{"id":20304,"date":"2023-05-21T10:00:27","date_gmt":"2023-05-21T13:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20304"},"modified":"2023-05-21T10:00:27","modified_gmt":"2023-05-21T13:00:27","slug":"as-bundas-de-drummond-ou-nao-leia-esta-cronica-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/as-bundas-de-drummond-ou-nao-leia-esta-cronica-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"AS BUNDAS DE DRUMMOND ou N\u00c3O LEIA ESTA CR\u00d4NICA! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Por favor, se tiver pudor, melindre ou falta de coragem, n\u00e3o continue esta leitura. Caso v\u00e1 em rente, renuncie \u00e0 hipocrisia e libere o melhor de sua sensibilidade para a intelig\u00eancia po\u00e9tica, aquela que transcende o romantismo abstrato, tolo, pudico. Antes de tudo, valho-me da advert\u00eancia feita por Marilena Chau\u00ed ao diferenciar pornografia de erotismo. A pornografia \u00e9 campo da vulgaridade, do chulo e do escancarado, express\u00e3o distinta do erotismo, galante, sugestivo, ardente e prazeroso. E tudo ganha corpo quando se coloca em linha um dos mais prestigiados autores da l\u00edngua portuguesa, Carlos Drummond de Andrade, que ali\u00e1s nos deixou 40 poemas er\u00f3ticos, provocantes, pouco conhecidos. Juntados depois dez anos de sua morte em 1982, os escritos engavetados viraram livro, \u201cO amor natural\u201d (<a href=\"https:\/\/prosaempoema.com\/2010\/02\/26\/o-amor-natural\/\">https:\/\/prosaempoema.com\/2010\/02\/26\/o-amor-natural\/<\/a>).<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/marilena-chaui.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20305\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/marilena-chaui-450x280.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/marilena-chaui-450x280.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/marilena-chaui-300x187.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/marilena-chaui.webp 472w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Marilena Chau\u00ed diferencia erotismo de pornografia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 reentr\u00e2ncias interessantes na hist\u00f3ria dessa publica\u00e7\u00e3o que revela contraste absoluto entre a ousadia \u00edntima ao detalhar nuan\u00e7as sexualizadas e a timidez zelosa ao dispor ao p\u00fablico esses nada castos 36 versos (e quatro breves prosas). Ali\u00e1s, dizia ele a respeito dessa interdi\u00e7\u00e3o ter perdido \u201co bonde da pornografia\u201d. Ah, pornografia?! N\u00e3o; nada mais fino, bem-humorado, que a percep\u00e7\u00e3o er\u00f3tica percebida desde logo no versejo drummoniano. Ainda nos anos de 1930, Mario de Andrade j\u00e1 assinalava a profus\u00e3o de pernas, coxas, cheiros e tatos, presentes nos versos de estreia. Arrisquemos, pois, alcan\u00e7ar os escritos er\u00f3ticos no contexto da extensa obra do \u201cdoce sacana\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 raz\u00f5es de sobra para considerar a produ\u00e7\u00e3o de Drummond das mais usuais de serem apreciadas em fragmentos e das mais dif\u00edceis de compreens\u00e3o conjunta. O primeiro ponto a considerar no horizonte da complexidade remete \u00e0 inacredit\u00e1vel variedade de g\u00eaneros vertidos em poemas, cr\u00edtica, tradu\u00e7\u00e3o &#8211; entre cr\u00f4nicas e contos, deixou 17 volumes. Em face do monumental volume, autores como Raimundo de Carvalho separa o \u201cbom Drummond\u201d daquele mais popular, assinalando que nem tudo de Drummond \u00e9 bom ou merece destaque. \u00c9 claro que outros cr\u00edticos, como Ant\u00f4nio C\u00e2ndido, percebem em um, dois Drummonds, ambos intencionais e complementares: o que joga \u00e1gua na \u201cgrande literatura\u201d e outro na \u201cliteratura de ocasi\u00e3o\u201d. E Davi Arrigucci em continuidade exercita a leitura articulada dos endere\u00e7os da escrita de Drummond que soube espiralar solu\u00e7\u00f5es diferentes. \u00cdtalo Moriconi e Jos\u00e9 Miguel Wisnik endossam a diversidade dos v\u00e1rios g\u00eaneros exercitados pelo \u201cdiscreto porn\u00f3grafo\u201d evidenciando neles o tesouro de um autor que por ser variado soube o qu\u00ea e para quem produzir.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/drummond.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20306\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/drummond-450x258.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"258\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/drummond-450x258.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/drummond-300x172.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/drummond.webp 610w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Drummond assume &#8220;palavras que copulam\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es com estilo e quilate liter\u00e1rio, \u201cO amor natural\u201d revela dimens\u00f5es claras na proposta po\u00e9tica de Drummond. Sem pudor disfar\u00e7ado, h\u00e1 uma variedade de pormenores corporais que o autor assume de maneira fetichista, sem medo \u201cdas palavras que copulam\u201d, como disse Affonso Romano de Sant\u2019Anna no pref\u00e1cio. Com estilo azeitado Drummond se vale de um repert\u00f3rio de palavras afloradas de uma sexualidade amorda\u00e7ada: vulva, membro, vara, penetra\u00e7\u00e3o, gozo, coito. Tudo, por\u00e9m, sob a dimens\u00e3o do \u201cAmor natural\u201d assim descrito no primeiro verso da s\u00e9rie \u201cQuem ousar\u00e1 dizer que ele \u00e9 s\u00f3 alma?\/ Quem n\u00e3o sente no corpo a alma expandir-se\/ at\u00e9 desabrochar em puro grito\/de orgasmo, num instante de infinito?\u201d.<\/p>\n<p>Mas de verdade, h\u00e1 uma refer\u00eancia que sintetiza e d\u00e1 organicidade \u00e0 toda f\u00faria amorosa represada nesse Drummond: \u201ca bunda\u201d que, ali\u00e1s, se presentifica em alguns dos mais atrevidos versos da sequ\u00eancia: \u201cCoxas bundas coxas\u201d, \u201cA bunda, que engra\u00e7ada!\u201d, \u201cBundamel bundalis bundacor bundamor\u201d, \u201cNo m\u00e1rmore de tua bunda\u201d e \u201cEra bom alisar seu traseiro marm\u00f3reo\u201d. Diria que de todas as loas \u00e0 bunda, uma goza o privil\u00e9gio pela arg\u00facia revelada que se esconde em detalhes \u201cA Bunda engra\u00e7ada\u201d. Vejamos: \u201cA bunda, que engra\u00e7ada\/ Est\u00e1 sempre sorrindo, nunca \u00e9 tr\u00e1gica\/ N\u00e3o lhe importa o que vai pela frente do corpo\/ A bunda basta-se\/ Existe algo mais? Talvez os seios\/ Ora \u2014 murmura a bunda \u2014 esses garotos\/ ainda lhes falta muito que estudar\/ A bunda s\u00e3o duas luas g\u00eameas\/ em rotundo meneio\/ Anda por si na cad\u00eancia mimosa, no milagre\/ de ser duas em uma, plenamente\/ A bunda se diverte por conta pr\u00f3pria. E ama\/ Na cama agita-se\/ Montanhas\/ avolumam-se, descem. Ondas batendo\/ numa praia infinita\/ L\u00e1 vai sorrindo a bunda\/ Vai feliz na car\u00edcia de ser e balan\u00e7ar\/ Esferas\u00a0harmoniosas sobre o caos\/ A bunda \u00e9 a bunda\/ redunda\u201d.<a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Miguel-Wisnik.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20308\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Miguel-Wisnik-450x297.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"297\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Miguel-Wisnik-450x297.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Miguel-Wisnik-300x198.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Miguel-Wisnik-768x507.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Jose-Miguel-Wisnik.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Wisnik endossa a diversidade exercitada pelo \u201cdiscreto porn\u00f3grafo&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A primazia da bunda no gosto drummoninano por vezes n\u00e3o \u00e9 expl\u00edcita como nos versos indicados, e h\u00e1 nesta estrat\u00e9gia a entrega de realiza\u00e7\u00f5es que superam a ordem moral permitida. Vejamos a cita\u00e7\u00e3o presente em \u201cA outra porta do prazer\u201d onde revela \u201cA outra porta do\u00a0prazer\/ porta a que se bate suavemente\/seu convite \u00e9 um prazer ferido a fogo\/ e, com isso, muito mais prazer\/ Amor n\u00e3o \u00e9 completo se n\u00e3o sabe\/ coisas que s\u00f3 amor pode inventar\/ Procura o estreito \u00e1trio do cub\u00edculo\/ aonde n\u00e3o chega a luz, e chega o ardor de insofrida\/ mordente\/ fome de conhecimento pelo gozo\u201d.<\/p>\n<p>Imagino perplexidades em julgamentos deflorados da moral alienada que faz da arte depura\u00e7\u00f5es convenientes a falsos moralismos, nunca discutidos. Imagino tamb\u00e9m a\u00a0import\u00e2ncia de questionar valores que merecem ser visitados em favor da beleza natural dos corpos. Ali\u00e1s, vale terminar com um grito de \u00eaxtase dito pelo pr\u00f3prio autor \u201cJ\u00e1 sei\u00a0a\u00a0eternidade: \u00e9 puro orgasmo\u201d. A arte er\u00f3tica pode ser a transcend\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por favor, se tiver pudor, melindre ou falta de coragem, n\u00e3o continue esta leitura. Caso v\u00e1 em rente, renuncie \u00e0 hipocrisia e libere o melhor &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20307,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20304","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20304","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20304"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20304\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20309,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20304\/revisions\/20309"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20304"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20304"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20304"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}