{"id":19959,"date":"2022-09-11T09:20:24","date_gmt":"2022-09-11T12:20:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19959"},"modified":"2022-09-11T09:22:38","modified_gmt":"2022-09-11T12:22:38","slug":"suicidio-a-opera-como-pretexto-de-conversa-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/suicidio-a-opera-como-pretexto-de-conversa-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"SUIC\u00cdDIO: A \u00d3PERA COMO PRETEXTO DE CONVERSA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Romeu e Julieta, o cl\u00e1ssico liter\u00e1rio de Shakespeare, s\u00e9culos depois adaptado a uma \u00f3pera por Charles Gounod<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A vida anda t\u00e3o agitada, tudo muito corrido e sem sentido objetivo. Por certo, a exaustiva ressaca da pandemia se junta \u00e0 press\u00e3o eleitoral, e tudo progride de maneira a nos deixar fragmentados, exaustos. O ambiente que nos cerca compromete a solidariedade e nessa toada limita o cuidado com o pr\u00f3ximo e at\u00e9 conosco. O consumismo crescente nos impele a devora\u00e7\u00e3o de mercadorias, e assim vamos debilitando o alcance de empatias, a cada dia mais submissas ao mundo material e \u00e0 cultura do descart\u00e1vel. Como consequ\u00eancia da materializa\u00e7\u00e3o capitalista, nos reclusamos e no m\u00e1ximo exercitamos o conv\u00edvio com nossos pequenos c\u00edrculos, ali\u00e1s, a cada dia mais reduzidos. Esse formid\u00e1vel fen\u00f4meno, contudo, \u00e9 paradoxal, pois em tantas ocasi\u00f5es \u00e9 exatamente no isolamento que os grandes dramas operam. E nos estarrecem.<\/p>\n<p>Em termos de mem\u00f3ria social, n\u00e3o deixa de ser estranho como selecionamos alguns temas em detrimento de outros avivados. A viol\u00eancia dom\u00e9stica, a valoriza\u00e7\u00e3o das mulheres, o combate ao racismo e \u00e0 pedofilia, s\u00e3o alguns prezados que ganham foros jur\u00eddicos merecidos: vivas. O reverso, por\u00e9m, corre por conta do silenciamento de outros tantos \u00e2ngulos importantes.<\/p>\n<p>Entre os assuntos apagados, sem d\u00favida, a quest\u00e3o do suic\u00eddio \u00e9 das mais expressivas. Atravessamos o m\u00eas de setembro que, no calend\u00e1rio atento \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, \u00e9 dedicado \u00e0 preven\u00e7\u00e3o do suic\u00eddio. O chamado \u201csetembro amarelo\u201d elenca apelos dirigidos a quantos se disp\u00f5em enfrentar o debate aberto a esse t\u00f3pico do\u00eddo. Todos somos capazes de identificar tentativas bem ou malsucedidas, pr\u00f3ximas ou long\u00ednquas, mas nos calamos na intimidade de casos que deveriam ser examinados com delicadeza e cr\u00edtica. Efeito maldito dessa elipse trai\u00e7oeira \u00e9 o assalto que nos acomete a cada vez que o problema se expressa sorrateiro e fatal. Passado o instante de choque, sem responder \u00e0s quest\u00f5es centrais, vamos em frente como se a dor fosse capitalizada por entornos culpados. Credo!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19960 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Santos-Dumont.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"170\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Santos Dumont p\u00f4s fim \u00e0 pr\u00f3pria vida<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Dia desses fui surpreendido com uma pergunta angustiante: com quem voc\u00ea conversa sobre mortes autoprovocadas? Pensei&#8230; Pensei e depois de algum tempo conclui que apesar de considerar um assunto fundamental, imprescind\u00edvel mesmo, apenas o reconhe\u00e7o quando instigado por algum caso imediato ou publicamente tr\u00e1gico. Isto, confesso, me perturbou muito, pois acompanhei, como professor de jovens, in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es que, contudo, s\u00e3o enterradas com os corpos que atingem finalidades. E por que ser\u00e1? Quais os m\u00f3veis que constrangem o tema? Inc\u00f4modos? Medos? Como falar sobre o assunto? Existem estrat\u00e9gias discursivas capazes de facilitar di\u00e1logos?<\/p>\n<p>Aventar essas quest\u00f5es me fez recobrar a sombra promovida pelas artes. Romances, poemas, telas famosas est\u00e3o a\u00ed, sugerindo arremetidas. Penso sobretudo em algumas \u00f3peras famosas que podem ser usadas como pretextos. Devo dizer que antes me detive em alguns suic\u00eddios de escritores e cientistas conhecidos como Hemingway, Alan Turing, Florbela Espanca, Virginia Woolf, esses, sem contar com casos pr\u00f3ximos como Pedro Nava, Ana Cristina C\u00e9sar, Santos Dumond, Walmor Chagas. Tais men\u00e7\u00f5es me levaram supor o uso da arte, em particular das \u00f3peras como pretexto para iniciar conversas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19962\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Hemingway-300x193.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"193\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Hemingway-300x193.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Hemingway-450x289.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Hemingway-768x494.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/Hemingway.webp 995w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Apesar do sucesso, Hemingway n\u00e3o suportou a depress\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi assim que retomei possibilidades que permitem abrir di\u00e1logos atentos a porqu\u00eas individuais e coletivos. E nada melhor do que come\u00e7ar por Romeu e Julieta de Shakespeare vertido para \u00f3pera por Gounod. E tantas outras sucederam.\u00a0Vejamos alguns casos: La Gioconda (Ponchielli), Abigaille e Otello (Verdi), Lakm\u00e9 (Delibes), Hermann (Tchaikovski), Fedora (Giordano) Cio-Cio San e Liu (Puccini) e, Werther (Massenet), este, diga-se, o mais consequente caso que, ali\u00e1s, chegou a servir de alerta a tantos jovens que imitaram o personagem desgra\u00e7ado que teria servido de modelo para a onda de mo\u00e7os que buscaram o pr\u00f3prio fim como sa\u00edda.<\/p>\n<p>Sabe-se da dificuldade de come\u00e7ar a conversa, em particular em c\u00edrculos em que a depress\u00e3o se faz presente, mas \u00e9 exatamente nesses meios que a quest\u00e3o precisa ganhar posto. \u00c9 evidente que as escolas, igrejas, clubes poderiam tamb\u00e9m facilitar discuss\u00f5es, mas a tomada do tema em c\u00edrculos \u00edntimos, por certo, resulta melhor efeito. Sugeri \u00f3peras como estrat\u00e9gias, pois h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o dupla no caso: esse g\u00eanero \u00e9 pouco cultuado entre n\u00e3o iniciados, permitindo conhecimentos. Valho-me exatamente da estranheza desse g\u00eanero para propor uma abordagem que a um tempo sirva de motivo e reforce a busca da arte como forma de celebrar a vida que, afinal, \u00e9 uma arte a ser preservada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romeu e Julieta, o cl\u00e1ssico liter\u00e1rio de Shakespeare, s\u00e9culos depois adaptado a uma \u00f3pera por Charles Gounod A vida anda t\u00e3o agitada, tudo muito corrido &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19961,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19959","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19959","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19959"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19959\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19963,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19959\/revisions\/19963"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}