{"id":19879,"date":"2022-07-17T09:51:54","date_gmt":"2022-07-17T12:51:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19879"},"modified":"2022-07-17T09:51:54","modified_gmt":"2022-07-17T12:51:54","slug":"vamos-falar-seriamente-sobre-cotas-raciais-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/vamos-falar-seriamente-sobre-cotas-raciais-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"Vamos falar seriamente sobre cotas raciais?! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>D\u00f3i dizer, mas somos racistas. Muito tem-se falado sobre o tal racismo estrutural, mas poucos se det\u00e9m no fundamento hist\u00f3rico que lastreia esse fen\u00f4meno perturbador. Seguramente, o sentido defensivo plasmado em nossa cultura \u2013 que se autoproclama racialmente democr\u00e1tica impede perceber a naturaliza\u00e7\u00e3o dessa mostra aparentemente condenada por todos, inclusive por n\u00f3s que n\u00e3o nos admitimos veiculadores de manifesta\u00e7\u00f5es discriminat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Como se racistas fossem sempre os \u201coutros\u201d, vamos atravessando o tempo num sutil sil\u00eancio que, por opressivo que \u00e9, n\u00e3o mais est\u00e1 mais se contendo. E o grito inflamado, como n\u00e3o poderia deixar de ser, vem dos atingidos.<\/p>\n<p>A flecha que alveja o corpo social brasileiro fere um pressuposto cruel: o efeito da miscigena\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica. Falando de n\u00fameros, conv\u00e9m lembrar que pelo IBGE (1918) 56% da nossa popula\u00e7\u00e3o se autodefine negra. E s\u00e3o eras hist\u00f3ricas de sil\u00eancio c\u00f4modo que projeta o Brasil como espa\u00e7o incruento, como se nossa hist\u00f3ria fosse um processo dado sem viol\u00eancia, sem rupturas dram\u00e1ticas. A resposta \u00e0 essa conveni\u00eancia se insinua na atitude implicada no pacto da concilia\u00e7\u00e3o aliancista que, afinal, frente a qualquer impasse arriscado, atina alternativas supostamente virtuosas que arredondam arestas. Um olhar apurado sobre nossa trajet\u00f3ria confirma a tal \u201cmistura de ra\u00e7as\u201d, mas ao enunci\u00e1-la, caia uma hist\u00f3ria arranhada por anula\u00e7\u00f5es de direitos. \u00c9 chegada a hora de reconhecer a brutalidade das rela\u00e7\u00f5es de poder que s\u00e3o apagadas por uma escrita feita pela elite letrada, branca, e em grande parte masculina. O primeiro passo a ser dado na corrida da corre\u00e7\u00e3o desse desvio civilizacional imp\u00f5e admitir que nem tudo \u00e9 o que tem sido dito, repetido e consagrado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19880 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-2-300x132.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"132\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-2-300x132.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-2-450x197.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-2-768x337.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-2.jpeg 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode falar de sil\u00eancio hist\u00f3rico-cultural sem apontar erros e responsabilidades. E reconhec\u00ea-los exige repara\u00e7\u00e3o. Mais que aceitar presun\u00e7\u00f5es interpretativas \u00e9 imperioso ajuizar retomadas de rotas e se abrir para desagravos. Posto isto, parte-se da premissa que estabelece a quest\u00e3o racial como dilema de todos. \u00c9 redutor pensar nos atingidos como se a quest\u00e3o fosse exclusivamente deles, algo como culpa derivada de \u201cum defeito de cor\u201d, como diz Ana Maria Gon\u00e7alves. Superando o limite que delega a responsabilidade ao atingido, tem-se claro que a quest\u00e3o s\u00f3 ser\u00e1 devidamente abordada se for assumida pela sociedade como um todo.<\/p>\n<p>Seria ing\u00eanuo roteirizar a problem\u00e1tica pelo escrete dos herdeiros de estrat\u00e9gias\u00a0colonizadoras. A dor hist\u00f3rica \u00e9 padecida por eles, e assim, mesmo vendo limites nos\u00a0propalados \u201clugares de fala\u201d, \u00e9 fundamental respeitar seus gritos. \u00c9 em favor da sutil quebra da polariza\u00e7\u00e3o de \u201clugares\u201d que se valoriza a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica para todos; para todos e em todos os n\u00edveis. S\u00f3 com o denominador comum dado pela Escola, e com muita pesquisa em di\u00e1logo, poderemos trocar o \u201clugar de fala\u201d pelo \u201cdireito de fala\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19881 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-3-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-3-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-3-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-3-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-3-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Cota-racial-3.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>O progresso da educa\u00e7\u00e3o antirracista desdobra outro debate igualmente fundamental e arriscado: as pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o. S\u00e3o conhecidas algumas teses que defendem inclusive o ressarcimento na forma de pena pecuni\u00e1ria, ou seja, com uma esp\u00e9cie de multa em esp\u00e9cie, mas afora tais extremos, h\u00e1 sa\u00eddas plaus\u00edveis como as cotas ou pol\u00edticas afirmativas. Supondo que o \u201cproblema\u201d \u00e9 social, do conjunto da popula\u00e7\u00e3o, resta constatar que os filtros de acesso devem levar em conta os desn\u00edveis cr\u00f4nicos dos participantes que concorrem impulsos diferentes.<\/p>\n<p>Qualquer olhar r\u00e1pido constata as diferen\u00e7as num\u00e9ricas nos postos de comando e isso revela o resultado de uma educa\u00e7\u00e3o seletiva. \u00c9 f\u00e1cil notar que a subalternidade empurra para as franjas aqueles que historicamente tiveram oportunidades negadas. Noves fora, pois, a meritocracia que nivela a partir de igualdades inexistentes. Cotas \u00e9 uma sa\u00edda poss\u00edvel e isso n\u00e3o favorece apenas os negros. A coletividade sai ganhando com a inscri\u00e7\u00e3o progressiva de setores marginalizados nos quadros sociais. Democracia \u00e9 o conv\u00edvio com o diferente e para tanto tem-se que admitir os \u201cdesiguais\u201d.<\/p>\n<p>Se hoje as vozes antes dissonantes se imp\u00f5em, muito se deve aos resultados ineg\u00e1veis das pr\u00e1ticas existentes em algumas institui\u00e7\u00f5es educacionais desde 2001 e implementadas a partir de 2012. Uma das consequ\u00eancias mais surpreendentes desse processo \u00e9 a r\u00e1pida equipara\u00e7\u00e3o de n\u00edveis entre cotistas e n\u00e3o cotistas que, em casos constatados, superam os ingressados sem reserva de vagas. Agora vivemos um processo complementar: cotas de trabalho e de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Imagino que o Brasil ser\u00e1 diferente quando nos abrirmos para a ventila\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os abafados pelo mesmismo cr\u00f4nico. Que fique claro que cota n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio, \u00e9 direito; direito que se reverte em benef\u00edcio de todos e que se inicia na admiss\u00e3o que somos sim racistas, mas podemos nos redimir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00f3i dizer, mas somos racistas. Muito tem-se falado sobre o tal racismo estrutural, mas poucos se det\u00e9m no fundamento hist\u00f3rico que lastreia esse fen\u00f4meno perturbador. &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19882,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19879","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19879"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19883,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19879\/revisions\/19883"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}