{"id":20271,"date":"2023-04-30T08:38:47","date_gmt":"2023-04-30T11:38:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20271"},"modified":"2023-04-30T11:54:05","modified_gmt":"2023-04-30T14:54:05","slug":"meditacao-sobre-a-metade-da-metade-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/meditacao-sobre-a-metade-da-metade-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"MEDITA\u00c7\u00c3O SOBRE A METADE DA METADE (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Quase sempre falamos do tempo frio ou do calor. Extremar polos \u00e9 pr\u00e1tica usual e simples, ainda que anule media\u00e7\u00f5es vistas como eventos menores. \u00c9 verdade que c\u00e1 e l\u00e1 ouve-se algum coment\u00e1rio sobre as passagens, esta\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7as do clima. No Brasil ent\u00e3o tais observa\u00e7\u00f5es praticamente n\u00e3o fazem sentido \u201cs\u00f3 temos ver\u00e3o e inverno\u201d, dizem. Concordo que h\u00e1 m\u00fasicas que celebram outonos e \u00e9 at\u00e9 f\u00e1cil listar l\u00edricos festejos de primaveras, mas isto corre mais por repert\u00f3rios po\u00e9tico-rom\u00e2nticos que propriamente na prosa ou na pr\u00e1tica narrativa cotidiana. Assim, no elenco do dia a dia as mudan\u00e7as de temperatura servem apenas para lan\u00e7amentos de lojas, liquida\u00e7\u00f5es, ou queima de estoques. Foi pensando nestas circunst\u00e2ncias que me perguntei: mas, poderia ser de outro jeito? E despertando o ente que se inquieta em mim fui mais objetivo: como vivo o outono?<\/p>\n<p>Foi imediato lembrar de um serm\u00e3o do Padre Ant\u00f4nio Vieira em que, meditando sobre a rela\u00e7\u00e3o de Cristo com S\u00e3o Jo\u00e3o, remete ao instigante debate das \u201cmetades que se completam\u201d, refer\u00eancia a duas etapas do ano. Segundo o jesu\u00edta, no calend\u00e1rio religioso duas datas marcariam divisoras do tempo sagrado festivo e do recolhimento: 24 de dezembro, Natal, e, 24 de junho, dia de S\u00e3o Jo\u00e3o. A liturgia comemorativa dessas \u201cduas partes do mesmo todo\u201d, metades exatas, ainda \u00e9 cultuada em pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica acentuada, com \u00e9 o caso de Portugal \u2013 e entre n\u00f3s do Nordeste. Considerar isto me motivou uma pondera\u00e7\u00e3o perversa: subdividir por quatro os dois tempos polarizados em ver\u00e3o e inverno. E novamente me veio a pergunta impertinente: ent\u00e3o, qual o sentido das passagens de uma condi\u00e7\u00e3o \u00e0 outra?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/padre-antonio-vieira.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20272\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/padre-antonio-vieira-450x240.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"240\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/padre-antonio-vieira-450x240.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/padre-antonio-vieira-300x160.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/padre-antonio-vieira-768x410.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/padre-antonio-vieira.jpg 1500w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Padre Ant\u00f4nio Vieira: &#8220;duas partes do mesmo todo&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mais um questionamento me avassalou: a ideia m\u00e9trica de \u00bc\u00ba, ou seja, da metade da metade. Garoto ainda, na loja de meu pai, ficava encantado quando algu\u00e9m pedia a medi\u00e7\u00e3o do tecido citando a tal quarta parte do metro. Isso me encantava, ou melhor, me fascina at\u00e9 hoje a ponto de permitir relacionar o tempo, a natureza, com os sentimentos pessoais vistos em fases do ano. Falo especificamente do sentido do outono em mim, deste quarto de ano que provoca a mudan\u00e7a de cores nas folhas, quedas, e que aliviando o calor nos amea\u00e7a com o frio. Teria mesmo isso influ\u00eancia nos comportamentos? Euforia no ver\u00e3o, tristezas no inverno? E os entremeios?<\/p>\n<p>Foi um passo pensar as velh\u00edssimas li\u00e7\u00f5es sobre \u201cos quatro humores\u201d atribu\u00edda por Galeno a Hip\u00f3crates de C\u00f3s no livro \u201cDa Natureza do Homem\u201d. Nem vou discutir se era P\u00f3libo o autor, apenas ressalto a sugest\u00e3o explicativa dos \u201cquatro fluidos naturais no comportamento humano: sangue, fleuma, bile amarela e bile negra\u201d. Segundo tal teoria nossos temperamentos dependem diretamente das esta\u00e7\u00f5es do ano, e variam de acordo com o clima. Desdobrando essa teoria, a fleuma, fria e \u00famida, predomina no inverno; sangue, quente e \u00famido, na primavera; bile amarela, quente e seca, no ver\u00e3o; e bile negra, fria e seca, no outono. Por l\u00f3gico, tais pressupostos ficaram para tr\u00e1s, mas n\u00e3o resisto uma esp\u00e9cie de saudade explicativa que me faz pensar na minha postura outonal.<\/p>\n<p>Decorremos um quarto do ano e isso al\u00e7a protagonismo argumentativo quando retomamos as promessas da virada de um ano para o outro. Sim, todos fizemos planos para o \u201cano que nascia\u201d. \u00c9 certo que o momento de presta\u00e7\u00e3o de conta deve ser conferido no final do ciclo, mas que tal um reajuste agora, na metade da metade? Sup\u00fanhamos mudar alguns h\u00e1bitos, implementar atitudes corretivas de erros, inovar, aprender, corrigir&#8230; Conseguimos? Ou melhor, come\u00e7amos? Se sim, como projetar a continuidade; se n\u00e3o como recalibrar a promessa?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Hipocrates.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20273\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Hipocrates-450x149.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"149\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Hipocrates-450x149.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Hipocrates-300x99.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/Hipocrates.png 663w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Decorridos mais de 120 dias do ano, restam ainda tr\u00eas quartos, h\u00e1 tempo para tomar f\u00f4lego e a impress\u00e3o outonal pode servir de aviso. O recolhimento que aponta para dias ainda mais g\u00e9lidos pode servir de ponte para mensurar os projetos. \u00c9 a\u00ed que emerge a no\u00e7\u00e3o de passagem como momento f\u00e9rtil, de consci\u00eancia da mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Em tempos de valoriza\u00e7\u00e3o da natureza, em um momento em que somos convidados a reaprender respeitar a voz das matas, dos p\u00e1ssaros, das \u00e1guas e at\u00e9 das pedras, bem que poder\u00edamos fazer um mergulho interior e perguntar o sentido do outono, deste outono, em nossos projetos pessoais. E estender isso para o campo social, ali\u00e1s, qual a passagem sugerida neste outono para o inverno pol\u00edtico que certamente vir\u00e1? E que vir\u00e1 antes da pr\u00f3xima primavera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase sempre falamos do tempo frio ou do calor. 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