00eddo aos macacos. Ao alertar os mais jovens sobre perigos, s\u00e3o os ancestrais s\u00edmios que det\u00e9m solu\u00e7\u00f5es. \u00c9 exatamente este o ponto de revers\u00e3o que interessa, pois, ao notar que s\u00e3o os velhos que ensinam os mais jovens, t\u00eam-se a\u00ed a grande li\u00e7\u00e3o: ainda que toda a sociedade branca se una, a li\u00e7\u00e3o de como lidar com o tema deve ser assumida por quem, por s\u00e9culos, a padece no corpo. S\u00f3 assim, mordendo a tradi\u00e7\u00e3o estruturalmente preconceituosa, estando com a macaca revertida e sabendo que todos os galhos pertencem ao mesmo tronco, os negros ativistas convocam os demais a n\u00e3o meter a m\u00e3o em cumbucas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sele\u00e7\u00e3o brasileira jogou com uniforme preto em protesto contra o racismo Para Marcel Diego Tonini Em 2014, pouco antes da Copa do Mundo, a revista &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20379,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20376","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20376","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20376"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20376\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20380,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20376\/revisions\/20380"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20379"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}