{"id":19545,"date":"2022-01-05T09:51:57","date_gmt":"2022-01-05T12:51:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19545"},"modified":"2022-01-05T09:51:57","modified_gmt":"2022-01-05T12:51:57","slug":"eny-raimundo-moreira-a-advogada-que-enfrentou-a-ditadura-militar-frei-betto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/eny-raimundo-moreira-a-advogada-que-enfrentou-a-ditadura-militar-frei-betto\/","title":{"rendered":"ENY RAIMUNDO MOREIRA, A ADVOGADA QUE ENFRENTOU A DITADURA MILITAR (Frei Betto)"},"content":{"rendered":"<p>Imagine uma penitenci\u00e1ria de presos comuns, guardados em regime de seguran\u00e7a m\u00e1xima, no interior de S\u00e3o Paulo. Mude agora o foco da fantasia para o bairro do Leblon, no Rio. Acredita que uma jovem advogada possa trocar a Zona Sul carioca, em plena noite de Natal, pela conviv\u00eancia com presos comuns?<br \/>\nEm 1972, eu me encontrava na Penitenci\u00e1ria de Presidente Venceslau (SP), em companhia de mais cinco presos pol\u00edticos \u2013 os frades Ivo Lesbaupin e Fernando de Brito, o campon\u00eas Manuel Porf\u00edrio, o jornalista Maur\u00edcio Politi e o advogado Wanderley Caixe &#8211; todos misturados, por arb\u00edtrio da ditadura militar, a centenas de presos comuns. O tren\u00f3 da solidariedade nos levou um presente inusitado no Natal: a presen\u00e7a de nossa advogada, Eny Raimundo Moreira. A dire\u00e7\u00e3o do c\u00e1rcere n\u00e3o conseguia entender por que ela preferiu passar ali aquele per\u00edodo de festas, longe de seus familiares e amigos. Por que os \u201cterroristas\u201d mereciam tanta aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19551 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-batizado-228x300.jpg\" alt=\"\" width=\"228\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-batizado-228x300.jpg 228w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-batizado-343x450.jpg 343w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-batizado.jpg 424w\" sizes=\"auto, (max-width: 228px) 100vw, 228px\" \/><em><strong>Eny e o m\u00e9dico Aytan Sipahi h\u00e1 exatos 10 anos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Eny era mais do que mera advogada. Destacava-se pela garra, pelo destemor frente ao aparato necr\u00f3filo da ditadura. Pequena na estatura, era grande na coragem. Mineira de Juiz de Fora, pele cor de am\u00eandoa, tinha o racioc\u00ednio \u00e1gil e transpirava afeto.<br \/>\nEm 13 de junho de 1972, Paulo Vannuchi, um dos clientes da doutora Eny, compareceu \u00e0 Auditoria Militar de S\u00e3o Paulo para depor como testemunha em um processo. Eny denunciou ao juiz Nelson da Silva Machado Guimar\u00e3es a tortura que ele sofrera no DOI-CODI, a 9 de maio: apontou o hematoma no olho esquerdo e os sinais de enforcamento no pesco\u00e7o. Pediu que ele abaixasse a cal\u00e7a e mostrasse hematomas na virilha e na perna esquerda, esfolamentos e escoria\u00e7\u00f5es diversas. Paulinho declarou que os torturadores, frente \u00e0 sua resist\u00eancia em n\u00e3o ingerir alimentos no decorrer da greve de fome, introduziram um tubo em seu \u00e2nus, por onde injetaram leite.<br \/>\nA \u00fanica rea\u00e7\u00e3o do juiz foi prometer que o prisioneiro n\u00e3o retornaria ao DOI-CODI.<br \/>\nA coragem da Eny era desproporcional ao seu tamanho. Tinha a quem puxar: trabalhou no escrit\u00f3rio do famoso advogado Sobral Pinto, no Rio. Cat\u00f3lico convicto, Sobral defendeu Luiz Carlos Prestes, l\u00edder comunista, sob a ditadura de Get\u00falio Vargas.<br \/>\nGra\u00e7as tamb\u00e9m ao empenho de Eny, a mem\u00f3ria nacional resgatou, na obra \u201cBrasil Nunca Mais\u201d (Vozes), assinada por Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor Jaime Wright, as atrocidades cometidas pela ditadura.<br \/>\nFoi ela quem encontrou as vias transversas para acessar os arquivos do Superior Tribunal Militar, em Bras\u00edlia, e microfilmar todos os processos de presos pol\u00edticos.<br \/>\nNa noite de Natal de 1972, a Penitenci\u00e1ria de Presidente Venceslau programara missa celebrada pelo capel\u00e3o, um padre espanhol mais pr\u00f3ximo dos carcereiros que dos condenados, na contram\u00e3o de Jesus. Apelamos ao diretor para que Eny pudesse participar. Seria ele t\u00e3o desalmado a ponto de permitir que ela, distante do Rio, ficasse sozinha num quarto de hotel naquela noite significativa? Vencido por nossa press\u00e3o, o homem cedeu.<br \/>\nArmou, no p\u00e1tio da penitenci\u00e1ria, um palanque e, dentro dele, o altar. L\u00e1 embaixo, quatrocentos presos uniformizados e enfileirados. No momento da homilia, o celebrante deu a palavra ao diretor. Pronunciou um farisaico discurso, como se todos ali n\u00e3o soubessem que ele era conivente com torturas, castigos abusivos em solit\u00e1rias, onde presos ficavam semanas trancados nus, \u00e0s escuras, suportando o frio e a \u00e1gua com que os guardas molhavam o ch\u00e3o.<br \/>\nEm sua \u00e2nsia demag\u00f3gica, o diretor cometeu o erro de exaltar o gesto da doutora Eny Raimundo Moreira, que viera de uma cidade distante para comemorar o Natal com seus clientes. Pediu uma salva de palmas \u00e0 Eny. E ainda solicitou que ela dissesse uma palavra aos \u201creeducandos\u201d.<br \/>\nSurpresa e bastante emocionada, ela nos dirigiu a palavra. Imposs\u00edvel reproduzir o que disse. Um canto de amor n\u00e3o pode ser descrito. Como doce perfume, suas palavras contagiaram o ambiente. Seu carinho penetrou o cora\u00e7\u00e3o de cada presidi\u00e1rio. S\u00f3 lembro que terminou dizendo: \u201cBeijo cada um de voc\u00eas\u201d. Mas n\u00e3o se limitou \u00e0 palavra. Emocionada, preferiu uma atitude:<br \/>\n\u2014 \u00c9 noite de Natal \u2013 disse \u2013 e quero dar um abra\u00e7o em cada um de voc\u00eas.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-247.webp\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19552 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-247-300x144.webp\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"144\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-247-300x144.webp 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-247-450x216.webp 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-247-768x369.webp 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/Eny-247.webp 1250w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Eny num momento de descontra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Abandonou o microfone e veio em dire\u00e7\u00e3o aos bancos onde est\u00e1vamos. Desceu do palanque-altar e, durante duas horas, sob um sil\u00eancio clamoroso, enquanto a banda de presidi\u00e1rios tocava as pe\u00e7as finais, ela caminhou lentamente entre aqueles homens uniformizados, enfileirados nos bancos, e abra\u00e7ou e beijou cada um daqueles quatrocentos homens, a maioria h\u00e1 anos sem receber o carinho ou o toque de uma mulher. Choravam convulsivamente. Cora\u00e7\u00f5es de pedra transmutavam-se em cora\u00e7\u00f5es de carne, como reza a B\u00edblia.<br \/>\nMuitos companheiros n\u00e3o suportaram a ternura que extravasava daquele gesto. Um deles disse a ela: \u201c\u00c9 a primeira advogada que vejo advogar com amor\u201d. Outros disseram: \u201cFrei, por esta mulher, eu mato qualquer um\u201d (dentro daquele mundo, isto era uma forma de elogio); \u201cEu n\u00e3o acreditava em gente boa, mas agora sou obrigado a reconhecer que estava errado\u201d; \u201cN\u00e3o podia haver melhor presente\u201d.<br \/>\nDurante muito tempo, o assunto ali foi a presen\u00e7a de Eny.<br \/>\nNa segunda-feira, 25 de dezembro, Eny voltou cedo para passar o dia conosco. Foi a \u00fanica visita que n\u00f3s seis recebemos. Demos a ela, de presente, desenhos feitos pelo Caixe e o Man\u00e9. O time campe\u00e3o da casa ofertou medalhas e faixas, que ela recebeu feliz. Todos queriam agradecer-lhe de alguma forma.<br \/>\nEny partiu na manh\u00e3 seguinte. Mas sua presen\u00e7a perdurou.<br \/>\nAssim era Eny, advogada que n\u00e3o sabia atuar, em n\u00edvel efetivo, sem o complemento do afetivo. Foi o anjo da guarda de centenas de presos pol\u00edticos da ditadura e, como disc\u00edpula de Sobral Pinto, defensora intransigente dos direitos humanos.<br \/>\nA hist\u00f3ria do Brasil a merece. E as v\u00edtimas da ditadura agradecem a vida, a coragem e a compet\u00eancia desta encantadora mulher, que aos 77 anos transvivenciou em S\u00e3o Paulo, acometida por problemas no cora\u00e7\u00e3o e nos rins, na ter\u00e7a, 4 de janeiro de 2022.<\/p>\n<p><strong>*****<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>PS: Internada h\u00e1 quase dois meses no INCOR, em S\u00e3o Paulo, para tratar um problema no \u00fanico rim que lhe restava, Eny sofreu um enfarte na madrugada de ter\u00e7a-feira, 4. Depois de 18 minutos os m\u00e9dicos conseguiram recuper\u00e1-la. \u00c0s 14 h, por\u00e9m, sofreu outro enfarte, dessa vez definitivo. Eny era madrinha do jornalista do Estad\u00e3o Pedro Venceslau, que nasceu no mesmo dia &#8211; 25 de outubro de\u00a0 1969 &#8211; em que o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado pela ditadura<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine uma penitenci\u00e1ria de presos comuns, guardados em regime de seguran\u00e7a m\u00e1xima, no interior de S\u00e3o Paulo. 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