{"id":19514,"date":"2021-12-19T08:05:06","date_gmt":"2021-12-19T11:05:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19514"},"modified":"2021-12-19T08:14:45","modified_gmt":"2021-12-19T11:14:45","slug":"uma-viagem-e-tres-livros-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/uma-viagem-e-tres-livros-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"UMA VIAGEM E TR\u00caS LIVROS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Para meu filho Pedro<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Como a maioria das pessoas, procurei fazer o melhor que pude durante a pandemia. Obedeci as regras de preven\u00e7\u00e3o, critiquei o governo central, busquei consolar amigos e parentes machucados por perdas. Fiquei muito em casa e busquei aproveitar o tempo para arrumar meus interiores, pessoal ou n\u00e3o. Deixei o lar um brinco, reavaliei meus objetos de adorno e cuidei dos livros como fosse deix\u00e1-los prontos para uma exposi\u00e7\u00e3o. Em termos de agrado pessoal, fiz o que mais gosto: cozinhei bastante, atualizei correspond\u00eancia, li e escrevi muito. Escrever e ler, ali\u00e1s, estiveram entre as melhores ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O tempo passou, lento e tenso, mas foi indo. Procurei distra\u00e7\u00f5es gerais como consertos dom\u00e9sticos, mas minha tend\u00eancia mascate fermentava andan\u00e7as. Procurei n\u00e3o tocar em malas e nem em roupas pr\u00f3prias para sa\u00eddas. Consegui em parte, ainda que desse escapadelas em buscas pelo Google. Felizmente o milagre das vacinas se anunciou quando os resultados propuseram o que se chamou de \u201cnovo normal\u201d. Progressivamente fui me deixando provocar por viagens mais poss\u00edveis a cada dia.<\/p>\n<p>Devo dizer que em mar\u00e7o de 2019 eu tinha passagem comprada exatamente para a China, pa\u00eds que cobi\u00e7ava conhecer h\u00e1 anos. O adiamento foi obrigat\u00f3rio, ficando por\u00e9m o cr\u00e9dito para outras aventuras. Tentei v\u00e1rias outras viagens que sucessivamente foram canceladas, mas por fim uma deu certo: a travessia do Atl\u00e2ntico partindo da Espanha. O itiner\u00e1rio me era algo estranho, com destino final Santo Domingo, na Rep\u00fablica Dominicana. Fazer o caminho de Colombo foi desafiante. Usei a imagina\u00e7\u00e3o para pensar no que teria sido o mesmo trajeto cinco s\u00e9culos atr\u00e1s. em condi\u00e7\u00f5es completamente diversas da que fiz em confort\u00e1vel navio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19515 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Jelson-Oliveira-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Jelson-Oliveira-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Jelson-Oliveira-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Jelson-Oliveira-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Jelson-Oliveira-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Jelson-Oliveira-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Jelson-Oliveira.jpg 512w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Jelson Oliveira, autor de &#8220;Filosofia da viagem&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Houve, contudo, um acontecimento corriqueiro que me arrebatou mais que outros: a leitura de tr\u00eas livros. J\u00e1 havia passado pela del\u00edcia de ler em pleno mar, mas desta vez experimentei uma esp\u00e9cie de \u00eaxtase. Comecei por um texto que j\u00e1 conhecia, a \u201cFilosofia da viagem\u201d escrito por Jelson Oliveira. Trata-se de um p\u00e9riplo sobre o incessante movimento humano. Situado entre os temas menores da filosofia, a reflex\u00e3o atravessa uma das met\u00e1foras mais conhecidas de todos os tempos: a vida como tr\u00e2nsito. Depois de r\u00e1pida passagem pela hist\u00f3ria, o autor declina vis\u00f5es de v\u00e1rios autores que vivenciaram a quest\u00e3o dos deslocamentos humanos: S\u00eaneca, Hans Jonas, Descartes, Montaigne, Rousseau, Voltaire, Shopenhauer, Nietzsche, Camus e Derrida&#8230; Se pudesse resumir em uma palavra, diria que se trata de um livro incr\u00edvel. Discutindo temas como o estado de esp\u00edrito para viagens, a busca de surpresas e controle das emo\u00e7\u00f5es em tr\u00e2nsito, as rea\u00e7\u00f5es \u00e0s despesas e hospedagens, tudo nos convida \u00e0 compreens\u00e3o de travessias em sentido hist\u00f3rico. Desde a expuls\u00e3o do Para\u00edso, da desaven\u00e7a de Caim e Abel, passando pelos penitentes da Antiguidade e da Idade M\u00e9dia, prezando o significado das Grandes Navega\u00e7\u00f5es at\u00e9 a Modernidade tur\u00edstica, tudo se ativa como motor explicativo do est\u00e1gio atual dos movimentos humanos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-19516 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Gay-Talese-214x300.jpg\" alt=\"\" width=\"214\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Gay-Talese-214x300.jpg 214w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Gay-Talese-321x450.jpg 321w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Gay-Talese.jpg 437w\" sizes=\"auto, (max-width: 214px) 100vw, 214px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Gay Talese foi articulista do The New York Times<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mal terminei o livro, abri-me para outro igualmente fascinante. Sabe a sensa\u00e7\u00e3o do \u201cn\u00e3o li, j\u00e1 gostei\u201d? Pois \u00e9, foi assim com \u201cO Voyeur\u201d de Gay Talese, o inventor do jornalismo liter\u00e1rio. E a hist\u00f3ria \u00e9 para quem n\u00e3o teme rasgos moralistas. As aventuras de um personagem, que existe na vida real, garantem o tom de reportagem do premiado autor que revela um tal senhor Gerald Foos, personagem que, por 25 anos, \u201cobservou\u201d o comportamento de h\u00f3spedes de um motel no estado do Colorado, cuidando de anota\u00e7\u00f5es sobre as atividades sexuais dos frequentadores. Constru\u00eddo um posto secreto de observa\u00e7\u00e3o secret\u00edssimo, manteve um di\u00e1rio que enviou a Talese, ent\u00e3o articulista do The New York Times. E que hist\u00f3rias registrou! Todas com boa pitada de pretens\u00e3o cient\u00edfica, pois dizia-se pesquisador do comportamento humano, por\u00e9m, com uma variante inexor\u00e1vel: via a intimidade das pessoas sem que elas soubessem. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201csacanagem\u201d que intriga neste livro. Talese retra\u00e7ou a biografia de Foos, revelando um personagem \u00fanico e apaixonante.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19517 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/John-Colapinto-200x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/John-Colapinto-200x300.jpeg 200w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/John-Colapinto-300x450.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/John-Colapinto.jpeg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>John Colapinto escreveu &#8220;Quase autor&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Deste passei a um terceiro livro intitulado \u201cQuase autor\u201d. Devo dizer que depois das leituras anteriores achava que nada superaria meu deleite. Engano cruel. Eis que o texto assinado por John Colapinto me captou desde as primeiras p\u00e1ginas. E como! O livro surpreende o leitor a cada p\u00e1gina, tirando o f\u00f4lego pela sucess\u00e3o de fatos incr\u00edveis. O relato conta as perip\u00e9cias de Cal Cunningram, jovem que, pretendendo ser escritor, mudara-se para New York onde dividia apartamento com um colega, Stwart, estranh\u00edssimo estudante de Direito, tamb\u00e9m obcecado por Literatura. Buscando hist\u00f3rias reais, Cal revelava ao confidente o uso da cidade como uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio para eventual trama, mas, no entanto, a frustra\u00e7\u00e3o se lhe abateu depois de dois anos sem conseguir produzir uma p\u00e1gina. Foi assim que um dia, meio que por acaso, aproveitou que o companheiro deixara o computador ligado e resolveu mexer em seus escritos, e eis a grande revela\u00e7\u00e3o: Stwart havia redigido um excelente romance, contando as loucuras sexuais que ele, Carlo, lhe confidenciava. N\u00e3o bastasse, por coincid\u00eancia, o Stwart morre atropelado naquele mesmo dia. A continuidade dos acontecimentos autorizou Cal a oferecer o livro para uma editora que faz dele estrondoso sucesso. Tudo corria bem quando j\u00e1 rico, no auge da fama, lhe aparece uma desconhecida, namorada do falecido, que detinha os originais do livro. Pronto, o problema estava criado. Pressionado, restava a Cal resolver a quest\u00e3o que impulsionou o fraudador a pensar em matar a concorrente. N\u00e3o vou contar o final da hist\u00f3ria, mas n\u00e3o posso de deixar de recomendar a leitura.<\/p>\n<p>O que aprendi com esta viagem? Muito! E, mesmo para quem n\u00e3o est\u00e1 viajando, sugiro usar as tr\u00eas indica\u00e7\u00f5es como passagem para uma viagem inesquec\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para meu filho Pedro Como a maioria das pessoas, procurei fazer o melhor que pude durante a pandemia. 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