{"id":19566,"date":"2022-01-11T11:06:25","date_gmt":"2022-01-11T14:06:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19566"},"modified":"2022-01-11T11:06:25","modified_gmt":"2022-01-11T14:06:25","slug":"nara-e-que-era-mulher-de-verdade-joaquim-ferreira-dos-santos-o-globo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/nara-e-que-era-mulher-de-verdade-joaquim-ferreira-dos-santos-o-globo\/","title":{"rendered":"Nara \u00e9 que era mulher de verdade (Joaquim Ferreira dos Santos &#8211; O Globo)"},"content":{"rendered":"<p>O general n\u00e3o sabia com quem estava falando e achou que Nara Le\u00e3o era mais uma Am\u00e9lia dessas da m\u00fasica popular, que se calava quando via um macho contrariado. Foi a\u00ed que o milico de 1964 amea\u00e7ou a cantora de pris\u00e3o se continuasse com aquela hist\u00f3ria de protesto, de carcar\u00e1 e de n\u00e3o mudar de opini\u00e3o. Nara era a pobre menina rica do musical. Morava de frente para o mar de Copacabana, o que n\u00e3o a impedia de denunciar a mis\u00e9ria do povo e a opress\u00e3o dos poderosos.<\/p>\n<p>O corte de cabelo Chanel fazia uma v\u00edrgula graciosa numa das ma\u00e7\u00e3s do rosto de Nara, mas na hora de responder ao general ela tirou da frente qualquer v\u00edrgula que empanasse a contund\u00eancia da frase. No bom portugu\u00eas dos anos 1960, mostrou que n\u00e3o era le\u00e3o \u00e0 toa, e mandou brasa no gorila: \u201cO Ex\u00e9rcito n\u00e3o serve pra nada!\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19567 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Nara-na-praia.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Nara na praia de Copacabana, em frente do apartamento onde morava<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Ela faria 80 anos neste 19 de janeiro e o Globoplay est\u00e1 exibindo desde o fim de semana \u201cO canto livre de Nara\u201d, document\u00e1rio de Renato Terra sobre uma vida que se mistura com a hist\u00f3ria do Brasil, da cultura popular e da resist\u00eancia feminina no enfrentamento do troglodismo macho. Ela fez o que quis. Carlos Drummond de Andrade entendeu essa liberdade e deu um toque no general: \u201c<em>Nara \u00e9 p\u00e1ssaro, sabia?\/ E nem adianta pris\u00e3o\/ Para a voz que pelos ares\/ Espalha sua can\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Nara morreu de c\u00e2ncer aos 47 anos, em 1989, e est\u00e1 sentada \u00e0 m\u00e3o direita de Leila Diniz e Nise da Silveira, ao lado esquerdo de Zuzu Angel e a escrava Anast\u00e1cia. Avan\u00e7ou, sem discurso e com muito charme, as lutas da mulher. Enfrentou o general, a gravadora e a caretice de quem lhe parecesse assim. Em 1959, quando o padreco proibiu Norma Bengel, a vedete de voz pequena e coxas monumentais, de cantar num show de bossa nova na PUC, Nara rezou pela primeira vez a ora\u00e7\u00e3o do \u201cmexeu-com-uma-mexeu-com todas\u201d \u2013 e em protesto levou o show para a UFRJ.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19568 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Opiniao-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Opiniao-300x300.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Opiniao-150x150.png 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Opiniao-80x80.png 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Opiniao-360x360.png 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Opiniao.png 430w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Nara h\u00e1 muitas. A todas elas as mulheres de 2022 deviam acender velas pela receita, com a\u00e7\u00facar e com afeto, de uma vida em que cada uma possa fazer em liberdade o seu doce predileto. Ora foi um carcar\u00e1 mordendo o cangote dos d\u00e9spotas, ora um drag\u00e3o m\u00e1gico lan\u00e7ando fogo pelo nariz, quando em seguida a um disco de protesto fazia outro de can\u00e7\u00f5es para embalar crian\u00e7as. Sem tabu, aproximou as contradi\u00e7\u00f5es nacionais. Edu Lobo quase rompeu rela\u00e7\u00f5es quando a amiga \u2013 que tinha apresentado o jazz \u00e0 turma, menina culta de franc\u00eas perfeito, musa da bossa nova Zona Sul \u2013 gravou as baladas de motel do suburbano Roberto Carlos.<\/p>\n<p>\u201cO canto livre de Nara\u201d \u00e9 um document\u00e1rio primoroso sobre um pa\u00eds que estava aqui ainda pouco, a cultura no centro das transforma\u00e7\u00f5es, um Rio de Janeiro de cair o queixo \u2013 e eis que essas imagens emocionantes de uma civiliza\u00e7\u00e3o sofisticada e divertida surgem quando tudo em volta \u00e9 s\u00f3 morte e destrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 o jeito de Nara, sempre na contram\u00e3o. E l\u00e1 vem ela, o sussurro charmoso, botando a banda para passar a delicadeza da gente sofrida em meio \u00e0 gritaria dos idiotas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O general n\u00e3o sabia com quem estava falando e achou que Nara Le\u00e3o era mais uma Am\u00e9lia dessas da m\u00fasica popular, que se calava quando &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19569,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19566","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19566","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19566"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19566\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19570,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19566\/revisions\/19570"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19569"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19566"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19566"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19566"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}