{"id":19869,"date":"2022-07-10T11:26:43","date_gmt":"2022-07-10T14:26:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19869"},"modified":"2022-07-10T11:26:43","modified_gmt":"2022-07-10T14:26:43","slug":"o-pastel-do-mercadao-licoes-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-pastel-do-mercadao-licoes-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O pastel do Mercad\u00e3o: Li\u00e7\u00f5es! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Por acaso \u2013 se \u00e9 que acaso existe \u2013 de quando em vez, volta-me \u00e0s m\u00e3os uma fotografia do antigo Largo do Mercado. Por mais que tenha intimidade com a imagem em preto e branco, \u00e0 cada olhar emo\u00e7\u00f5es nost\u00e1lgicas se remo\u00e7am e me transportam. Fortes emo\u00e7\u00f5es, ali\u00e1s, daquelas que exigem tempero afetivo e toler\u00e2ncia para suportar altera\u00e7\u00f5es. Peda\u00e7o lindo era esse, cromo de uma vida crescida no cen\u00e1rio hoje t\u00e3o enfeiado pela gana traidora do passado. E n\u00e3o haveria de ser de outro jeito posto que os contornos antigos agonizam num presente despersonalizado, rascunho mal resolvido na ilus\u00e3o de progresso frustrado.<\/p>\n<p>Vendo a mesma foto &#8211; creio ser dos anos 1950 &#8211; sou tomado pela inoc\u00eancia que brincava no menino despreocupado com o devir. Coleciono lembran\u00e7as pontuais que, contudo, se emendadas formulam uma hist\u00f3ria perfumada. Entre tantos com\u00e9rcios, l\u00e1 estava o de meu pai que se abria para um largo encantador, bem em frente \u00e0 entrada principal do Mercado Municipal. Era aquele o meu para\u00edso, composto por lojas de brinquedos, chapelaria, ponto de carros e \u00f4nibus, vidra\u00e7aria&#8230;<\/p>\n<p>O que n\u00e3o constava dos planos futuros era o resultado de uma pl\u00e1stica urbanista que se imp\u00f4s desfigurando o que existia. O resto do antigo obelisco, posto abaixo sem pudor algum, exp\u00f5e a marca do ilus\u00f3rio desenvolvimento prometido em nome da moderniza\u00e7\u00e3o. Entre o triste presente e a foto revela-se o desafio de entendimento do que ocorreu dentro e fora dos muros do Mercado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19870 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Praca-Campos-Salles-300x203.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"203\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Praca-Campos-Salles-300x203.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Praca-Campos-Salles-450x304.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Praca-Campos-Salles.jpg 522w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Foto antiga da Pra\u00e7a Campos Salles ou do Mercad\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 claro que me faz sentido os efeitos perversos dados pelos recortes seletivos da mem\u00f3ria. Sei sim que a lemban\u00e7a de um certo passado desloca para um irrexist\u00edvel \u201cpret\u00e9rito perfeito\u201d; mas n\u00e3o resisto. \u00c9 com certa cerim\u00f4nia, pois, que pela fotografia, me permito flanar. Cores e cheiros ambientam recorda\u00e7\u00f5es grudadas em minha evoca\u00e7\u00e3o. Aquele, diga-se, era um tempo muito mais obediente \u00e0s esta\u00e7\u00f5es do ano e tudo exuberava nos limites das \u00e9pocas do ano. Ent\u00e3o, frutos e frutas se rendiam \u00e0s temporadas: havia um tempo para as melancias, goiabas, pessegos, outro cheio de jabuticabas, amoras. A atravessar eras, t\u00ednhamos os docinhos caseiros &#8211; rapaduras, melados, canjiquinha. Sabe, ter morado no Largo do Mercado me disinguia dos demais meninos. Eu sabia detalhes gostosos da melhor caipiricidade.<\/p>\n<p>Dentro do velho pr\u00e9dio de 1915, diria que tudo corria nos conformes at\u00e9 que, num belo dia, surgiu uma \u201cPastelaria chinesa\u201d. Sabe, foi uma revolu\u00e7\u00e3o, sinal que amea\u00e7ava a l\u00f3gica tradicional e apontava para a descontinuidade do contexto externo. Eis que, n\u00e3o mais que de repente, um produto ex\u00f3tico se impunha na rotina do Mercad\u00e3o: o pastel. Por certo, havia outros estabelecimentos similares &#8211; creio que a pra\u00e7a principal ostentou a pioneira de Taubat\u00e9 &#8211; mas aquela no Mercado era impertinente e se afigurava como poss\u00edvel dilema no andamento geral. At\u00e9 pode parecer natural hoje, mas naqueles dias o impacto da pastelaria foi enorme: como combinar o antigo com o que se mostrava estranho. Como?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19871 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Pastelaria-Noguti-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Pastelaria-Noguti-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Pastelaria-Noguti-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Pastelaria-Noguti-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Pastelaria-Noguti.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Uma das pastelarias mais concorridas do Mercad\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sem misturar o jeito acaipirado que nos distingue falar, a pastelaria no Mercado abrigou o sotaque achinesado. E n\u00e3o \u00e9 que conseguiu! O tempo foi passando, a pastelaria mudou de lugar, mudaram tamb\u00e9m os propriet\u00e1rios, mas l\u00e1 est\u00e1 a pastelaria at\u00e9 hoje. Com sucesso enorme, o pastel inverteu a estranheza e se naturalizou integrando-se.<\/p>\n<p>Mas, na contabilidade do tempo que correu e na parcela das mudan\u00e7as externas, me pergunto qual a rela\u00e7\u00e3o final entre as partes? Mudando a f\u00f3rmula da quest\u00e3o questiono sobre porque houve deterioriza\u00e7\u00e3o do entorno externo ao pr\u00e9dio do Mercado e a pastelaria sobreviveu? E ent\u00e3o a resposta se faz: a pastelaria, como camale\u00e3o importado, se adaptou, caiu no gosto dos fregueses, n\u00e3o contaminou o resto. A parte externa, pelo contr\u00e1rio, desfigurou o que existia e destruiu o que lhe serveria de paisagem.<\/p>\n<p>O que se aprende com a constata\u00e7\u00e3o desse processo? Muito, principalmente que o passado pode aceitar o que vem de fora, mas com crit\u00e9rio. Lindo lugar de mem\u00f3ria, o nosso Mercado deixou o ex\u00f3tico se avizinhar. Pena que fora as cicatrizes marquem o corpo maltratado da nossa Taubat\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por acaso \u2013 se \u00e9 que acaso existe \u2013 de quando em vez, volta-me \u00e0s m\u00e3os uma fotografia do antigo Largo do Mercado. Por mais &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19872,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19869","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19869"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19869\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19873,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19869\/revisions\/19873"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19872"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}