{"id":19697,"date":"2022-04-10T09:00:13","date_gmt":"2022-04-10T12:00:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19697"},"modified":"2022-04-10T09:00:13","modified_gmt":"2022-04-10T12:00:13","slug":"agora-e-na-hora-de-nossa-morte-amem-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/agora-e-na-hora-de-nossa-morte-amem-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"AGORA E NA HORA DE NOSSA MORTE, AM\u00c9M&#8230;(JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 fui criticado por falar muito sobre a morte, como se n\u00e3o fosse tema oportuno, palat\u00e1vel ou apropriado. Na realidade, independente de ler ou escrever sobre o assunto, sou fascinado pelo tal \u201cadeus definitivo\u201d. Nem interessa supor a morte em desdobramentos prov\u00e1veis, tanto como fim categ\u00f3rico ou passagem para outra vida. De um ou de outro jeito, \u201cfechar os olhos para sempre\u201d implica acabamento, arremate, conclus\u00e3o de uma fase que, segundo Fernando Pessoa, marca um tempo que justifica o sentido da experi\u00eancia individual \u201c<em>se depois de eu morrer quiserem escrever a minha biografia, n\u00e3o h\u00e1 nada mais simples. Tenho s\u00f3 duas datas: a de minha nascen\u00e7a e a de minha morte. Entre uma e outra todos os dias s\u00e3o meus<\/em>\u201d. Simples assim.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19698 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Fernando-Pessoa-252x300.png\" alt=\"\" width=\"252\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Fernando-Pessoa-252x300.png 252w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Fernando-Pessoa.png 353w\" sizes=\"auto, (max-width: 252px) 100vw, 252px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Fernando Pessoa: &#8220;Tenho s\u00f3 duas datas&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Tanto para os que prezam ou n\u00e3o a morte como condi\u00e7\u00e3o terminal, a d\u00favida desafiadora recai sobre dois pontos principais: o momento conclusivo e os poss\u00edveis desdobramentos: p\u00f3\/cinzas ou reencarna\u00e7\u00e3o. Afinal, \u201co depois\u201d haver\u00e1? Gostando ou n\u00e3o de tocar no assunto, respondam se n\u00e3o preside algo de arrebatador nessa medita\u00e7\u00e3o? Voltaremos? Quando? Como? Mesmo rezando pouco &#8211; simples \u201ccat\u00f3lico cultural\u201d que sou &#8211; me vejo comovido a cada vez que recito o final da Ave Maria: <em>agora e na hora de nossa morte, am\u00e9m<\/em>. N\u00e3o \u00e9 lindo?&#8230; Sabe, em comunidade, quando este trecho se anuncia, resvalo o olhar para as pessoas ao lado e sempre fico impressionado com a passividade rotineira que sequer permite nuan\u00e7ar a gravidade das palavras:<em> agora e na hora de nossa morte, am\u00e9m..<\/em>. Reencarnando ou n\u00e3o, com virtudes ou defeitos, morremos para esta vida. E isto \u00e9 solene.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, houve um tempo em que a morte s\u00fabita me parecia o ideal. Ent\u00e3o, meio encantado, admirava narrativas sobre pessoas que, assim do nada, \u201capagavam\u201d. E coleciono casos de tipos que foram tirar uma soneca depois do almo\u00e7o, ou na naturalidade da noite, e&#8230; Ou daquelas que assistindo um programa da TV, ouvindo um r\u00e1dio, talvez uma rom\u00e2ntica can\u00e7\u00e3o, e&#8230; H\u00e1 not\u00edcias de fervorosos torcedores que morrem na euforia de um gol, ou pelo contr\u00e1rio, motivados pelo pesar de fracasso de seu time.<\/p>\n<p>Uma vez contaram de uma senhora que morreu na cadeira de dentista, confesso que achei prosaico demais. Tem os col\u00e9ricos que, enfurecidos, morrem num acesso. Idem entusiastas do sexo; idem trabalhadores compulsivos; idem pol\u00edticos ardentes&#8230; Ah, e conv\u00e9m falar dos que perdem a vida em acidentes terr\u00edveis e nos deixam perplexos e cativos de despedidas convenientes&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19705 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Raul-Seixas-300x141.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"141\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Raul-Seixas-300x141.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Raul-Seixas-450x212.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Raul-Seixas-768x361.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Raul-Seixas.jpg 850w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Fico enternecido com a narrativa de uma av\u00f3 que prevendo um n\u00e3o amanh\u00e3 separou a roupa, preparou tudo e depois do banho, vestiu-se e morreu arrumadinha, penteada, perfumada at\u00e9. Sim, h\u00e1 algo de beleza m\u00f3rbida nisso, mas \u00e9 ineg\u00e1vel a voca\u00e7\u00e3o de grande parte das pessoas para \u201cmorrer sem sentir\u201d. Os argumentos, ali\u00e1s, s\u00e3o irretoc\u00e1veis: n\u00e3o quero sofrer dores, nem dar trabalho a outrem. Cristalino, n\u00e9?!&#8230; E eu, juro, pensava assim, desse jeitinho. Arrazoava isso, mas de tanto idealizar acabei por expandir meus argumentos, e mudei. Mesmo aqueles que prezam outras exist\u00eancias t\u00eam que admitir a vida encarnada como etapa inevit\u00e1vel, com come\u00e7o, meio e fim. Sendo isso verdade, a experi\u00eancia vivencial faz parte da morte e essa consci\u00eancia deve ser considerada em sua integridade.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 verdade que acabei por construir um falso silogismo filos\u00f3fico, algo do tipo: se a morte faz parte da vida, a vida compreende a morte, ent\u00e3o a morte cont\u00e9m a vida. E eu resolvi que devo vivenciar isso em sua plenitude. Afora a legitimidade de dar trabalho para os outros, os est\u00e1gios terminais merecem ser experimentados conscientemente e com intensidade comunit\u00e1ria. Sendo isso uma condi\u00e7\u00e3o natural, por que morrer sem dar aviso, sem se despedir, ir embora sem alarde? Sei sim que a morte \u00e9 individual, mas vivemos em sociedade e queiramos ou n\u00e3o contagiamos a experi\u00eancia dos pr\u00f3ximos e \u201cdar trabalho\u201d deve ser maneira de se despedir, implicando responsabilidade, cuidado, zelo dos queridos. Sabe, fico tranquilo pensando nos olhares de comparsas que me veriam rezar a \u00faltima Ave Maria, balbuciando cumplicemente aquelas palavras tantas vezes pronunciadas sem a devida aten\u00e7\u00e3o \u201c<em>agora e na hora de \u2018minha\u2019 morte, am\u00e9m<\/em>\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 fui criticado por falar muito sobre a morte, como se n\u00e3o fosse tema oportuno, palat\u00e1vel ou apropriado. Na realidade, independente de ler ou escrever &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19706,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19697","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19697","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19697"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19697\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19707,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19697\/revisions\/19707"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19697"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19697"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19697"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}