{"id":19656,"date":"2022-03-12T15:54:19","date_gmt":"2022-03-12T18:54:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19656"},"modified":"2022-03-12T15:55:49","modified_gmt":"2022-03-12T18:55:49","slug":"judia-rara-trilha-sonora-de-uma-amizade-comum-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/judia-rara-trilha-sonora-de-uma-amizade-comum-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"\u201cJUDIA RARA\u201d: trilha sonora de uma amizade comum (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>As polacas eram mo\u00e7as judias do leste europeu que foram v\u00edtimas do tr\u00e1fico internacional de mulheres no final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do s\u00e9culo 20. No Brasil, elas foram for\u00e7adas a se prostituir<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Recebi de um amigo querido uma mensagem provocativa. Deixe-me inicialmente dizer que ele \u00e9 judeu e que nessa rela\u00e7\u00e3o me porto como \u00e1rabe. Tratamo-nos como Jac\u00f3 e Salim e desse jeito costuramos afetos que nos emendam h\u00e1 muito tempo. \u00c9 tudo algo natural, sutil e elegante, mas bem l\u00e1 no fundo \u00e9 poss\u00edvel ver uma ponta de disputa. Boa intriga diga-se, pois n\u00e3o nos largamos e n\u00e3o passa um dia sem um \u201calozinho\u201d. E nossos ol\u00e1s se ramificam: um manda para o outro comida t\u00edpica, um elogia a beleza f\u00edsica dos\/das \u201coponentes\u201d; a intelig\u00eancia e lideran\u00e7a de figuras opostas \u00e9 sempre ressaltada. Enfim, coisas de seres que se buscam na chave do entendimento.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19662 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Moreira-da-Silva-1.jpg\" alt=\"\" width=\"297\" height=\"170\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Moreira da Silva, o cantor &#8220;malandro&#8221; da Lapa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Devo confessar que essas atra\u00e7\u00f5es s\u00e3o velhas conhecidas minhas. Desde a adolesc\u00eancia mantive contado com judeus, e sempre ganhei muito com isso. Muito. Pois \u00e9, sou daqueles que cresceram acreditando que a democracia se faz no respeito e conv\u00edvio com a diferen\u00e7a. O exerc\u00edcio desse tipo de intera\u00e7\u00e3o, para ser leg\u00edtimo, tem que ter toques de respeitosas cutucadas. Elas, ali\u00e1s, fa\u00edscam conversas que se tran\u00e7am em epis\u00f3dios variados.<\/p>\n<p>\u201c<strong><em>Judia rara<\/em><\/strong>\u201d, numa grava\u00e7\u00e3o pr\u00e1 l\u00e1 de sens\u00edvel, foi a can\u00e7\u00e3o enviada pelo judeu amigo, sem nenhuma mensagem acompanhando. Conhecia a grava\u00e7\u00e3o de Moreira da Silva, de 1964, e me foi f\u00e1cil buscar o contexto dessa produ\u00e7\u00e3o. Sempre fui fascinado pelo tema imigra\u00e7\u00e3o e at\u00e9 por gosto pr\u00f3prio de \u201cfilho de turco\u201d, interesso-me por situa\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, por casos particulares, historinhas recortadas. Um dos aspectos mais instigantes dessas sagas, sem d\u00favida, foi o movimento das chamadas \u201cpolacas\u201d, mulheres advindas do Leste europeu e que compuseram a legi\u00e3o de prostitutas do baixo-meretr\u00edcio do centro do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital da nossa jovem rep\u00fablica. Tudo \u00e9 fascinante nesse epis\u00f3dio que, pelo vi\u00e9s brasileiro, foi uma ramifica\u00e7\u00e3o de movimento maior que implicou deslocamento de grande contingente de mulheres ent\u00e3o conhecidas como \u201cescravas brancas\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19663 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jorge-Faraj-1-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jorge-Faraj-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jorge-Faraj-1-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Jorge-Faraj-1.jpg 480w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Jorge Faraj, o verdadeiro autor de &#8220;Judia rara&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Lembrando que a prostitui\u00e7\u00e3o no Brasil sempre foi orientada pela padroniza\u00e7\u00e3o da burguesia europeizada, as francesas ocupavam a prefer\u00eancia do imagin\u00e1rio masculino, sendo que as polacas se constitu\u00edam op\u00e7\u00e3o menor, ainda que mais consideradas que as negras e mulatas. Foi nesse ambiente que Moreira da Silva, ent\u00e3o jovem de 18 anos, um pobret\u00e3o que sobrevivia de pequenos expedientes, se apaixonou pela dona de um desses prost\u00edbulos. Ela retribu\u00eda a escolha, mesmo sabendo que o gal\u00e3 mantinha um casamento oficial que durou 50 anos. O que chama a aten\u00e7\u00e3o nesse caso \u00e9 a legend\u00e1ria paix\u00e3o que unia a judia e o galanteador carioca. A raz\u00e3o da m\u00fasica, portanto, se justifica na distin\u00e7\u00e3o do caso, vejamos: \u201c<em>A rosa n\u00e3o se compara\/ a essa judia rara\/ criada no meu pa\u00eds\/ rosa de amor sem espinhos\/<\/em><em> diz que s\u00e3o meus carinhos\/ e eu sou um homem feliz\/ nos olhos dessa judia\/ cheios de amor e poesia\/ dorme o mist\u00e9rio da noite\/ brilha o milagre do dia\/ a sua boca vermelha\/ \u00e9 uma flor singular\/ e meu desejo uma abelha\/ em torno dela a bailar<\/em>\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-19664 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image_processing20200201-29235-r2lt28-1-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image_processing20200201-29235-r2lt28-1-300x164.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image_processing20200201-29235-r2lt28-1-450x246.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image_processing20200201-29235-r2lt28-1-768x420.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/image_processing20200201-29235-r2lt28-1.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19665 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Sebe-1.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Sebe-1.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Sebe-1-265x147.jpg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>S\u00edlvio Tendler e JC Sebe, os amigos que se chamam de Jac\u00f3 e Salim<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas, o que teria a \u201c<strong><em>Judia rara<\/em><\/strong>\u201d a ver com minha hist\u00f3ria e com meu amigo? \u00c9 a\u00ed que nossos destinos continuam um passado interrupto de conviv\u00eancia e complemento, pois o autor n\u00e3o foi Moreira da Silva e sim Jorge Faraj, um \u00e1rabe. Foi revendo essa hist\u00f3ria que vi reeditada em n\u00f3s, em meu amigo e em mim, a for\u00e7a de uma mem\u00f3ria transcendente. Tendo como ponto de chegada a discuss\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas no Brasil, \u201c<strong><em>Judia rara<\/em><\/strong>\u201d serve de pretexto para garantir aproxima\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Sabe, retomar esse percurso musical me faz reafirmar possibilidades. \u00c9 assim que S\u00edlvio Tendler e eu temos vivido a gra\u00e7a de sermos brasileiros, judeus e \u00e1rabes, amigos para al\u00e9m das diferen\u00e7as. Nesta lenga, ali\u00e1s, com alegria, podemos garantir a perenidade de nossas hist\u00f3rias tendo \u201c<strong><em>Judia rara<\/em><\/strong>\u201d como trilha sonora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As polacas eram mo\u00e7as judias do leste europeu que foram v\u00edtimas do tr\u00e1fico internacional de mulheres no final do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do s\u00e9culo &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19667,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19656","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19656"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19666,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19656\/revisions\/19666"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19667"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}