{"id":20120,"date":"2023-01-22T09:26:13","date_gmt":"2023-01-22T12:26:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20120"},"modified":"2023-01-22T09:26:13","modified_gmt":"2023-01-22T12:26:13","slug":"pelos-olhos-de-meu-pai-jose-carlos-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/pelos-olhos-de-meu-pai-jose-carlos-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PELOS OLHOS DE MEU PAI (Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Recebi numa das poucas redes sociais que frequento o poema de M\u00e1rio Quintana \u201cO velho do espelho\u201d. Li com solenidade e coloquei um espelho em minha imagina\u00e7\u00e3o que vagabundeia por esse ver\u00e3o louco, hora molhado demais, hora t\u00f3rrido demais. E \u201cdemais\u201d \u00e9 boa palavra para significar meu olhar sobre o pret\u00e9rito visto do presente. O verso \u00e9 aberto com um susto \u201cpor acaso, surpreendo-me no espelho: quem \u00e9 esse\/ que me olha e \u00e9 t\u00e3o mais velho do que eu?\u201d. Parei na primeira linha. F\u00f4lego. Ar. Pensei no alvo certeiro do versejador que colocava em minha frente uma quest\u00e3o existencial.<\/p>\n<p>Devo dizer que o dia ainda estava para nascer e aquela quest\u00e3o me paralisava. O verso era um di\u00e1logo entre pai e filho em que um se via no outro como continuidade e diverg\u00eancia. E, desdobrando, vinha a quest\u00e3o fatal \u2018O que fizeste de mim?!\/ Eu, Pai?! Tu \u00e9 que me invadiste\u2019\u201d. Foi o bastante para transformar tudo em um ajuste de contas. Meu pai, meu passado; eu, meu presente&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Sebe-na-Unitau-recortada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20122\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Sebe-na-Unitau-recortada.jpg\" alt=\"\" width=\"331\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Sebe-na-Unitau-recortada.jpg 331w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Sebe-na-Unitau-recortada-300x287.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 331px) 100vw, 331px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pai-do-Sebe-reduzida-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-20123\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pai-do-Sebe-reduzida-1-434x450.jpg\" alt=\"\" width=\"327\" height=\"339\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pai-do-Sebe-reduzida-1-434x450.jpg 434w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pai-do-Sebe-reduzida-1-290x300.jpg 290w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Pai-do-Sebe-reduzida-1.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 327px) 100vw, 327px\" \/><\/a><em><strong>Mestre Sebe espantou-se com a sua imagem (ou do pai?)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cEu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre\u201d&#8230; Costurei fatos da vida para justificar o recorte que me destilar o passado. De repente, me revi como garoto do interior de S\u00e3o Paulo, filho de \u00e1rabes que tinham um claro e articulado projeto de vida, gente que saiu da pobreza aguda com o fito de n\u00e3o repetir a trajet\u00f3ria desgra\u00e7ada nos filhos. Estava dada a partida. A loja no Largo do Mercado, a Casa Abra\u00e3o, como cen\u00e1rio de trabalho indicava um caminho a ser seguido. \u00c9 l\u00f3gico que a educa\u00e7\u00e3o escolar entrava no card\u00e1pio, mas como prato secund\u00e1rio. Primeiro e acima de tudo o trabalho. Dado o roteiro, me restava subvert\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Defini cedo meu caminho. Ser professor era a meta. Houve muita negocia\u00e7\u00e3o, aprendi trocar a faina na loja com os deveres escolares. E me dei bem. Talvez a\u00ed esteja a matriz de nossos rostos: eu envelheci vendo meus pais lutando, dia e noite. O trabalho foi minha heran\u00e7a maior. Minha e de meus dois irm\u00e3os.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Com-os-3-filhos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20125\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Com-os-3-filhos-338x450.jpg\" alt=\"\" width=\"338\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Com-os-3-filhos-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Com-os-3-filhos-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Com-os-3-filhos.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 338px) 100vw, 338px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Parece que a rebeldia est\u00e1 no DNA: nenhum filho aderiu \u00e0 academia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vendo de hoje, \u201cnegociar\u201d foi um verbo que conjuguei tamb\u00e9m na vida social e pol\u00edtica. Sinto-me vexado quando retomo a vergonha que sentia ao ver meus pais falando \u00e1rabe, e demorou a ter coragem de me orgulhar dos quitutes inigual\u00e1veis que minha m\u00e3e fazia. Mas me era fundamental temperar tudo. Em termos de cultura familiar, vivia duas vidas, uma devotada a mostra p\u00fablica onde deveria ser igual a todos os n\u00e3o \u00e1rabes; outra interna, pessoal, onde o \u201chonrar pai e m\u00e3e\u201d era mandamento da lei dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>Ainda que questionador, rebelde mesmo, acho que n\u00e3o fui mal filho. E em termos pol\u00edticos tamb\u00e9m divergi sem titubear. Com desmedida ternura guardo a lembran\u00e7a dos \u201colhos fechados\u201d de meu pai que me querendo, al\u00e9m de comerciante, advogado, fingia n\u00e3o saber que \u00e0 noite, na surdina, eu cursava Hist\u00f3ria. E qual n\u00e3o foi minha surpresa quando um dia achei recortes que ele colecionava com meus primeiros artigos hist\u00f3ricos nos jornais locais. Sabia de tudo e quando chegou a cerim\u00f4nia de formatura, orgulhoso me deu um anel. Mais exclamado fiquei quando depois, em vez de se referir a mim como \u201cformado em Direito\u201d, dizia que eu era professor. E olhava penetrante em meus olhos claros como o dele.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Casa-Abrao-recortada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20124\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Casa-Abrao-recortada-381x450.jpg\" alt=\"\" width=\"381\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Casa-Abrao-recortada-381x450.jpg 381w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Casa-Abrao-recortada-254x300.jpg 254w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Casa-Abrao-recortada.jpg 390w\" sizes=\"auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cuidar da Casa Abra\u00e3o fazia parte do destino tra\u00e7ado por seu pai<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Casei-me fora dos planos familiares. Troquei a loja pela c\u00e1tedra. V\u00ea-lo emocionado em minha defesa de tese na USP, onde virei professor, me \u00e9 das lembran\u00e7as mais consoladoras. Morava fora do Brasil quando papai morreu e n\u00e3o cheguei a tempo para uma despedida adequada. A longa viagem furando espa\u00e7os me fez em l\u00e1grimas agradecidas, as mesmas que retomo agora ao ler o poema seguinte:<\/p>\n<p>\u201cPor acaso, surpreendo-me no espelho: quem \u00e9 esse\/ Que me olha e \u00e9 t\u00e3o mais velho do que eu? Por\u00e9m, seu rosto&#8230; \u00e9 cada vez menos estranho&#8230;\/ Meu Deus, Meu Deus&#8230;Parece meu velho pai &#8211; que j\u00e1 morreu!\/ Como pude ficarmos assim?\/ Nosso olhar &#8211; duro &#8211; interroga: \u2018O que fizeste de mim?!\u2019\/ Eu, Pai?! Tu \u00e9 que me invadiste\/ Lentamente, ruga a ruga&#8230; Que importa? Eu sou, ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre\/ E os teus planos enfim l\u00e1 se foram por terra\/ Mas sei que vi, um dia &#8211; a longa, a in\u00fatil guerra! &#8211; Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste&#8230;\u201d<\/p>\n<p><strong><em>M\u00e1rio Quintana<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi numa das poucas redes sociais que frequento o poema de M\u00e1rio Quintana \u201cO velho do espelho\u201d. 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