{"id":19965,"date":"2022-09-18T08:39:08","date_gmt":"2022-09-18T11:39:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19965"},"modified":"2022-09-18T08:39:08","modified_gmt":"2022-09-18T11:39:08","slug":"mania-de-ficar-sozinho-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/mania-de-ficar-sozinho-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"MANIA DE FICAR SOZINHO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Dois pressupostos extremos chamam aten\u00e7\u00e3o quando considero o isolamento como tema existencial. Em uma ponta, como trilha sonora de suposto abandono amoroso, ou\u00e7o Elis Regina sussurrando \u201ceu preciso aprender a ser s\u00f3\u201d. No extremo oposto a recomenda\u00e7\u00e3o de Foucault ao revisitar cl\u00e1ssicos gregos recomendando o \u201ccuidado de si\u201d. Entre um polo e outro, consulto minha alma sempre atenta a ficar s\u00f3. \u00c9 legitimo qualificar os termos: uma coisa \u00e9 solid\u00e3o, outra solitude; uma equivale a perder-se na multid\u00e3o e se anular; outra \u00e9 qualificar-se como parte do todo, apresentando-se com o pr\u00f3prio eu refinado. Como p\u00eandulos de um rel\u00f3gio imagin\u00e1rio, o tr\u00e2nsito entre um momento e outro pontua entendimentos que v\u00e3o do negativo ao agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Confesso que tenho dificuldades para explicar minha compuls\u00e3o ao retiro. Adoro. Por vezes, tenho que me desdobrar em explica\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem o menor sentido \u00e0queles que aristotelicamente repetem que o \u201co homem \u00e9 um animal social\u201d. A precis\u00e3o do conceito de solitude, como corol\u00e1rio da paz interior, refor\u00e7a isso, pois se sentir bem sozinho dinamiza a sabedoria do viver em sociedade. S\u00f3 sabe sentir-se sozinho aquele que filtra adequadamente a partilha social. \u00c9 pela certeza que podemos contar com o grupo \u2013 parentes, amigos, vizinhos e at\u00e9 profissionais \u2013 que o retiro logra sentido. Dia desses, lendo um artigo do jurista Jos\u00e9 Magno Siqueira, estremeci ante a prem\u00eancia do ordenamento jur\u00eddico afirmando que \u00e9 exatamente pela inescap\u00e1vel condi\u00e7\u00e3o do conv\u00edvio social que se justificam as leis. Entendi, mas achei triste. Triste porque percebo que o repartir experi\u00eancias, o estar junto, n\u00e3o \u00e9 natural, ainda que conveniente. Bem-aventurados aqueles que acatam o pertencimento como escolha.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19966 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Solitude-X-solidao.jpg\" alt=\"\" width=\"296\" height=\"170\" \/><\/p>\n<p>Das insond\u00e1veis mis\u00e9rias de minha exist\u00eancia, destaco algumas \u201cmanias\u201d ex\u00f3ticas a tantos: viajar sozinho \u00e9 uma delas. Sabe, o ato de sair implica deslocamento f\u00edsico e pessoal e em conjunto isso \u00e9 um desafio ao mesmismo. sinceramente sinto-me muito mais \u00e0 vontade estando solit\u00e1rio, processando compreens\u00f5es derivadas de novidades, cen\u00e1rios e fatos diversos. Ir ao cinema sozinho, teatro, musicais ou \u00f3peras, \u00e9 me permitir frenesis insond\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que aprecio di\u00e1logos, observa\u00e7\u00f5es dimensionadoras de \u00e2ngulos plurais, mas antes eu preciso destilar meus entendimentos, e isso \u00e9 um processo pessoal exigente de m\u00e9todo que v\u00e3o al\u00e9m de achismos imediatos. O mesmo, diga-se, de visitas a museus. Perdoem-me: me \u00e9 insuport\u00e1vel ir acompanhado a exposi\u00e7\u00f5es de arte, \u00e0 arquivos e at\u00e9 \u00e0 loja de antiguidades. Pode parecer exagero, mas ir a restaurante e dividir o prato escolhido me \u00e9 outro tormento. Ali\u00e1s, acho isto ruim porque sequer permite duvidar da nossa pr\u00f3pria op\u00e7\u00e3o. E quando temos que beber o vinho que o acompanhante escolhe?&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0s vezes me pergunto se n\u00e3o h\u00e1 um res\u00edduo de ego\u00edsmo em tudo isso, mas me conformo imaginando satisfa\u00e7\u00f5es na combina\u00e7\u00e3o de sabores de sorvetes que traduzem escolhas \u00edntimas. Afora os quase 25 anos em que fui bem-casado, principalmente depois que a viuvez determinou minha vida celibat\u00e1ria, sempre tive dificuldades de dormir com algu\u00e9m, at\u00e9 mesmo em camas separadas no mesmo quarto; acontece, mas n\u00e3o sem alguma concess\u00e3o. Por certo, este conjunto de decis\u00f5es causam perplexidade a tantos que n\u00e3o conseguem imaginar c\u00e9us no conv\u00edvio gozado consigo. Eu vejo anjos, ou\u00e7o sinos, flano, e por vezes me acerto com dem\u00f4nios e an\u00e1logos afins. Chor\u00e3o que sou, me detesto quando n\u00e3o resisto e me exponho ao p\u00fablico. Sempre que toco no tema solitude, me vejo autorizado a complementar ideias revelando que n\u00e3o consigo ouvir m\u00fasica cantada sem prestar aten\u00e7\u00e3o nas letras. Acho que as mensagens contidas em versos oralizados indicam caminhos e ajudam esclarecer decis\u00f5es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19967 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Dolores-Duran-300x188.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"188\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Dolores-Duran-300x188.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Dolores-Duran-450x281.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Dolores-Duran.jpeg 720w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Dolores Duran: &#8220;Algu\u00e9m que ponha fim ao meu tormento&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Comecei falando de m\u00fasica e fecho este apanhado de elogio \u00e0 solitude apresentando um contraste fatal: Dolores Duran exibe a tortura do isolamento dizendo que \u201ca solid\u00e3o vai acabar comigo\/ Ai, eu j\u00e1 nem sei o que fa\u00e7o e o que digo\/ Vivendo na esperan\u00e7a de encontrar\/ Um dia um amor sem sofrimento\/ Vivendo para o sonho de esperar\/ Algu\u00e9m que ponha fim ao meu tormento\u201d e amarra a amargura ancorando em uma esperan\u00e7a desesperadora \u201cEu quero qualquer coisa verdadeira\/ Um amor, uma saudade\/ Uma l\u00e1grima, um amigo\/ Ai, a solid\u00e3o vai acabar comigo\u201d. Sabe, a tal solid\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o acaba comigo porque existe a solitude que me abriga, briga e obriga pensar nela como lugar ideal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois pressupostos extremos chamam aten\u00e7\u00e3o quando considero o isolamento como tema existencial. 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