{"id":20136,"date":"2023-02-05T07:58:03","date_gmt":"2023-02-05T10:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20136"},"modified":"2023-02-05T07:58:03","modified_gmt":"2023-02-05T10:58:03","slug":"etabuat-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/etabuat-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"\u00c9TABUAT (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Foi uma noite dif\u00edcil. Ins\u00f4nia brava. Fiz todos os exerc\u00edcios recomendados para \u201capagar\u201d. Todos: permaneci im\u00f3vel, olhando para o teto; mudei para posi\u00e7\u00e3o fetal; sentei-me \u00e0 beira da cama; procurei meditar; recusei ler, pois isso me acende, como me acende tamb\u00e9m ver TV, enfim, levantei-me e comi um biscoito gostoso, escovei os dentes novamente, estava muito quente para tomar um ch\u00e1, fui de \u00e1gua mesmo&#8230; e nada! Sabe o que \u00e9 nada? Pensei em rezas, mandingas porque nem o zolpeiden fez efeito. Nada, outra vez. Olhava com raiva para o rel\u00f3gio que insistia na marcha lenta, tic-tic-tic. Resultado: assumi a noite e \u00e0 meia luz parti para a m\u00fasica. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o poderia ser qualquer som, haveria de buscar algo que me acalmasse. Achei aquele canal de sele\u00e7\u00f5es pr\u00e9-escolhidas, olhei com certo triunfo o \u201ccard\u00e1pio\u201d, at\u00e9 que optei pelo de \u201cMPB\u201d. E logo a primeira can\u00e7\u00e3o me fisgou. Caetano ao viol\u00e3o, cantado \u201creconvexo\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Caetano-Veloso-e-Maria-Bethania.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20137\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Caetano-Veloso-e-Maria-Bethania-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Caetano-Veloso-e-Maria-Bethania-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Caetano-Veloso-e-Maria-Bethania-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Caetano-Veloso-e-Maria-Bethania-768x512.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Caetano-Veloso-e-Maria-Bethania.webp 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Em 1989, durante viagem da Roma, Caetano escreveu reconvexo para a mana Beth\u00e2nia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c0s vezes fico pensando na crueldade disfar\u00e7ada na figura\u00e7\u00e3o daquele Veloso. Com a mana Beth\u00e2nia n\u00e3o acontece o mesmo. A voz dela \u00e9 clara, incisiva e coerente com tudo que canta e dan\u00e7a. Ela \u00e9 firme e de uma firmeza condutora de l\u00f3gica convincente. Gosto demais das escolhas dela, mensagens na veia. E dele gosto tamb\u00e9m, muito, mas \u00e9 um apreciar complexo, composto, dial\u00e9tico, sempre meditativo e reticente. H\u00e1 tantos enigmas nas apresenta\u00e7\u00f5es desse bardo que, ou me perco em an\u00e1lises ou, meio alienado, curto a melodia. Talvez a maior charada caet\u00e2nica seja a combina\u00e7\u00e3o de sua voz linda e mansa, com a perversidade das palavras que entoa. \u00c9 como aquelas can\u00e7\u00f5es de ninar tipo \u201cboi, boi, boi da cara preta, pega essa crian\u00e7a que tem medo de careta\u201d. Maldade, n\u00e9?! Ent\u00e3o Caetano vem dessa tradi\u00e7\u00e3o camale\u00f4nica, \u201ccabe\u00e7a\u201d, e foi na exata circunst\u00e2ncia da ins\u00f4nia que ouvi \u201creconvexo\u201d. Reconvexo, que palavra! Pode? Desapertei de vez e varri a possibilidade de vig\u00edlia para a noite empoeirada de estrelas.<\/p>\n<p>Como maldisse a intelig\u00eancia do genial Caetano! Ele for\u00e7ava articula\u00e7\u00f5es dignas de um ginasta da palavra. Puxando paradoxos imposs\u00edveis mesclava a chuva no deserto, com os autom\u00f3veis de Roma, Iara misturada com a matriarca Negra, e dessa salada ia avisando \u201cVoc\u00ea n\u00e3o me pega\/ voc\u00ea nem chega a me ver\/ Meu som te cega, careta\u201d e seguia arrematando com um fatal \u201cquem \u00e9 voc\u00ea?\u201d. Pronto estava dado toque definitivo do eterno despertar. \u201cquem \u00e9 voc\u00ea?\u201d achei que jamais voltaria a dormir. E restava me buscar no mapa de mim mesmo.<\/p>\n<p>Diria que a longa can\u00e7\u00e3o me fez sentir jovem vestibulando tendo que entender a pergunta filos\u00f3fica no espa\u00e7o r\u00e1pido de uma faixa de \u00e1lbum musical. E felizmente o refr\u00e3o era repetido alertando para alguma resposta poss\u00edvel. Depois de ladainhar paradoxos ele chega sorrateiro \u00e0 pr\u00f3pria casa materna e cantarolando pergunta \u201cQuem n\u00e3o rezou a novena de Dona Can\u00f4\/ Quem n\u00e3o seguiu o mendigo Jo\u00e3ozinho Beija-Flor\/ Quem n\u00e3o amou a eleg\u00e2ncia sutil de Bob\u00f4\u201d, e arremata com fatalidade \u201cQuem n\u00e3o \u00e9 Rec\u00f4ncavo e nem pode ser reconvexo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Insonia-1.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20138\" src=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Insonia-1-450x300.webp\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Insonia-1-450x300.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Insonia-1-300x200.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Insonia-1-768x512.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Insonia-1.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><em><strong>A criatividade de uma noite com ins\u00f4nia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No fluxo da balada me transportei para meu eu e me buscando no \u201cquem \u00e9 voc\u00ea?\u201d indaguei lugares determinantes de minha exist\u00eancia&#8230; E cheguei a Taubat\u00e9, minha cidade adotada. E nela me perguntei, pensando em minha fam\u00edlia, na loja de meus pais: \u201cquem n\u00e3o comprou panos na Casa Abrah\u00e3o\/ Quem n\u00e3o pechinchou ouvindo hist\u00f3rias de meu pai\/ quem n\u00e3o aprendeu uma receita de doce com minha m\u00e3e\/ quem n\u00e3o voltou \u00e0quela loja\u201d&#8230; quem n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 taubateano e nem pode ser \u00e9tabuat. Ali\u00e1s s\u00f3 os \u00e9tabuats de corpo ou de alma entender\u00e3o a viagem de minha volta.<\/p>\n<p>Ah!, devo dizer que desliguei a m\u00fasica e ligado no registro daquele eterno retorno, parti para esta escrita que n\u00e3o deixa de percorrer uma rota pavimentada de porqu\u00eas, reconvexos. Pronto, estava respondida a quest\u00e3o: quem sou eu? Sou fruto daquele universo imenso em sua pequenez, elo entre a vida de uma fam\u00edlia de imigrantes libaneses e uma comunidade inteira que aos meus olhos sempre infantis se vestia com roupas compradas em minha casa, onde tudo come\u00e7ou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi uma noite dif\u00edcil. Ins\u00f4nia brava. Fiz todos os exerc\u00edcios recomendados para \u201capagar\u201d. 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