{"id":19852,"date":"2022-07-03T06:28:41","date_gmt":"2022-07-03T09:28:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19852"},"modified":"2022-07-03T06:42:38","modified_gmt":"2022-07-03T09:42:38","slug":"chita-o-pano-do-tempo-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/chita-o-pano-do-tempo-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"CHITA: O PANO DO TEMPO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Para Isa M\u00e1rcia<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sempre gostei de inverno. Sempre. \u00c9 claro que n\u00e3o aprecio sentir frio, mas tudo que vem como complemento me agrada. Ainda no outono, quando o c\u00e9u se avermelha no entardecer, come\u00e7o pensar no pinh\u00e3o, no milho, pamonhas. A trilha sonora \u2013 aquelas velhas musiquinhas conduzidas na base da saudosa sanfona \u2013 se faz na evoca\u00e7\u00e3o de quadrilhas, bandeirolas coloridas e fogueiras. Sou daqueles que dispensam bal\u00f5es e fogos barulhentos, mas o resto&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 um detalhe que me atrai bastante nas festas juninas: o tempo de encontros grupais, para festejos. Pretexto esperto para juntar amigos em torno de celebra\u00e7\u00f5es nost\u00e1lgicas. Este ano passei por uma destas situa\u00e7\u00f5es. Conto: amiga mais que querida, convidou achegados e permitiu uma colagem de velhos parceiros. Ah, como foi bom!&#8230; Gente afinada, reunida em torno de comida boa, bebida boa, com muita prosa muito boa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19862 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Sebe-e-Isa-1-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Sebe-e-Isa-1-225x300.jpg 225w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Sebe-e-Isa-1-338x450.jpg 338w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Sebe-e-Isa-1.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Isa M\u00e1rcia de chita e JC Sebe, festeiro acanhado de traje social<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A dona da festa, anfitri\u00e3 de m\u00e3o cheia, esperou-se e nos recebeu com um bel\u00edssimo vestido de chita. \u201cComprei no mercad\u00e3o\u201d, disse toda dengosa. E foi o bastante para despertar a mais fecunda saudade da loja de meu pai: tempo de vender chita e chit\u00e3o. Foi quando me dispus pensar a hist\u00f3ria desse tecido sem a qual seria imposs\u00edvel escrever nossas tradi\u00e7\u00f5es. Sim, a chita atravessou os tempos e se imp\u00f4s.<\/p>\n<p>Apesar de ter se popularizado na \u00c1frica, principalmente entre as mulheres negras que desenvolveram t\u00e9cnicas de \u201camarra\u00e7\u00e3o dos panos\u201d, a chita originariamente provinda da \u00cdndia e desde a Idade M\u00e9dia foi levada por viajantes europeus at\u00e9 que, depois do s\u00e9culo XVI, foi trazida para o Brasil. Os escravizados brasileiros, principalmente no s\u00e9culo XVIII, aderiram \u00e0s cores fortes e desenhos extravagantes, isso como forma de distin\u00e7\u00e3o dos senhores. Tradicionalmente, a chita ficou conhecida como tecido popular e at\u00e9 hoje mant\u00e9m essa caracter\u00edstica.<\/p>\n<p>A palavra chita vem do Hindu, de <em>chitz,<\/em> e se notabilizou por ser uma pr\u00e1tica de estamparia sobre morim (ou amorim) com de estampas largas, quase sempre com flores ou frutas. A chita na Fran\u00e7a, em torno do s\u00e9culo XVII, era usada como tecido para decorar albergues, tavernas e demais espa\u00e7os populares. De tal forma foi aceita que a elite se apropriou dessa pr\u00e1tica para produzir outro tipo de tecido floral n\u00e3o mais sobre morim e com cores muito mais suaves. Fios de seda serviram para rica tecelagem e a palavra <em>chitz<\/em> virou indicativo de fazenda fina e cara, como \u00e9 ate hoje.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19864 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Tecido-300x176.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"176\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Tecido-300x176.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Tecido-450x263.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Tecido-768x450.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Tecido.jpg 820w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>A chita nos remete \u00e0 \u00c1frica m\u00e3e<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Atualmente, China e Cor\u00e9ia s\u00e3o os maiores produtores de chita. Entre n\u00f3s, no entanto, na d\u00e9cada de 1930, houve grande crescimento da produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 desse per\u00edodo inaugural que a Fia\u00e7\u00e3o e Tecelagem S\u00e3o Jos\u00e9, em Minas, na cidade de Mariana, tornou-se polo de produ\u00e7\u00e3o. Nesse tempo, a produ\u00e7\u00e3o da chita nacional era feita em teares manuais e com cromagem na base de cera. N\u00e3o demorou para cair no gosto popular moderno, revelando uma mem\u00f3ria que remete \u00e0 \u00c1frica m\u00e3e.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1950, a chita brasileira era produzida principalmente pela F\u00e1brica de Tecidos Bangu que, contudo, de acordo com a mudan\u00e7a de padr\u00e3o nacional, passava a dar prefer\u00eancia para a produ\u00e7\u00e3o de tecidos mais finos, orientados pela nova moda francesa, afastando-se assim gradativamente da fabrica\u00e7\u00e3o mais modesta. Vendo-se incapaz de concorrer com o mercado internacional, houve uma dr\u00e1stica mudan\u00e7a na produ\u00e7\u00e3o de chita brasileira.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19865 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Todas-idade-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Todas-idade-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Todas-idade-1-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Todas-idade-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Todas-idade-1-1536x1025.jpg 1536w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/Todas-idade-1.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Atende todas as idades nas festas juninas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Muita gente tem curiosidade e quer saber como a chita\/chit\u00e3o se tornou t\u00e3o popular nas festas juninas. Arrisco algumas sugest\u00f5es. Em primeiro lugar, pelos escravos, ficou caracterizada como roupa de agricultores e com outros acess\u00f3rios como chap\u00e9u de palha, espiga de milho e uso imitativo de apetrechos caipiras passaram a ter valor simb\u00f3lico. O surgimento de uma classe m\u00e9dia saudosa do campo fez com que se \u201cfolclorizasse\u201d essa pr\u00e1tica que ganhou tamb\u00e9m dimens\u00f5es pedag\u00f3gicas em festa infantis.<\/p>\n<p>De toda forma, muito mais que falar de hist\u00f3ria, gostaria de saudar a chita que afetivamente nos permite lembrar de afetos que atravessam os tempos e nos juntam sugerindo o passado como presente de renova\u00e7\u00e3o de amizades celebradas com dan\u00e7as que dramatizam a hist\u00f3ria. A minha amiga vestida de chita avivou tantas lembran\u00e7as e me fez pensar se h\u00e1 um sentido maior contido nas flores enormes e nas cores vivas de sua roupa. Viva a chita, viva quem a usa para fazer festas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para Isa M\u00e1rcia Sempre gostei de inverno. Sempre. \u00c9 claro que n\u00e3o aprecio sentir frio, mas tudo que vem como complemento me agrada. Ainda no &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19866,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19852","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19852","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19852"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19852\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19867,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19852\/revisions\/19867"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19866"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19852"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19852"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19852"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}