{"id":19933,"date":"2022-08-21T10:02:20","date_gmt":"2022-08-21T13:02:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19933"},"modified":"2022-08-21T10:02:20","modified_gmt":"2022-08-21T13:02:20","slug":"morte-e-vida-do-jeca-tatu-lobato-cornelio-pires-e-cesidio-ambrogi-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/morte-e-vida-do-jeca-tatu-lobato-cornelio-pires-e-cesidio-ambrogi-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"MORTE E VIDA DO JECA TATU: Lobato, Cornelio Pires e Ces\u00eddio Ambrogi (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para Pedro Rubim<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Como historiador, faz parte de meu of\u00edcio entender a produ\u00e7\u00e3o cultural em seus espa\u00e7os e tempos. Chama-se anacronismo a mania simplista de transpor um documento ou produto cultural de um tempo para outro. A veneta das \u201cpresentifica\u00e7\u00f5es\u201d tem produzido absurdos que, para os incautos, repete julgamentos levianos e interpreta\u00e7\u00f5es convenientes. Faz parte dessas distor\u00e7\u00f5es o apagamento do sentido de \u00e9poca ou esp\u00edrito do tempo. Um p\u00e1lido exemplo pode ser medido pela considera\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar de cana, antes tido como solu\u00e7\u00e3o alimentar, depois condenado como veneno. E isso se d\u00e1 em v\u00e1rios setores da vida como, por exemplo, o cancelamento de sambas que, com a inten\u00e7\u00e3o de saudar as mulatas \u2013 \u201co teu cabelo n\u00e3o nega\u201d, \u201cmulata bossa-nova\u201d, \u201cmulata assanhada\u201d \u2013 viraram libelos racistas. E na mesma toada se pro\u00edbe a pintura de Di Cavalcante e at\u00e9 mesmo as receitas da \u201ccocada preta\u201d est\u00e3o fadadas a mudar de nome.<\/p>\n<p>Foi pensando nessas \u201ccorre\u00e7\u00f5es\u201d provocadas por leituras distorcidas do \u201cpoliticamente correto\u201d que tenho filtrado o debate sobre o \u201chomem do campo\u201d. E perfilo discuss\u00f5es que promovam pensar a complexidade do assunto que, afinal, vai al\u00e9m do olhar classista, machista elitista ou mis\u00f3gino. Por l\u00f3gico, come\u00e7o por Monteiro Lobato que, retomando antigo debate, fragmentou o discurso estabelecendo o caipira como estrat\u00e9gia argumentativa sobre o todo nacional. E para falar do gent\u00edlico brasileiro, ele retra\u00e7ou um estere\u00f3tipo amaldi\u00e7oado sobre o \u201cnosso matuto\u201d. E poderia datar o in\u00edcio dessa pr\u00e1tica pela \u201cCarta dos Leitores\u201d do prestigioso jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, ocasi\u00e3o em que Lobato reclamava do homem do campo delegando responsabilidade pelo atraso nacional, em particular pela tradi\u00e7\u00e3o da queimada das\u00a0matas. A for\u00e7a do texto elevou o brado lobateano \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de artigo destacado com o t\u00edtulo \u201cUma velha praga\u201d, estampado no dia 12 de novembro de 1914. Em seguida, um m\u00eas depois, era revelado o texto \u201cUrup\u00eas\u201d que, al\u00e9m de consagrar o autor, inflava pol\u00eamicas intensificadas ao longo de anos seguidos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19937 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Mulatas-1-257x300.webp\" alt=\"\" width=\"257\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Mulatas-1-257x300.webp 257w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Mulatas-1-386x450.webp 386w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/Mulatas-1.webp 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 257px) 100vw, 257px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Mulatas de Di Cavalcante<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u201cA nossa montanha \u00e9 v\u00edtima de um parasita, um piolho-da-terra\u201d, escreveu prevendo cr\u00edtica \u00e0 derrubada de \u00e1rvores milenares. Pensando nessa passagem eloquente, contrapondo o prot\u00f3tipo do caipira doente e lerdo, perfilado por Lobato, levantava-se um outro saboroso tipo criado por Corn\u00e9lio Pires que, desde 1910, exaltava o caipira interiorano \u2013 processo este coroado por um livro de 1924 \u201cEstramb\u00f3licas Aventuras de Joaquim Bentinho, o queima campo\u201d. Ineg\u00e1vel o di\u00e1logo polarizado, t\u00e3o ineg\u00e1vel quanto o contraste entre os dois personagens. Ao caipira combalido de Lobato, Corn\u00e9lio Pires apontava outro, vibrante e esperto. A distanciar o pessimismo de um e a euforia de outro restava o tom da abordagem.<\/p>\n<p>Os dois escritores eram representantes da elite paulista, ambos se tornaram autores de sucesso \u2013 os mais lidos no tempo \u2013 mas separados pelo humor: Lobato melanc\u00f3lico, Corn\u00e9lio Pires hil\u00e1rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19934 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/cornelio_pires-300x200.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/cornelio_pires-300x200.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/cornelio_pires-450x300.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/08\/cornelio_pires.png 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O hil\u00e1rio Corn\u00e9lio Pires<\/strong><\/p>\n<p>Por l\u00f3gico n\u00e3o eram os dois os \u00fanicos a tocar no tema e em meio a esse paralelo, um novo autor, tamb\u00e9m interiorano, propunha uma vis\u00e3o intermedi\u00e1ria. Ces\u00eddio Ambrogi, amigo de Lobato, produziu uma combina\u00e7\u00e3o que pode ser medida no poema \u201cJeca, o fil\u00f3sofo\u201d onde pontifica de maneira conciliadora:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Ami\u00fadam galos. E, de manso, a terra<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Desperta. Ruflam asas. Sopra a aragem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>E o sol, que surge por de tr\u00e1s da serra,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Aloira toda a matinal paisagem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Um c\u00e3o ladra distante. Longe berra,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Transmalhada, uma cabra na pastagem;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>De uma cho\u00e7a a janela se descerra,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>A emodulrar do Jeca a triste imagem.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Deslumbrado, entusiasmado da natura,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Exclama ante a paisagem que fulgura.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>-\u201cSim sinh\u00f4. Ta fermoso de encanta!\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>E, em seguida, tomando a \u201ctroxada\u201d:<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>-\u201cCum dia ansim s\u00f3 mermo uma ca\u00e7ada\u2026<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Int\u00e9 \u00e9 pecado a gente trabai\u00e1!\u201d<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_13468\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13468\" class=\"size-medium wp-image-13468\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Cesidio-300x231.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"231\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Cesidio-300x231.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Cesidio-450x346.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/Cesidio.jpg 516w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-13468\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Mestre Ces\u00eddio Ambrogi<\/strong><\/em><\/p><\/div>\n<p>Interessa assinalar que este soneto foi publicado no livro \u201cAs moreninhas\u201d, em 1923, exatamente por Monteiro Lobato. No caso de Ces\u00eddio Ambrogi, a letargia do caipira de Lobato \u00e9 mantida, mas ao mesmo tempo, a sagacidade marota de Corn\u00e9lio Pires se faz presente, e mais, \u00e9 elevada \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de filosofia.<\/p>\n<p>Ocorreu nomear esta breve reflex\u00e3o Morte e vida do Jeca supondo o t\u00edtulo dado por Jo\u00e3o Cabral ao famoso poema \u201cMorte e vida Severina\u201d, pensado que abordagens sobre o homem do campo tamb\u00e9m merecem retomadas que impacientem simplifica\u00e7\u00f5es e que reestabele\u00e7am a instru\u00e7\u00e3o do debate que, afinal, \u00e9 de todos. Dar vida ao tema \u201ccaipira\u201d implica propor pensar o caipira hoje no mundo do agroneg\u00f3cio e dos movimentos como o MST. Ou o caipira n\u00e3o existe mais?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Pedro Rubim Como historiador, faz parte de meu of\u00edcio entender a produ\u00e7\u00e3o cultural em seus espa\u00e7os e tempos. 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