{"id":20030,"date":"2022-10-30T07:51:43","date_gmt":"2022-10-30T10:51:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=20030"},"modified":"2022-10-30T07:51:43","modified_gmt":"2022-10-30T10:51:43","slug":"o-saci-nao-e-mais-aquele-e-o-que-lobato-tem-a-ver-com-isso-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-saci-nao-e-mais-aquele-e-o-que-lobato-tem-a-ver-com-isso-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O SACI N\u00c3O \u00c9 MAIS AQUELE &#8211; E O QUE LOBATO TEM A VER COM ISSO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Zuenir Ventura referia-se ao ano 1968 como inacab\u00e1vel. Eram tantos os acontecimentos destac\u00e1veis que parecia n\u00e3o caber no calend\u00e1rio regular, tinha que continuar. Inicialmente, pensei parafrasear o grande jornalista, mas optei pelo caminho inverso: 2022 o ano que poderia acabar j\u00e1. Tantos s\u00e3o os tormentos que nos sentimos esgotados, ansiosos, aspirantes apressados dos tais \u201cnovos tempos\u201d. Mesmo sabendo que 2023 ser\u00e1 de lascar, mais que nunca, come\u00e7ar de novo torna-se objeto de desejo.\u00a0Sobretudo, o longo per\u00edodo eleitoral deste ano-secular implicou escolhas pol\u00edticas que\u00a0dominaram o espa\u00e7o p\u00fablico. As mazelas nacionais jogadas em nossos rostos nos enojaram, exigindo aten\u00e7\u00f5es a temas duros.<\/p>\n<p>O justificado processo seletivo, de certa forma, isolou alguns debates caracter\u00edsticos dos ciclos rotineiros, e se isso fez falta como lenitivo, provocou pondera\u00e7\u00f5es agora cab\u00edveis. Em termos culturais, o saci &#8211; que tem celebra\u00e7\u00e3o marcada dia 31 de outubro, amanh\u00e3 &#8211; foi um desses casos escamoteados. Minha eterna busca de\u00a0positividades, contudo, permitiu questionar se n\u00e3o haveria um lado bom nisso. Brincando de tudo-bem, imaginei que a aus\u00eancia dos retumbantes festejos pudesse dar vaz\u00e3o a certos questionamentos que, sim, precisam ser reavaliados. Numa r\u00e1pida contabilidade me perguntei: quais seriam os temas mais importantes para pensar o saci hoje? Como aproveitar o sil\u00eancio nacional afeito \u00e0queles folguedos?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-20033 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Saci-e-Lobato-226x300.jpg\" alt=\"\" width=\"226\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Saci-e-Lobato-226x300.jpg 226w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Saci-e-Lobato-339x450.jpg 339w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Saci-e-Lobato.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 226px) 100vw, 226px\" \/><\/p>\n<p>Talvez de maneira injusta, tenho sido cr\u00edtico \u00e1cido da aproxima\u00e7\u00e3o do significado do nosso \u201cdia do saci\u201d \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o do Halloween norte-americanizado ou, em casos mais sofisticados, ao Dia dos Mortos no M\u00e9xico\u201d. Acho tais abordagens simplistas, bobagem sem prop\u00f3sito e at\u00e9 depreciativa de nossa autonomia cultural. Mas, por enquanto, este tema pode aguardar oportunidade. O que mais me sensibiliza neste momento \u00e9 o uso simplificado de uma figura espetacularmente significativa para a reflex\u00e3o cultural do ser brasileiro.<\/p>\n<p>Pensando nisso, meu lado historiador convocou um rabisco r\u00e1pido, atento ao tr\u00e2nsito do saci de ser diab\u00f3lico, mau, cheirando enxofre, emitindo sons insuport\u00e1veis, versus o menininho simp\u00e1tico, engra\u00e7ado, adocicado, maroto, amiguinho. O que teria acontecido? Perdemos a mem\u00f3ria?<\/p>\n<p>Inscrevendo o debate em outra pauta, paralela, vale considerar o atual saci invariavelmente metamorfoseado. H\u00e1 pistas capazes de consider\u00e1-lo origin\u00e1rio das matas guarani \u2013 entre fronteiras do Brasil e Paraguai &#8211; apontado como guardi\u00e3o das florestas; n\u00e3o faltam importa\u00e7\u00f5es celtas, ib\u00e9ricas, n\u00f3rdicas, europeias enfim, que ent\u00e3o emprestariam o capuz vermelho e a pr\u00e1tica das traquinagens dom\u00e9sticas; a africaniza\u00e7\u00e3o teria se passado desde a presen\u00e7a escrava e a associa\u00e7\u00e3o com a negritude funciona como marca filtrada do preconceito escravagista.<\/p>\n<p>Outra sinaliza\u00e7\u00e3o importante para a explica\u00e7\u00e3o reformulada do nosso saci se apoia no mito do hibridismo cultural brasileiro, condi\u00e7\u00e3o ali\u00e1s que tem atravessado nossa hist\u00f3ria, projetando-nos como harmonizadores de tudo, incruentos, democratas. Esse ponto interessa fundamentalmente para a cr\u00edtica simplificadora de Lobato como \u201cpr\u00e9\u201d ou \u201cantimodernista\u201d. Se considerarmos as publica\u00e7\u00f5es do \u201cInqu\u00e9rito sobre o saci\u201d, desde 1917 em jornal e depois em 1918 em livro, temos moldura capaz de implicar Lobato na alma do modernismo e acat\u00e1-lo coerente com o \u201cesp\u00edrito de corpo\u201d que o justificava afinado com as propostas culturais postas em tela. Sob tal mirada, o trabalho com o saci seria fator bastante para explicar a estrat\u00e9gia da devora\u00e7\u00e3o que d\u00e1 sentido ao movimento Antropof\u00e1gico. O pr\u00f3prio saci, produto de outros sacis, seria resultado devolvido ao Brasil.<\/p>\n<p>Autores como Jesse de Souza t\u00eam retomado a oficialidade da hist\u00f3ria e proposto revis\u00f5es que, no caso do saci, tornam-se esclarecedoras dos mecanismos que inventam a cultura brasileira como tolerante, ex\u00f3tica, boazinha. Nada, nada disso. A transforma\u00e7\u00e3o objetificada do saci em mercadoria pedag\u00f3gica, de preto retinto e agressivo, de figura repulsiva em engra\u00e7adinho \u00e9 uma forma de calibrar, manipulando for\u00e7as capazes de animar outras vis\u00f5es potentes da representa\u00e7\u00e3o popular. Convida-se a pensar o uso do saci nas escolas e, por elas, a manipula\u00e7\u00e3o cultural feita pelo vi\u00e9s pedag\u00f3gico.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-20032 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/O-saci-de-Lobato-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/O-saci-de-Lobato-300x300.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/O-saci-de-Lobato-450x450.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/O-saci-de-Lobato-150x150.jpeg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/O-saci-de-Lobato-80x80.jpeg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/O-saci-de-Lobato-360x360.jpeg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/O-saci-de-Lobato.jpeg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Dois elementos chamam a aten\u00e7\u00e3o na tecitura do perfil do novo saci: a retirada de seu car\u00e1ter contestador, de resist\u00eancia e perigo, e a aproxima\u00e7\u00e3o ing\u00eanua de um personagem identificado como produto nacional, esperto, alegre, control\u00e1vel, ainda que n\u00e3o exatamente humanizado.<\/p>\n<p>Pensemos o(s) saci(s) de Lobato como a chave que abriu esse cofre de possibilidades. Ele tamb\u00e9m inquieto, soltou seus sacis, e escondeu a chave. Precisamos dela para nos entender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Zuenir Ventura referia-se ao ano 1968 como inacab\u00e1vel. Eram tantos os acontecimentos destac\u00e1veis que parecia n\u00e3o caber no calend\u00e1rio regular, tinha que continuar. Inicialmente, pensei &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20031,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-20030","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20030","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20030"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20030\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20034,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20030\/revisions\/20034"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20031"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20030"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20030"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20030"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}