{"id":20207,"date":"2023-03-19T12:00:11","date_gmt":"2023-03-19T15:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20207"},"modified":"2023-03-19T12:00:11","modified_gmt":"2023-03-19T15:00:11","slug":"sapateadas-filosoficas-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/sapateadas-filosoficas-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"SAPATEADAS FILOS\u00d3FICAS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7ou quando um amigo questionou o significado de empatia. A discuss\u00e3o bobinha se desdobrou em coment\u00e1rios <u>opinativos. Passado um tempinho, lembrei-me de uma exposi\u00e7\u00e3o que visitei por acaso, no fim de 2017, no Ibirapuera em S\u00e3o Paulo. Tratava-se de uma experi\u00eancia provocante endossada pel<\/u>o \u201cMuseu da empatia\u201d, de Londres. A mostra era fundamentada no suposto \u201cs\u00f3 se pode conhecer uma pessoa depois de caminhar por uma milha com o sapato do outro\u201d. Cada visitante deveria escolher um modelo disposto ao p\u00fablico e depois de vesti-lo, caminhar ativando uma grava\u00e7\u00e3o que contaria a hist\u00f3ria do dono. Era incr\u00edvel ver a rea\u00e7\u00e3o das pessoas: homens como mulheres; crian\u00e7as como velhos; ateus como religiosos.<\/p>\n<p>Daquele <em>flash<\/em>, voei para longe, lembrei-me de um filme encantador \u201cTrocando os p\u00e9s\u201d onde Adam Sandler, sapateiro em New York, ao vestir os sapatos dos clientes ganhava a viv\u00eancia do dono, experimentando facetas de sua vida. Muito mais que hil\u00e1rio, o enredo tinha uma mensagem moral instigante. No mesmo impulso, busquei as refer\u00eancias de Freud sobre o gosto obsessivo das mulheres por sapatos. N\u00e3o precisei muito para imaginar a zanga de feministas que repudiam o \u201cprinc\u00edpio da castra\u00e7\u00e3o natural\u201d &#8211; que no caso tanto ligaria saltos altos \u00e0 tentativa de alcan\u00e7ar a altura dos homes como \u00e0 penetra\u00e7\u00e3o do p\u00e9, imitando p\u00eanis, em um orif\u00edcio. De toda forma, mesmo sob a chave do masculino dominador, Freud sustentaria o fetiche pelos sapatos e por a\u00ed est\u00e3o os filmes para provar.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bata-shoes-Toronto-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20211\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bata-shoes-Toronto-1-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bata-shoes-Toronto-1-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bata-shoes-Toronto-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bata-shoes-Toronto-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Bata-shoes-Toronto-1.jpg 780w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Bata Shoes Museum em Toronto<\/strong><\/em><\/p>\n<p>E outros est\u00edmulos curiosos provocaram investiga\u00e7\u00f5es complementares sobre os sapatos na hist\u00f3ria. Sem muito esfor\u00e7o me veio \u00e0 cabe\u00e7a a visita que fiz ao \u201cBata Shoes Museum\u201d em Toronto, Canad\u00e1. Logo recobrei a sensa\u00e7\u00e3o iniciada na entrada da fant\u00e1stica mostra que cobre 4.500 anos de hist\u00f3ria com pe\u00e7as inacredit\u00e1veis. No mesmo impulso reeditei o choque ao ver em alguns \u201cMuseus do Holocausto\u201d pilhas de sapatos representando o drama dos mortos em campos de exterm\u00ednio. Em vista disso, ali\u00e1s, busquei o poema \u201cEu vi uma montanha\u201d de Moses Schulstein que reza \u201c<em>n\u00f3s somos os sapatos, n\u00f3s somos as \u00faltimas testemunhas\/ n\u00f3s somos sapatos de netos e av\u00f3s, de Praga, Paris e Amsterd\u00e3\/ e porque n\u00e3o de sangue e de carne, cada um de n\u00f3s escapou do fogo do inferno<\/em>\u201d. E de imediato recordei o vazio sentido em Budapeste ao ver as instala\u00e7\u00f5es de sapatos velhos, \u00e0s margens do Dan\u00fabio, aludindo os judeus desaparecidos.<\/p>\n<p>Mas como nem s\u00f3 de tristezas \u00e9 composta a representa\u00e7\u00e3o dos sapatos na cultura, retracei casos comuns no cinema. A velha historieta italiana \u201c<em>la gatta cenerentola<\/em>\u201d serviu, por exemplo, como retomadas dos \u201csapatinhos de cristal\u201d no come\u00e7o da ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica \u2013 a primeira vers\u00e3o de Cinderela, francesa, foi de 1899. Em sequ\u00eancias espor\u00e1dicas, a mais conhecida foi a de 1950, dos est\u00fadios Disney. Antes, por\u00e9m, um outro cl\u00e1ssico hollywoodiano havia proposto o mito dos sapatos magos, \u201cO m\u00e1gico de Oz\u201d, de 1939, que permitiu \u00e0 menina Dorothy voltar para casa; o mesmo efeito\/sorte pode ser medido nas vers\u00f5es do \u201cGato de botas\u201d ou de \u201cUma bela mulher\u201d. Mas os cal\u00e7ados cinematogr\u00e1ficos n\u00e3o pararam a\u00ed. S\u00e3o muitos os exemplos, sendo que o mais recente \u00e9 registrado no seriado \u201cSex And The City\u201d, no qual a personagem central gasta US$ 500 em um par da grife Manolo Blahnik, dos mais famosos da atualidade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Imelda-mais-de-mil-pares.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20213\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Imelda-mais-de-mil-pares-450x350.png\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Imelda-mais-de-mil-pares-450x350.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Imelda-mais-de-mil-pares-300x233.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Imelda-mais-de-mil-pares.png 561w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Imelda Marcos, primeira-dama das Filipinas: mais de mil pares de sapato<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Nenhuma conversa sobre sapatos e manias pode deixar de lado a excentricidade de Imelda Marcus, primeira-dama da Filipinas, conhecida como \u201cborboleta de ferro\u201d, personalidade que se tornou mundialmente reconhecida como a maior colecionadora de sapatos da hist\u00f3ria. Sua mania virou atra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, passando a marca dos 3 mil pares. Outros <em>pops stars<\/em> como Sammy Davis Jr. Michael Jackson, Elizabeth Taylor e Lady Di, foram devotos de sapatos, condi\u00e7\u00e3o que atesta, inclusive, a vasta ind\u00fastria de cal\u00e7ados, da qual o Brasil se destaca perdendo primazia apenas para a China, \u00cdndia, Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>De verdade, acredito que, mais que nada, a reputa\u00e7\u00e3o do sapato adv\u00e9m de certa insist\u00eancia projetada no imagin\u00e1rio universal. Confirmemos com frases: Felicidade \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o cheio de amor e um arm\u00e1rio cheio de sapatos; Minist\u00e9rio da sa\u00fade adverte: a falta de sapatos novos deprime; A vida \u00e9 feita de altos e baixos; um dia o salto \u00e9 15, no outro \u00e9 sapatilha; Desilus\u00e3o amorosa \u00e9 se apaixonar por um sapato que n\u00e3o tem seu n\u00famero; Quem disse que dinheiro n\u00e3o compra felicidade n\u00e3o conhece sapatos; Se n\u00e3o encontrar o amor que busca, pode ter sorte e encontrar outro par (de sapatos); Chocolate \u00e9 bom, mas sapatos tem zero calorias; Chute o traste que te atazana com um belo par de sapatos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sapatos-Auschwitz.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20209\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sapatos-Auschwitz-450x288.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"288\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sapatos-Auschwitz-450x288.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sapatos-Auschwitz-300x192.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sapatos-Auschwitz-768x492.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Sapatos-Auschwitz.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Sapatos de v\u00edtimas de Alschwitz<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com a busca de entendimento da rela\u00e7\u00e3o com o outro. Caminhei por uma estrada cheia de meandros, gastando sola em volteios que se emendariam numa apologia ao sapato. Espero n\u00e3o ter causado demasiada calosidade, pois caso contr\u00e1rio, resta propor um retorno que, afinal, remete \u00e0 empatia: coloque-se no meu lugar, vista os meus sapatos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7ou quando um amigo questionou o significado de empatia. A discuss\u00e3o bobinha se desdobrou em coment\u00e1rios opinativos. 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