{"id":19885,"date":"2022-07-24T09:01:51","date_gmt":"2022-07-24T12:01:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19885"},"modified":"2022-07-24T09:01:51","modified_gmt":"2022-07-24T12:01:51","slug":"porque-somos-brasileiros-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/porque-somos-brasileiros-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PORQUE SOMOS BRASILEIROS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa, fundador da imprensa no Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 t\u00e3o natural sentirmo-nos brasileiros que nem ligamos para a origem da palavra: somos e pronto. Por ser t\u00e3o pouco questionada, no entanto, a trajet\u00f3ria da palavra inquieta. De regra, reconhecemos que a L\u00edngua \u00e9 um processo vivo, muda com sutileza, se altera, adapta-se e assim vai atravessando os tempos se ressignificando de acordo com as oportunidades. H\u00e1 casos curiosos em que a invers\u00e3o da proposta inicial se transforma a ponto de sugerir varia\u00e7\u00f5es que beiram contrassensos. A palavra \u201cpiscina\u201d era recipiente de peixes; \u201caqu\u00e1rio\u201d tanque de \u00e1gua para gado; \u201carm\u00e1rio\u201d local para armas. Uma das mais curiosas dessas palavras enviesadas \u00e9 \u201cbarbeiro\u201d, termo resultado de um tempo em que, al\u00e9m do trato da barba, a pr\u00e1tica autorizava a extra\u00e7\u00e3o de dentes e at\u00e9 fazer cirurgias. Isso, claro, deixava espa\u00e7o para equ\u00edvocos, condi\u00e7\u00e3o que fez \u201cbarbeiro\u201d equivaler a algu\u00e9m que n\u00e3o executa devidamente atividades propostas.<\/p>\n<p>Detalhes vari\u00e1veis a parte, interessa avaliar o termo que designa o gent\u00edlico de nascidos ou de quem assume a condi\u00e7\u00e3o de habitante de algum lugar \u2013 no caso do Brasil. A regra para top\u00f4nimos gent\u00edlicos \u00e9 clara: a soma da raiz com sufixo caracterizador de atividade profissional ou refer\u00eancia a um l\u00f3cus, algo do tipo: quem faz p\u00e3o \u00e9 padeiro; quem costura \u00e9 costureiro; quem faz doce \u00e9 doceiro. Tecnicamente falando, essa norma procede do que se chama \u201cmorfologia derivacional\u201d que, no caso do gent\u00edlico brasileiro, mostra-se raro, quase exce\u00e7\u00e3o que, ali\u00e1s, inclui tamb\u00e9m \u201cmineiro\u201d por expressar a atividade nas minas. Brasileiro, segundo a mesma l\u00f3gica, seria a pessoa que lidava com o pau brasil, explora\u00e7\u00e3o que de t\u00e3o importante\u00a0motivou o nome do pa\u00eds. Afora poucas exce\u00e7\u00f5es, no comum das vezes, a gera\u00e7\u00e3o de gent\u00edlicos se expressa pela raiz indicativa de sufixos como: ense, ano, ista, ino, eir\u00f3, eno, ito, enho, e ado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19886 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Familia-real-no-Brasil-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Familia-real-no-Brasil-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Familia-real-no-Brasil-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Familia-real-no-Brasil-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Familia-real-no-Brasil-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Familia-real-no-Brasil-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Familia-real-no-Brasil.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Chegada da fam\u00edlia imperial ao Brasil 1808<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Frente a esse fen\u00f4meno lingu\u00edstico resta a busca de explica\u00e7\u00f5es complementares e assim reponta a Hist\u00f3ria como estrat\u00e9gia esclarecedora. Na medida em que a refer\u00eancia foi deixando sua raz\u00e3o de ser, dado o decl\u00ednio da atividade extrativista, o peso negativo implicado em ser \u201cbrasileiro\u201d foi perdendo a pecha ruim e progrediu gerando uma refer\u00eancia corriqueira, sem reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Houve sim uma retomada sutil e d\u00fabia dada pela vinda da Fam\u00edlia Real ao Brasil, em 1808. Por aqueles dias, os portugueses precisavam se distinguir dos \u201cnaturaes\u201d. Isso foi tencionado pelo processo de diferencia\u00e7\u00e3o que, afinal, resultou na Independ\u00eancia do Brasil, condi\u00e7\u00e3o em que as partes se extremaram, compondo o chamado \u201cpartido portugu\u00eas\u201d que se opunha ao \u201cpartido brasileiro\u201d.<\/p>\n<p>Em paralelo, uma discuss\u00e3o feita alhures, em Londres &#8211; onde Jos\u00e9 Hip\u00f3lito da Costa estava politicamente exilado no mesmo 1808 -, ao discutir o nome do nosso primeiro jornal impresso, estabeleceu-se um dilema pertinente ao gent\u00edlico a ser usado: Correio Brasiliano, Correio Brasilianista, ou Correio Brasiliense? Escolhido o terceiro, n\u00e3o deixa de ser instigante o fato do gent\u00edlico \u201cbrasiliense\u201d ser destacado fora do nosso espa\u00e7o territorial, exatamente para significar \u201cser do Brasil\u201d. \u00c9 verdade que antes, em 1627, o primeiro historiador brasileiro, Frei Vicente Salvador, referiu-se a Martin Afonso de Souza, como Ararib\u00f3ia, \u201cseu nome brasileiro\u201d, mas isso foi manifesta\u00e7\u00e3o isolada.<\/p>\n<div id=\"attachment_19887\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-19887\" class=\"size-medium wp-image-19887\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/d_pedro_i_e_leopolina_widelg_0-300x179.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"179\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/d_pedro_i_e_leopolina_widelg_0-300x179.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/d_pedro_i_e_leopolina_widelg_0-450x269.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/d_pedro_i_e_leopolina_widelg_0-768x459.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/d_pedro_i_e_leopolina_widelg_0.jpg 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-19887\" class=\"wp-caption-text\"><em><strong>\u00a0 \u00a0 \u00a0D Pedro I e a Imperatriz Leopoldina<\/strong><\/em><\/p><\/div>\n<p>A subst\u00e2ncia da textura pol\u00edtica deu-se mesmo no processo de Independ\u00eancia que exigia posicionamentos claros, assumidos e consequentes. No jugo de defini\u00e7\u00f5es de quem \u00e9 quem, ent\u00e3o, uma esp\u00e9cie de sentimento nativista, cultivado com des\u00edgnios pol\u00edticos, inflamava o lado colonial que se opunha radicalmente aos mandos lusitanos. Entre portugueses e brasileiros, fermentavam lances agressivos com crescente pot\u00eancia e, nessa trama, Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Andrada e Silva se distinguia, for\u00e7ando a diferencia\u00e7\u00e3o expressa em programas pol\u00edticos.<\/p>\n<p>As disputas em torno da soberania nacional demandavam qualifica\u00e7\u00e3o das partes. O termo \u201cmonarquia\u201d n\u00e3o mais dava conta do inc\u00f4modo causado pela conquista do lugar do Brasil como parte do Reino Unido de Portugal e Algarves (1815). Coroando a longa luta pela autonomia, depois da Proclamada a Independ\u00eancia, o passo definitivo para significar \u201cbrasileiro\u201d foi estabelecido no texto de nossa Primeira Constitui\u00e7\u00e3o, outorgada por Dom Pedro I. A imponente carta se abria dizendo no artigo 1\u00ba que o \u201cBrazil \u00e9 a associa\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica de todos os Cidad\u00e3os Brazileiros\u201d. E avan\u00e7ava no artigo 6 qualificando \u201cS\u00e3o Cidad\u00e3os Brazileiros:<\/p>\n<ul>\n<li>Os que no Brazil tiverem nascido, quer sejam ing\u00eanuos, ou libertos, ainda que o pai seja estrangeiro, uma vez que este n\u00e3o resida por servi\u00e7o de sua Na\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>II- Os filhos de pai Brazileiro, e os illegitimos de m\u00e3i Brazileira, nascidos em paiz estrangeiro, que vierem estabelecer domicilio no Imperio. III- Os filhos de pai Brazileiro, que estivesse em paiz estrangeiro em servi\u00e7o do Imperio, embora elles n\u00e3o venham estabelecer domicilio no Brazil.<\/li>\n<li>Todos os nascidos em Portugal, e suas Possess\u00f5es, que sendo j\u00e1 residentes o<\/li>\n<li>Brazil na \u00e9poca, em que se proclamou a Independencia nas Provincias, onde habitavam, adheriram \u00e1 esta expressa, ou tacitamente pela continua\u00e7\u00e3o da sua residencia.<\/li>\n<li>Os estrangeiros naturalisados, qualquer que seja a sua Religi\u00e3o\u201d.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Ser \u201cbrasileiro\u201d hoje, al\u00e9m da palavra como gent\u00edlico, implica acatar transforma\u00e7\u00f5es sugestivas: como conseguimos transformar uma refer\u00eancia negativa, colonizadora, em algo que nos distingue orgulhosamente. N\u00e3o \u00e9 pequena a fa\u00e7anha que se esconde neste exerc\u00edcio hist\u00f3rico que pode nos servir de met\u00e1fora capaz de dinamizar nossa verdadeira Independ\u00eancia e autonomia. Ressignificar nossa brasilidade neste momento indica luta pela manuten\u00e7\u00e3o da democracia constitucional e rep\u00fadio a quem nega a for\u00e7a contida nessa conquista \u00e9pica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hip\u00f3lito Jos\u00e9 da Costa, fundador da imprensa no Brasil \u00c9 t\u00e3o natural sentirmo-nos brasileiros que nem ligamos para a origem da palavra: somos e pronto. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19888,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19885","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19885"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19885\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19889,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19885\/revisions\/19889"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19888"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19885"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19885"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19885"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}