{"id":20371,"date":"2023-06-18T09:07:20","date_gmt":"2023-06-18T12:07:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20371"},"modified":"2023-06-18T09:08:34","modified_gmt":"2023-06-18T12:08:34","slug":"aprender-a-ser-so-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/aprender-a-ser-so-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"APRENDER A SER S\u00d3 (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Devo sim ter um parafuso a menos, admito. Herdei algumas pr\u00e1ticas que muitos chamam de toque: come\u00e7o toda caminhada com o p\u00e9 direito; n\u00e3o deixo bolsas com valores no ch\u00e3o; n\u00e3o uso roupa preta \u00e0s sextas-feiras. Sei que muitos repetem isso, mas h\u00e1 certas pr\u00e1ticas incomuns, distintas do repert\u00f3rio geral &#8211; algumas s\u00e3o manias leves, dessas que sequer chegam \u00e0 categoria de bizarrices; deixe-me explicar melhor&#8230; Sempre tenho compromissos matinais que exigem pontualidade e nunca deixo de programar meu velho r\u00e1dio rel\u00f3gio, mas quase nunca permito que ele cumpra sua obriga\u00e7\u00e3o: acordo antes, e com sorriso c\u00ednico, daqueles que cultivam d\u00favida e desafiam m\u00e1quinas, sinto-me vingado.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, foi assim que nasceu esta cr\u00f4nica. Havia programado a hora, levantei-me antes, e parado no meio do escuro esperei o r\u00e1dio que, por sua vez, com marota ironia, ressuscitava Ellis em lacrimejante r\u00e9cita da can\u00e7\u00e3o de Marcos e Paulo Sergio Valle \u201ceu preciso aprender a ser s\u00f3\u201d. Tomei isso como sugest\u00e3o e fui para o banheiro cantarolando \u201cah, seu pudesse fazer entender\/ sem teu amor eu n\u00e3o posso viver\/ que sem n\u00f3s dois o que resta sou eu\/ eu assim t\u00e3o s\u00f3\u201d e, num repente, escovando os dentes, olhando para o espelho que me devolvia um eu estranho, destilei a letra questionando a vida: \u201ceu preciso aprender a ser s\u00f3?\u201d. Liguei o chuveiro.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20372\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-1.jpg\" alt=\"\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sim, sou daqueles que filosofam no banho. Muito. Como vivo sozinho, vitimado pelo que meus documentos decretam, vi\u00favo, carreei o mote dram\u00e1tico para se banhar comigo. Foi imediata a mistura dos pensamentos existenciais que se multiplicavam em espumas. E comecei conjugar loucuras, at\u00e9 que de repente tive que me explicar por que sendo careca uso de xampu; por que fecho a porta do banheiro se ningu\u00e9m me espiar\u00e1; por que me enxugo sob o chuveiro em vez de fora? E de quesito em quesito reformulei a quest\u00e3o capital \u201ceu preciso aprender a ser s\u00f3\u201d? Ser\u00e1? Ser\u00e1 mesmo, logo eu que tanto gosto de ficar sozinho e at\u00e9 festejo minha companhia? Mas Ellis n\u00e3o me liberava.<\/p>\n<p>Fracote que sou, sem argumentos pr\u00f3prios, tomei carona em Heidegger com as \u201cteses sobre a solid\u00e3o\u201d. O pessimista alem\u00e3o assumiu aquele sentir como categoria filos\u00f3fica inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, explicador dos danosos buracos existenciais. E com isso, em mim fermentou discuss\u00e3o sobre o abismo causado pela saudade, sin\u00f4nimo de abandono absoluto. O intrigante pensador postulava a aus\u00eancia como fundamento do enfado m\u00f3rbido, grande respons\u00e1vel pelo desespero sem fim. Voltei ao espelho e no ritual da barba continuava conversando comigo. Contra-argumentei dizendo que os tempos mudaram, e assim pontifiquei uma hip\u00f3tese que, pretensiosamente, imaginem, me permitiu desafiar o formid\u00e1vel Heidegger: os tempos mudaram e com ele a solid\u00e3o&#8230; E ousei enfrent\u00e1-lo destronando o vazio existencial, agora trocado pelo estabelecimento de algo muito pior, a depress\u00e3o. Como n\u00e3o aprendemos a ser s\u00f3, fabricamos alternativas periclitantes.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-4.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20373\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-4-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-4-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-4-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-4-768x512.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Solidao-4.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sim, a solid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 mais aquela, mudou. Mediante a corrida do tempo, a velha dor do abandono se ilude com artif\u00edcios eletr\u00f4nicos que aparentemente nos ocupam e postergam dores motivadas por m\u00e1goas e ressentimentos. N\u00e3o se fica mais sozinho como antes, pois, as redes sociais, os podcasts, as s\u00e9ries, os joguinhos, tudo junto e misturado, n\u00e3o mais permite a ancestral solid\u00e3o. Sabe, saio do s\u00e9rio ao ver pessoas ouvindo mensagens gravadas em modo acelerado (uma vez e meia e at\u00e9 duas vezes mais r\u00e1pido). A soma disso decretou a necessidade do reaprendizado do tempo como medida da vida moderna. Desaprendemos, definitivamente, ser s\u00f3s; s\u00f3s at\u00e9 na busca desesperada de sa\u00eddas. A sa\u00edda da solid\u00e3o \u00e9 mais vi\u00e1vel que a \u201cdeprim\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Antes mesmo de passar o creme p\u00f3s-barba, perfumad\u00edssimo ali\u00e1s, lembrei-me que a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade j\u00e1 considera a depress\u00e3o como o \u201cmal do s\u00e9culo XXI\u201d. E combinemos, nossa cent\u00faria mal come\u00e7ou e o problema \u00e9 t\u00e3o alarmante que j\u00e1 o tratam como epidemia, abrangendo 10% da popula\u00e7\u00e3o mundial. Assim, vestido, pronto para sair, meio culpado, olhei novamente para o rel\u00f3gio que monotonamente cadenciava seus minutos. Pedi desculpas enternecido, e fiz um ato de contri\u00e7\u00e3o: vou me esfor\u00e7ar para respeit\u00e1-lo mais e me aplicar na li\u00e7\u00e3o de dar tempo ao tempo. E agradeci a can\u00e7\u00e3o que alertava \u201ceu preciso aprender a ser s\u00f3\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Devo sim ter um parafuso a menos, admito. 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