{"id":19586,"date":"2022-02-13T08:30:12","date_gmt":"2022-02-13T11:30:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19586"},"modified":"2022-02-13T08:30:12","modified_gmt":"2022-02-13T11:30:12","slug":"pra-nao-dizer-que-nao-falei-de-modernismo-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/pra-nao-dizer-que-nao-falei-de-modernismo-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PRA N\u00c3O DIZER QUE N\u00c3O FALEI DE MODERNISMO! (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Pois \u00e9, a <em>Semana de Arte Moderna de 1922<\/em> \u00e9 o assunto da vez. Se o tema \u00e9 festivo para grande parte da audi\u00eancia interessada em arte e literatura, para outros \u00e9 desafio que mexe com o bom senso anal\u00edtico e com a reserva de argumentos cr\u00edticos. E vou logo abrindo o jogo, pois mesmo sendo cauteloso frente \u00e0quele evento, n\u00e3o consigo despregar certa admira\u00e7\u00e3o comum aos que s\u00f3 fazem aplaudir a turminha que, de modo diverso da rotina, alardeou o carnaval de 22. Para o bem ou para o mal, reivindicando lideran\u00e7a e prest\u00edgio, foram os arrogantes <em>dandies<\/em> reunidos naquela S\u00e3o Paulo que se propuseram a acertar os ponteiros do nosso rel\u00f3gio cultural, ent\u00e3o descompassado do resto do mundo dito civilizado.<\/p>\n<p>N\u00e3o resta d\u00favida alguma que o espalhafatoso barulho em torno dos acontecimentos iniciados no fat\u00eddico dia 13 \u2013 e repetido dia 15 e 18 \u2013 potenciava veneno poderoso contra o passadismo cultural, identificado na tradi\u00e7\u00e3o parnasiana e na literatura puxada \u00e0 Coelho Neto ou Olavo Bilac. Sob uma pauta anal\u00edtica, por\u00e9m, cabe jogar luzes em complexidades que convidam definir a partir de <em>quando<\/em>, <em>onde<\/em>, e por <em>quanto tempo<\/em> vigio a tal <em>modernidade dos modernistas<\/em>. E falamos de <em>modernismo<\/em> ou de <em>modernismos<\/em>?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19587 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Semana-de-Arte-Moderna-Centenario-300x141.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"141\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Semana-de-Arte-Moderna-Centenario-300x141.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Semana-de-Arte-Moderna-Centenario-450x212.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Semana-de-Arte-Moderna-Centenario-768x361.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Semana-de-Arte-Moderna-Centenario.jpg 1170w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Fermentando argumentos, prop\u00f5e-se estabelecer a diferen\u00e7a entre <em>modernidade<\/em> e <em>modernismo<\/em>. Entende-se por <em>modernidade<\/em> \u2013 no caso da cultura brasileira dos in\u00edcios do s\u00e9culo passado \u2013 o processo de atualiza\u00e7\u00e3o das express\u00f5es de vida sociocultural, formatado segundo conjeturas hegem\u00f4nicas, colonizadas no sentido da leitura do mundo no p\u00f3s-Primeira Guerra Mundial. <em>Modernismo<\/em>, por sua vez, seria um movimento espec\u00edfico, produ\u00e7\u00e3o articulada, s\u00edntese cr\u00edtica e teatral do patrim\u00f4nio herdado, submetido a um programa arbitr\u00e1rio de renova\u00e7\u00e3o radical. Dizendo de outra forma, a <em>Semana<\/em> corresponderia \u00e0 oficializa\u00e7\u00e3o dos fundamentos modernizadores sempre em curso, ainda que difusos e sem fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica conceitual.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a crucial entre <em>modernismo<\/em> e <em>moderniza\u00e7\u00e3o<\/em> decorre da consci\u00eancia e aplica\u00e7\u00e3o de pressuposi\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas assumidas racionalmente e derivadas de regras sobre a supera\u00e7\u00e3o de tudo que estava estabelecido como valor art\u00edstico. A mera qualifica\u00e7\u00e3o dessas diferen\u00e7as suscita tr\u00eas rotas significativas para a compreens\u00e3o da <em>Semana de Arte Moderna<\/em>: 1- o recorte paulistano; 2- a espontaneidade do movimento, e 3- a recep\u00e7\u00e3o das propostas de pretens\u00f5es revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19588 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Abaporu-Tarsila-253x300.jpg\" alt=\"\" width=\"253\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Abaporu-Tarsila-253x300.jpg 253w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Abaporu-Tarsila-380x450.jpg 380w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Abaporu-Tarsila.jpg 401w\" sizes=\"auto, (max-width: 253px) 100vw, 253px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Tarsila do Amaral, autora do Abaporu, \u00e9 o s\u00edmbolo da arte moderna no Brasil<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O primeiro ponto a ser considerado na defini\u00e7\u00e3o do <em>espa\u00e7o modernista<\/em> remete \u00e0 sua <em>paulistanidade<\/em>, ou seja, \u00e0 centralidade na\/da capital do estado. O argumento sustentado pelos defensores da <em>vanguarda paulistana<\/em> por certo vai al\u00e9m dos valores assumidos localmente, condi\u00e7\u00e3o que consagraria aquele evento como uma esp\u00e9cie de modelo referencial da nossa produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Muito mais que arte, por\u00e9m, fala-se da lideran\u00e7a pol\u00edtica e do poder econ\u00f4mico que a S\u00e3o Paulo dos imigrantes \u2013 e da nascente ind\u00fastria \u2013 passava a ter na Federa\u00e7\u00e3o. Neste sentido, a reputa\u00e7\u00e3o de <em>moderno<\/em> caberia como virada de um passado colonizado, agr\u00e1rio, dependente de continuidades vencidas.<\/p>\n<p>Um segundo ponto importante para o entendimento da <em>Semana<\/em> exige medi-la em sua <em>temporalidade<\/em>. Se recortados aqueles dias como detonadores do longo processo seguinte autenticar-se-ia a lideran\u00e7a paulistana sobre um andamento corrente \u2013 muitos percebem o in\u00edcio em 1917 e como ramifica\u00e7\u00e3o de atualiza\u00e7\u00f5es europeias. Seria ent\u00e3o a <em>Semana<\/em> um produto, momento justificado localmente, ou express\u00e3o de procedimentos que j\u00e1 vinham acontecendo c\u00e1 e l\u00e1? Ou ser\u00e1 que, no recorte brasileiro, o <em>tempo paulistano<\/em> daria conta de incluir outros espa\u00e7os, em particular o Rio de Janeiro, Minas e Pernambuco?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19589 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Cartaz-dia-13-fev-216x300.jpg\" alt=\"\" width=\"216\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Cartaz-dia-13-fev-216x300.jpg 216w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Cartaz-dia-13-fev-324x450.jpg 324w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/Cartaz-dia-13-fev.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 216px) 100vw, 216px\" \/><\/p>\n<p>O terceiro argumento significativo implica entender a proje\u00e7\u00e3o do Movimento no devir hist\u00f3rico, posto que passadas as consequ\u00eancias est\u00e9ticas imediatas \u2013 o advento dos Manifestos e das Revistas \u2013 o que se viu foi a reclus\u00e3o dos argumentos que apenas refloresceram depois de 1945 com a morte de Mario de Andrade e principalmente durante o regime militar que precisou de uma base nacionalista, e assim buscou inspira\u00e7\u00e3o naqueles pressupostos. Mais tarde, descaracterizado de pol\u00edticas, depurados os personagens escolhidos como baluartes, valorizado o teor festivo\/art\u00edstico, apenas recentemente a <em>Semana<\/em> se notabilizou formulando uma pauta vista agora com destaque.<\/p>\n<p>O saldo da reflex\u00e3o presente, nesta sonora celebra\u00e7\u00e3o do centen\u00e1rio da <em>Semana de Arte Moderna<\/em>, convida \u00e0 retomada hist\u00f3rica do evento e de suas poss\u00edveis novas abordagens. Sem incorrer em revisionismos f\u00e1ceis, o que se busca \u00e9 a quebra de pressupostos dominantes e valorizar outros \u00e2ngulos capazes de projetar a <em>Semana<\/em> como uma oportunidade para a problematiza\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es indagadoras do papel, da fun\u00e7\u00e3o e alcance da cultura nos dias de hoje. E fico pensando como ela ser\u00e1 vista depois deste seu centen\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois \u00e9, a Semana de Arte Moderna de 1922 \u00e9 o assunto da vez. 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