{"id":19993,"date":"2022-10-09T08:02:35","date_gmt":"2022-10-09T11:02:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19993"},"modified":"2022-10-09T08:02:35","modified_gmt":"2022-10-09T11:02:35","slug":"palavroes-e-cultura-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/palavroes-e-cultura-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PALAVR\u00d5ES E CULTURA (JC Sebe Bom Meihy)\u00a0"},"content":{"rendered":"<p>Que a l\u00edngua \u00e9 viva todos sabem: esperta, oportunista, ela vai se mexendo em\u00a0muta\u00e7\u00f5es, algumas intrincadas, outras misteriosas. Por anos, autores como Marcos\u00a0Bagno t\u00eam insistido na din\u00e2mica dessas estruturas, mostrado condicionamentos\u00a0gerais, adapta\u00e7\u00f5es,\u00a0 subterf\u00fagios. Jos\u00e9 Luiz Fiorin, linguista atento \u00e0s matrizes\u00a0modernas, salienta que, frente ao ingl\u00eas, franc\u00eas e espanhol, o portugu\u00eas se\u00a0posiciona como uma das l\u00ednguas mais exuberantes e democr\u00e1ticas por incorporar tradi\u00e7\u00f5es subalternas.<\/p>\n<p>Tomando a coloniza\u00e7\u00e3o como ponto de partida, a l\u00edngua dos conquistadores lusitanos se viu permeada por marcas pr\u00e9vias, principalmente pelo legado \u00e1rabe e, depois das grandes navega\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XVI, pelas influ\u00eancias africanas e ind\u00edgenas. Nesse quesito, ali\u00e1s, o Brasil tem o que mostrar em termos de particularidades. Esta\u00a0constata\u00e7\u00e3o permite justificar o apego que temos \u00e0 l\u00edngua m\u00e3e e, em contraste, \u00e0s\u00a0dificuldades dos brasileiros m\u00e9dios frente o aprendizado de outros idiomas. H\u00e1\u00a0recursos facilitadores como o entendimento da cultura que ambienta cada manifesta\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, ter no\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios vivenciais de cada grupo ajuda muito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19994 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-Luiz-Fiorin-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-Luiz-Fiorin-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-Luiz-Fiorin-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-Luiz-Fiorin-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-Luiz-Fiorin-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-Luiz-Fiorin-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Jose-Luiz-Fiorin.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Fiorin, linguista, pesquisador\u00a0 em pragm\u00e1tica e semi\u00f3tica<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sabe aquele estere\u00f3tipo sobre os ingleses frios e com humor espec\u00edfico? Facilita,\u00a0Inclusive, na varia\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas norte-americano muito mais descontra\u00eddo. O mesmo\u00a0vale para o franc\u00eas da Fran\u00e7a e de correlatos como o do Canad\u00e1, do Haiti ou outros. O\u00a0espanhol \u00e9 mais uniforme, mas tamb\u00e9m abriga diverg\u00eancias reveladoras, principalmente na Am\u00e9rica Latina. Mesmo com certa cerim\u00f4nia, cabe admitir que alguns aspectos desenvolvidos a favor da compreens\u00e3o de idiomas, se deve ao sentido dos chamados palavr\u00f5es. E rende bastante saber das transforma\u00e7\u00f5es de seu uso maldito atrav\u00e9s dos tempos. Sim, os palavr\u00f5es mudaram de sentido na medida em que os grandes cen\u00e1rios hist\u00f3ricos tamb\u00e9m variaram.<\/p>\n<p>Vista em grandes blocos, a trajet\u00f3ria dos mecanismos expressivos obedece \u00e0s\u00a0vulnerabilidades de espa\u00e7o e tempo. Durante a Idade M\u00e9dia, por exemplo, a sensibilidade religiosa dominante determinava a proscri\u00e7\u00e3o de palavras relativas ao\u00a0dem\u00f4nio e ao inferno. No \u00e2mbito daquela matriz crist\u00e3, quando cita\u00e7\u00f5es aconteciam\u00a0fora de contextos estritos, eram consideradas pecaminosas.\u00a0A fala popular medieval implicou varia\u00e7\u00f5es curiosas, ainda que muitas persistam atenuadas at\u00e9 hoje, pelo costume da \u00e9poca, mandar algu\u00e9m \u201cpros quintos do inferno\u201d,\u00a0era falta tida como xingamento capaz de penit\u00eancia. O mesmo se diz de \u201cmandar para\u00a0as trevas\u201d ou para \u201caquelas partes\u201d. A fim de evitar riscos, aproxima\u00e7\u00f5es com animais\u00a0se popularizaram em termos de refer\u00eancia ao demo: besta, c\u00e3o, chifrudo, drag\u00e3o do mal. Pela oralidade, algumas dessas nomina\u00e7\u00f5es permanecem at\u00e9 hoje longe, contudo, de ter tanto peso. A este respeito, cabe citar Steven Pinker, autor que determina cinco maneiras diferentes de usar os palavr\u00f5es: descritivamente \u201cvamos\u00a0foder\u201d, idiomaticamente \u201cest\u00e1 foda\u201d, abusivamente \u201cfoda-se\u201d ou catarticamente\u00a0\u201cfodeu\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19995 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Censura-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Censura-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Censura-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Censura-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Censura-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Censura-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/Censura.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do s\u00e9culo XVIII, tratou de esvaziar a determina\u00e7\u00e3o religiosa, e isso permitiu mudar a din\u00e2mica das ofensas. Ainda que perviva mem\u00f3ria das velhas formas de pragas, uma pequena revolu\u00e7\u00e3o do palavreado aconteceu trocando\u00a0\u00eanfases. Quest\u00f5es ligadas ao progresso das doen\u00e7as e ao desenvolvimento de h\u00e1bitos de higiene deram lugar a um palavreado muito mais escatol\u00f3gico, ligado aos cuidados com o corpo. Assim, os palavr\u00f5es foram se constituindo em refer\u00eancia a excrementos, detalhes do corpo, refer\u00eancias repugnantes ou tidas como obscenas que, contudo, foram se ajeitando de maneira a adequar a cada situa\u00e7\u00e3o. A palavra \u201cmerda\u201d, por exemplo, tem sentido muito mais leve nas tradi\u00e7\u00f5es anglo-sax\u00f4nicas do que nas sequ\u00eancias ib\u00e9ricas. J\u00e1 \u201ctomar no cu\u201d entre n\u00f3s \u00e9 refer\u00eancia muito mais grave do que para adeptos da l\u00edngua inglesa.<\/p>\n<p>No fim do s\u00e9culo XIX, dado o impacto da \u00e9tica proposta pela Rainha Vit\u00f3ria da\u00a0Inglaterra, ofensas familiares lograram destaque como forma de ataque. Em fun\u00e7\u00e3o da\u00a0requalifica\u00e7\u00e3o familiar, a figura da mulher, em particular da m\u00e3e, ganhou lideran\u00e7a em\u00a0formas ofensivas. Dizer que algu\u00e9m \u00e9 \u201cfilho da puta\u201d, ou mesmo mandar algu\u00e9m \u201c\u00e0\u00a0puta que o pariu\u201d logrou foros de limite. Junto a esse novo c\u00f3digo de conduta, deu-se\u00a0tamb\u00e9m a sexualiza\u00e7\u00e3o dos palavr\u00f5es. Termos como \u201ccorno\u201d ou mesmo refer\u00eancias\u00a0ao \u00f3rg\u00e3o sexual masculino como \u201ccaralho\u201d atestam o machismo lingu\u00edstico agora posto\u00a0\u00e0 prova.<\/p>\n<p>Reflex\u00f5es sobre os palavr\u00f5es, ainda que r\u00e1pidos, permitem que pensemos nos valores de nosso tempo e ent\u00e3o fica a pergunta final: como ser\u00e1 que trataremos os palavr\u00f5es debaixo da cultura do politicamente correto? Ser\u00e1 que os palavr\u00f5es sobreviver\u00e3o?<\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que a l\u00edngua \u00e9 viva todos sabem: esperta, oportunista, ela vai se mexendo em\u00a0muta\u00e7\u00f5es, algumas intrincadas, outras misteriosas. 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