{"id":19636,"date":"2022-03-06T08:47:39","date_gmt":"2022-03-06T11:47:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19636"},"modified":"2022-03-06T09:01:41","modified_gmt":"2022-03-06T12:01:41","slug":"cachaca-mecanica-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/cachaca-mecanica-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"\u201cCACHA\u00c7A MEC\u00c2NICA\u201d (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Gosto de ler livros autografados. Quando os autores t\u00eam a delicadeza de me presentear capricho no cerimonial de leitura. Gosto de ler pela manh\u00e3, logo que acordo, bem cedinho. Caf\u00e9 forte depois da higiene matinal, horas de leituras. E de paz viajante. Quando conhe\u00e7o pessoalmente, ou\u00e7o a voz autoral e at\u00e9 trocamos ideias. Estranho, n\u00e9?! Mas \u00e9 assim mesmo. No momento vivo um caso de sedu\u00e7\u00e3o com o \u201c<em>Roberto Carlos: outra vez<\/em>\u201d, livro assinado por Paulo Cesar Ara\u00fajo. J\u00e1 declamei respeito e admira\u00e7\u00e3o a esse mo\u00e7o, um dos mais iluminados analistas da M\u00fasica Popular Brasileira. Nunca fui leitor apressado, nunca. Afora situa\u00e7\u00f5es pontuais, leio pausadamente na chave do modo \u201c<em>jos\u00e9carlosdeler<\/em>\u201d. Acontece agora que resolvi, al\u00e9m e parar em cada can\u00e7\u00e3o citada, ouvir as grava\u00e7\u00f5es. Olha, isso tem sido um barato&#8230;<\/p>\n<p>Sem ser did\u00e1tico ou apenas informativo, as mais de 900 p\u00e1ginas do primeiro volume do relato sobre Roberto Carlos s\u00e3o de uma desafeta\u00e7\u00e3o perversa, pois parece f\u00e1cil, mas&#8230; C\u00e1 e l\u00e1 autores da literatura, cr\u00edticos e especialistas s\u00e3o citados, por\u00e9m, nada que roube o tom de conversa continuada. Zero pedantismo; zero dados sup\u00e9rfluos; zero debates in\u00fateis. Sobra intelig\u00eancia e bom senso indutivo. E sutilezas. Estou quase chorando por estar nas \u00faltimas p\u00e1ginas. Mas agora, quero falar das ideias iniciais que alinham l\u00f3gicas evolu\u00eddas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19643 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Capa-livro-1-202x300.jpg\" alt=\"\" width=\"202\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Capa-livro-1-202x300.jpg 202w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Capa-livro-1-303x450.jpg 303w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Capa-livro-1.jpg 673w\" sizes=\"auto, (max-width: 202px) 100vw, 202px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Livro de Paulo C\u00e9sar Ara\u00fajo: &#8220;iluminado&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia do livro centra na biografia do \u201cRei\u201d por meio de suas m\u00fasicas identificadas como experi\u00eancias vividas. \u201cAs can\u00e7\u00f5es do Roberto\u201d, como quis dizer Caetano Veloso, se qualificariam junto ao p\u00fablico para ambientar casos, hist\u00f3rias, tramas marcantes. Caracterizada a proposta geral que atravessa o livro, uma explica\u00e7\u00e3o matriz serve de ch\u00e3o para justificar o sucesso estrondoso daquele que \u00e9 o mais glorificado interprete\/compositor de nossos dias brasileiros: a combina\u00e7\u00e3o de tr\u00eas tend\u00eancias fortes: o rock, o brega e a bossa-nova. Ningu\u00e9m como Roberto soube combinar essas marcas que, ali\u00e1s, tran\u00e7am o fasc\u00ednio exercido sobre s\u00faditos.<\/p>\n<p>Entre tantas alternativas, a escolha das \u201ccan\u00e7\u00f5es-matrizes\u201d \u2013 aquelas que sintetizam a ess\u00eancia de cada cap\u00edtulo \u2013 \u00e9 suplementada por outras que as explicam. Nenhuma fica de lado, e cada qual se integra no mosaico geral. E olha que falamos de centenas. Pois \u00e9, vendo o progresso do livro, muito chamou aten\u00e7\u00e3o algumas das composi\u00e7\u00f5es que se perderam na mem\u00f3ria, em particular certas que, \u00e0 \u00e9poca, sequer registrei. E destaco a \u201cCacha\u00e7a mec\u00e2nica\u201d, de 1963. \u00c9 l\u00f3gico que meu primeiro impulso foi relacion\u00e1-la ao filme \u201cLaranja mec\u00e2nica\u201d lan\u00e7ado um ano antes. O enredo que avassalou o p\u00fablico afeito ao cinema discutia a viol\u00eancia institucionalizada, um dos artif\u00edcios favoritos do diretor Stanley Kubrick. Fico pensando na poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre as duas \u201cmec\u00e2nicas\u201d, a da laranja e a da cacha\u00e7a.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19638 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Erasmo-e-Roberto-300x250.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"250\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Erasmo-e-Roberto-300x250.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Erasmo-e-Roberto-450x374.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Erasmo-e-Roberto.jpg 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Erasmo &#8220;Tremend\u00e3o&#8221; e Roberto &#8220;Rei&#8221; Carlos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A parceria de Roberto com Erasmo estava come\u00e7ando e isso possibilitava alguns experimentos ousados como o contido nessa composi\u00e7\u00e3o. Diz a l\u00edrica \u201c<em>Vendeu seu terno, seu rel\u00f3gio e sua alma\/ E at\u00e9 o santo ele vendeu com muita f\u00e9\/ Comprou fiado pra fazer sua mortalha\/ Tomou um gole de cacha\u00e7a e deu no p\u00e9\/ Mariazinha ainda viu Jo\u00e3o no mato\/ Matando um gato pra vestir seu tamborim\/ E aquela tarde j\u00e1 bem tarde comentava\/ L\u00e1 vai um homem se acabar at\u00e9 o fim\/ Jo\u00e3o bebeu toda cacha\u00e7a da cidade\/ Bateu com for\u00e7a em todo bumbo que ele via\/ Gastou seu bolso, mas sambou desesperado\/ Comeu confete, serpentina e a fantasia<\/em><em>\/ <\/em><em>Levou um tombo bem no meio da avenida\/ Desconfiado que outro gole n\u00e3o bebia\/ Dormiu no tombo e foi pisado pela escola\/ Morreu de samba, de cacha\u00e7a e de folia\/ Tanto ele investiu na brincadeira\/ Pra tudo-tudo se acabar na ter\u00e7a-feira<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Fascinado pelo enredo que conta o caso de certo brasileiro desiludido que se embriaga, samba e morre numa ter\u00e7a-feira gorda em plena avenida, o enredo \u00e9 conduzido de maneira a sintetizar uma \u00e9pica malandra, culturalmente brasileira. Al\u00e9m do roteiro que sugere outra forma de viol\u00eancia \u2013 do suposto sambista tr\u00e1gico que buscou a morte no fim do tr\u00edduo \u2013, essa grava\u00e7\u00e3o foi\u00a0cerada de uma intriga paralela, apontada como pl\u00e1gio de \u201cConstru\u00e7\u00e3o\u201d, de Chico Buarque que, diga-se, ele pr\u00f3prio desmentiu.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19640 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Cena-Laranja-Mecanica-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Cena-Laranja-Mecanica-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Cena-Laranja-Mecanica-1-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Cena-Laranja-Mecanica-1.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>&#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221;: discutia a viol\u00eancia institucionalizada<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Contabilizando o espantoso n\u00famero de composi\u00e7\u00f5es de Roberto Carlos, chama a aten\u00e7\u00e3o o paradoxo entre a transpar\u00eancia aparente de suas can\u00e7\u00f5es e a dimens\u00e3o profunda que pode ter quando se tem sondado o bastidor.<\/p>\n<p>O caso de \u201cCacha\u00e7a mec\u00e2nica\u201d \u00e9 emblem\u00e1tico do julgamento apressado sobre a simplicidade do \u201cRei\u201d. E n\u00e3o bastaria apenas reconhecer sua aclama\u00e7\u00e3o coletiva, \u00e9 preciso, como na vida, ver as raz\u00f5es que impulsionam atitudes. E neste campo, Paulo Cesar Ara\u00fajo ajuda o \u201cRei\u201d a provocar outros reinos, alguns do campo filos\u00f3fico. \u00a0O que se aprende com \u201cCacha\u00e7a mec\u00e2nica\u201d \u00e9 que h\u00e1 mais camadas na produ\u00e7\u00e3o do \u201cRei\u201d do que se percebe na superf\u00edcie do sucesso. Vale a pena sondar esse territ\u00f3rio pouco visitado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gosto de ler livros autografados. Quando os autores t\u00eam a delicadeza de me presentear capricho no cerimonial de leitura. 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