{"id":20189,"date":"2023-03-05T09:35:50","date_gmt":"2023-03-05T12:35:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20189"},"modified":"2023-03-05T09:35:50","modified_gmt":"2023-03-05T12:35:50","slug":"todes-tods-e-todxs-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/todes-tods-e-todxs-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"\u201cTODES\u201d, \u201cTOD@S\u201d E \u201cTODXS\u201d (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Que a l\u00edngua em uso em qualquer sociedade \u00e9 organismo vivo todos sabem. Viva e esperta. Esperta e tinhosa. N\u00e3o fosse viva, esperta e tinhosa repousaria morta como o Latim. Ali\u00e1s, conv\u00e9m puxar a perna do Latim para lembrar que enquanto viva ostentava com solenidade e apuro distintivo tr\u00eas g\u00eaneros: masculino, feminino e neutro. Suas filhas diletas, principalmente as mais velhas e familiarmente pr\u00f3ximas como o italiano, o franc\u00eas e o espanhol e portugu\u00eas, ao se firmarem como idiomas nacionais, eliminaram o neutro e assumiram o masculino como gen\u00e9rico plural. Autorit\u00e1rias, todas se tornaram colonizadoras, submetendo as servas.<\/p>\n<p>E foi assim que o \u201ca\u201d ficou para as mulheres e o \u201co\u201d para os homens \u2013 na mesma l\u00f3gica cabotina do \u201crosa\u201d para elas e do \u201cazul\u201d para eles. H\u00e1 muitas explica\u00e7\u00f5es para essas escolhas bin\u00e1rias. Desde a evoca\u00e7\u00e3o b\u00edblica que garante Ad\u00e3o como o primeiro ser vivo at\u00e9 os postulados pol\u00edticos romanos que privilegiavam o homem como legislador. Por certo, seja qual for a via, a masculinizar\u00e3o da l\u00edngua, em particular das neolatinas, \u00e9 fato inquestion\u00e1vel. Na mesma medida \u00e9 esse o alvo principal para a busca de sa\u00eddas: o combate ao machismo \u2013 leia-se, ao patriarcalismo e ao direito de equiparidade \u2013 como se a l\u00edngua resolvesse a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde o encontro de culturas possibilitado pela vinda dos portugueses ao Brasil, ocorrem a\u00e7\u00f5es subversivas desafiando a domina\u00e7\u00e3o a ortodoxia conquistadora. A alma inquieta que agita as falas jamais se contentou com verticalidades, e sempre se identificaram frestas incontidas na pretens\u00e3o metropolitana. O portugu\u00eas do Brasil \u00e9 dos mais vibrantes e coloridos, tendo incorporado termos de variadas manifesta\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas \u2013 a variedade de nossa topon\u00edmia \u00e9 um tesouro \u2013 e incont\u00e1veis nuan\u00e7as africanas que permitiu inclusive que L\u00e9lia Gonzales criasse o precioso neologismo \u201cpretugu\u00eas\u201d. E \u201cmacaxeira\u201d e \u201ccafun\u00e9\u201d nos explicam abrasileirados.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lelia-gonzalez.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20190\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lelia-gonzalez-450x337.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"337\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lelia-gonzalez-450x337.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lelia-gonzalez-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lelia-gonzalez-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lelia-gonzalez-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/lelia-gonzalez-2048x1535.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A intelectual L\u00e9lia Gonzales criou o neologismo &#8220;pretugu\u00eas&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Diria sem medo de errar que nosso modo de falar \u00e9 t\u00e3o din\u00e2mico e pr\u00f3prio que se justifica classific\u00e1-lo como \u201cl\u00edngua brasileira\u201d. Pol\u00eamicas \u00e0 parte, no entanto, esta discuss\u00e3o vale como pretexto para debates sobre um dos temas mais ferventes do momento, o g\u00eanero lingu\u00edstico. Organizar qualquer trama sobre as recentes varia\u00e7\u00f5es do portugu\u00eas atual requer m\u00e9todo e discernimento cultural. Nem tudo pode ser descart\u00e1vel por rebeldias ing\u00eanuas. Digamos que um pouco de comando tamb\u00e9m far\u00e1 bem aos interessados em qualificar o entendimento do assunto.<\/p>\n<p>Comecemos pelo b\u00e1sico que reza ser a l\u00edngua portuguesa naturalmente neutra. A chamada \u201cnorma culta\u201d se constitui em um conjunto de regras conservadoras que cuida da gram\u00e1tica e da aplica\u00e7\u00e3o elaborada do vern\u00e1culo. Muito mais r\u00edgida e exigente, a escrita por excel\u00eancia dedica-se ao esmero e angula explica\u00e7\u00f5es gramaticais sem as quais as l\u00ednguas n\u00e3o subsistem. Mais solta, a fala, muito mais livre e suscet\u00edvel, \u00e9 perme\u00e1vel aos acentos e entona\u00e7\u00f5es regionais. Isso a faz mais l\u00edquida e penetrante. Marcos Bagno tem insistido na abordagem da l\u00edngua como fato pol\u00edtico e isso nos convida a convocar as tramas do \u201cpoliticamente correto\u201d. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 sem motivo que um dos principais objetos das eventuais incorpora\u00e7\u00f5es remete ao tratamento sexista da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Invocando pol\u00edticas de inclus\u00e3o social, em particular os movimentos LBGTQIA+ s\u00e3o os grandes art\u00edfices dessa onda. \u00c9 claro que isso remete aos brados feministas que buscam equipara\u00e7\u00e3o de direitos, a come\u00e7ar pela fala. Sabe-se que qualquer sucesso depende da aceita\u00e7\u00e3o ampla que pode ou n\u00e3o acatar as propostas. N\u00e3o s\u00f3 as correntes conservadoras rejeitam as mudan\u00e7as, como h\u00e1 problemas t\u00e9cnicos nesse andamento. A transposi\u00e7\u00e3o do oral para escrito, por exemplo, acaba por implicar um contradit\u00f3rio ponto na quest\u00e3o, posto que al\u00e9m das indecis\u00f5es sobre qual o sema ideal (\u201ce\u201d, \u201c@\u201d, \u201cX\u201d), como ficariam os registros em braile? Valeria excluir os cegos para incluir os demais? E \u00e9 chato demais falar \u201ctodos e todas\u201d. Horr\u00edvel camuflar tudo por \u201cminha gente\u201d ou \u201col\u00e1 pessoal\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marcos-Bagno.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20191\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marcos-Bagno-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marcos-Bagno-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marcos-Bagno-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Marcos-Bagno.jpg 620w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Marcos Bagno insiste na abordagem da l\u00edngua como fato pol\u00edtico<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Interessante notar que as tens\u00f5es se acirram. De um lado, os ortodoxos que inclusive est\u00e3o atentos aos v\u00ednculos com os demais grupos de fala lus\u00f3fona e evitam modismos exagerados (ou in\u00fateis). Reverso disso, autores como Gioni Ca\u00ea promovem textos como \u201cManual para uso de linguagem neutra em L\u00edngua Portuguesa\u201d. A soma dos argumentos de ambos os lados alarga extremos, mas h\u00e1 suspeitas que a tradi\u00e7\u00e3o ven\u00e7a e as insistentes varia\u00e7\u00f5es, por n\u00e3o se constitu\u00edrem sequer unidade entre elas, tendam a se esvair como ocorreu com outras ondas na base do \u201clugar de fala\u201d ou \u201cempoderamento\u201d.<\/p>\n<p>De meu lado, mesmo atento ao ritmo das mudan\u00e7as, respeitoso da luta por direitos humanos equiparados, devo confessar, humildemente, que n\u00e3o me sinto confort\u00e1vel com as varia\u00e7\u00f5es e, em complemento, garanto que nunca saberia escolher entre o \u201cTodes\u201d, \u201cTod@s\u201d ou \u201cTodxs\u201d. E voc\u00ea?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que a l\u00edngua em uso em qualquer sociedade \u00e9 organismo vivo todos sabem. Viva e esperta. Esperta e tinhosa. 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