{"id":19499,"date":"2021-12-12T09:02:10","date_gmt":"2021-12-12T12:02:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19499"},"modified":"2021-12-12T09:04:49","modified_gmt":"2021-12-12T12:04:49","slug":"um-loa-a-marcia-mura-e-um-tribunal-de-mediacoes-de-causas-indigena-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/um-loa-a-marcia-mura-e-um-tribunal-de-mediacoes-de-causas-indigena-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"UM LOA A M\u00c1RCIA MURA E UM TRIBUNAL DE MEDIA\u00c7\u00d5ES DE CAUSAS INDIGENA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>M\u00e1rcia Mura, na USP<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Vivemos um tempo particularmente dif\u00edcil, contudo sabe-se que o processo hist\u00f3rico se realiza na supera\u00e7\u00e3o do vivido. Sempre fomos felizes em algum lugar remoto, sob a garantia de apagamentos das lutas e dores do presente. \u201cNaquele tempo\u201d, como se diz do bom passado, \u00e9 quimera que troca del\u00edcias imaginadas por novidades desafiantes. Se isto \u00e9 verdade para gente que tem pactos firmados e escritos sobre a vida social &#8211; para n\u00f3s que podemos nos valer de leis, escolas, institui\u00e7\u00f5es de assist\u00eancia geral &#8211; o que se diria de segmentos submetidos a mandos interditos e sem espa\u00e7o para a express\u00e3o no universo \u201ccivilizado\u201d?<\/p>\n<p>Pensando nestas situa\u00e7\u00f5es que comportam muita gente, tento traduzir paradoxos que, vistos pelas perspectiva de quem os padece, tornam-se quase ficcionais. Partamos do suposto ind\u00edgena brasileiro, por exemplo. \u00c9 imediato notar a subalternidade t\u00f3xica que exercemos sobre os primeiros habitantes de nossa \u201camada m\u00e3e gentil\u201d. N\u00e3o que n\u00e3o soub\u00e9ssemos disso, mas naturalizamos o preconceito de maneira a torn\u00e1-lo impercept\u00edvel, e assim garantimos ser \u201cprograma de \u00edndio\u201d algo ruim. Pensando melhor estas quest\u00f5es, resta-nos notar que sem perceber participamos de um cruel apagamento cultural.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19500 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-450x450.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-768x768.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-360x360.jpg 360w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel-750x750.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Nunes-Maciel.jpg 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>M\u00e1rcia Nunes Maciel, antes de assumir\u00a0 Mura<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 hora de assumir que somos todos preconceituosos e um bom exerc\u00edcio pode ser filtrado pelas an\u00e1lises de nossos comportamentos individuais para com os ind\u00edgenas. Basta lembrar que sequer o termo \u201cind\u00edgena\u201d sab\u00edamos aplicar e que at\u00e9 hoje muitos ainda se referem a eles como \u201c\u00edndios\u201d. Nosso sotaque colonizador \u00e9 refeito no cotidiano das escolas, notici\u00e1rios, conversas, isto at\u00e9 mesmo quando se tem inten\u00e7\u00e3o de \u201cajud\u00e1-los\u201d.<\/p>\n<p>D\u00f3i muito pensar que as mais de 200 l\u00ednguas ind\u00edgenas que ainda resistem em nosso pa\u00eds est\u00e3o amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o. E \u00e9 preciso distinguir o respeito a elas como patrim\u00f4nio cultural da necessidade de escut\u00e1-las em seus significantes pr\u00f3prios. Incr\u00edvel como n\u00e3o percebemos o valor dado \u00e0s l\u00ednguas estrangeiras e o reverso deprimente em face das nativas. E que dizer das exalta\u00e7\u00f5es folclorizadas que temos sobre os primeiros habitantes: o que \u00e9 o \u201cdia do \u00edndio\u201d? Sejamos exatos, quantos ind\u00edgenas conhecemos? Com quantos interagimos? E qual a qualidade de nossas rela\u00e7\u00f5es com eles?<\/p>\n<p>O alerta proposto me persegue h\u00e1 tempos, confesso. Como cidad\u00e3o e sobretudo como professor de hist\u00f3ria, vejo-me \u201cdo lado de c\u00e1\u201d, sem muito ter feito pela causa que se perfila entre as mais dram\u00e1ticas. Houve, contudo, em minha hist\u00f3ria profissional, um momento especial. Um dia chegou \u00e0s minhas portas uma mo\u00e7a de Rond\u00f4nia, de fei\u00e7\u00f5es claramente ind\u00edgenas, disposta a estudar seu povo na chave da hist\u00f3ria oral. De imediato, isto me fez abrir para uma aventura importante e o fiz comovido, em favor do culto \u00e0 diferen\u00e7a. Admitida, M\u00e1rcia Nunes Maciel com afinco se dedicou por anos a fio ao trabalho relativo a seu grupo amazonense, os ind\u00edgenas Mura. E foi muita tenacidade somada: leu o que se lhe recomendava e assim passou pelos te\u00f3ricos da moda: Foucault, Nora, Boaventura Souza Santos&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19503 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Mura-resistencia-300x158.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Mura-resistencia-300x158.png 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Mura-resistencia-450x236.png 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Mura-resistencia-768x403.png 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Marcia-Mura-resistencia.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>M\u00e1rcia Mura, um s\u00edmbolo da resist\u00eancia ind\u00edgena<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O tempo foi passando e soube que Marcia era casada, tinha filhos, marido e que tudo deixou em favor da filtragem acad\u00eamica, importante para habilit\u00e1-la a discutir com os \u201coutros\u201d. Cumpriu todos os requisitos e se tornou a primeira doutora ind\u00edgena formada pelo Departamento de Hist\u00f3ria da USP. Mas ela tamb\u00e9m mudou e isto vale como atestado de di\u00e1logos desej\u00e1veis entre as partes. Ao cabo de seu mestrado, j\u00e1 se apresentava como M\u00e1rcia Mura e desenvolvera t\u00e9cnicas de apreens\u00e3o de hist\u00f3rias de mulheres de sua comunidade ribeirinha. E que hist\u00f3rias!&#8230; De in\u00edcio, vestia-se pelo c\u00f3digo europeizado, mas seus brincos \u201cex\u00f3ticos\u201d foram se compondo com roupas de inspira\u00e7\u00e3o \u00e9tnica e come\u00e7ou exibir pinturas ind\u00edgenas no corpo, fazer apresenta\u00e7\u00f5es, e assim foi cativando simpatias. Enfim, M\u00e1rcia se imp\u00f4s Mura. Sabe o que aprendi? Aprendi que ela se adaptou, mas n\u00f3s n\u00e3o. Continuamos conjugando o verbo tolerar, no tempo do egocentrismo colonial.<\/p>\n<p>Doutora formada, Marcia voltou para seu grupo e, mais do que isto, assumiu o posto de professora ind\u00edgena, na condi\u00e7\u00e3o de \u201cemergencial\u201d, em uma escola regular. E seu \u00edmpeto guerreiro foi crescendo no limite do inconformado entre o ser ind\u00edgena e a imposi\u00e7\u00e3o de um curr\u00edculo que n\u00e3o a acatava essencialmente. Reativou o uso da l\u00edngua nativa, centrou-se na tradi\u00e7\u00e3o dos Muras e p\u00f4s a boca no mundo. Sua tese a autorizava fundamentar argumentos n\u00e3o oficializados na \u00f3tica \u201cde fora\u201d. Sua indigna\u00e7\u00e3o virou protesto e seu protesto virou grito em favor da emancipa\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas. Imposs\u00edvel compreend\u00ea-la fora de um contexto de inconformidades e luta por direitos. E isto tem sido dif\u00edcil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19501 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Povos-indigenas-300x158.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"158\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Povos-indigenas-300x158.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Povos-indigenas-450x236.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Povos-indigenas-768x403.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Povos-indigenas.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Como educar os povos ind\u00edgenas?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Recentemente, sua inc\u00f4moda presen\u00e7a mexeu com a ordem estabelecida na escola onde leciona, no Distrito de Nazar\u00e9, RO. Insistindo na premissa de valoriza\u00e7\u00e3o do local, no limite da convic\u00e7\u00e3o de que deve ensinar os tra\u00e7os culturais nos quais se situa o estabelecimento, de pronto, uma guerra de alternativas foi declarada. \u00c9 bom que se veja tal contenda como algo nacional, n\u00e3o apenas localizado ou pessoal.<\/p>\n<p>Se for pela l\u00f3gica das leis, a causa de M\u00e1rcia est\u00e1 liquidada. Com base nas orienta\u00e7\u00f5es \u201cde Bras\u00edlia\u201d, o choque entre dire\u00e7\u00e3o e comunidade n\u00e3o tem merecido media\u00e7\u00f5es. \u00a0Os problemas se misturaram implicando diverg\u00eancias conceituais do tipo \u201cescola ind\u00edgena\u201d X \u201cescola ribeirinha\u201d, curr\u00edculo especial X normas estatut\u00e1rias de base na programa\u00e7\u00e3o oficial, hierarquia formal. Por l\u00f3gico, tais dilemas se deram tamb\u00e9m nas express\u00f5es p\u00fablicas refletidas em exposi\u00e7\u00f5es did\u00e1ticas dos alunos, atividades comunit\u00e1rias da escola e at\u00e9 mesmo o uso das redes sociais e acessibilidade ind\u00edgena. Certamente, os humores exaltados atuaram implicando temas correlatos como direito de propriedade, posto que Marcia defende ser dos Mura, de sua fam\u00edlia, o territ\u00f3rio da escola.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19505\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Primeiro-Encontro-Povo-Mura-300x180.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Primeiro-Encontro-Povo-Mura-300x180.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Primeiro-Encontro-Povo-Mura-450x270.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Primeiro-Encontro-Povo-Mura.jpg 507w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>I Encontro do Povo Mura em 2018; fotografado por M\u00e1rcia Mura<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mais que detalhar meandros da complicada trama, vale destacar que dessa confus\u00e3o ressaltam valores de culturas que se confrontam e que agora est\u00e3o no ju\u00edzo de um tribunal que julga pelas leis dos \u201cbrancos\u201d, segundo protocolos n\u00e3o ind\u00edgenas. O que se aprende com tal postura? Antes de mais nada que \u00e9 preciso tomar conhecimento do problema e se posicionar. Decorr\u00eancia imediata do problema, a falta de media\u00e7\u00e3o se apresenta. Mesmo sem advogar a favor (ou contra), cabe reconhecer a luta de M\u00e1rcia Mura e nela a dos povos ind\u00edgenas que vociferam sem reconhecimento de suas causas. \u00c9 hora de provar que vidas ind\u00edgenas importam. E muito. \u00c9 hora tamb\u00e9m de prestar aten\u00e7\u00e3o neste caso emblem\u00e1tico que nos exalta a ver al\u00e9m das normas jur\u00eddicas. Ou\u00e7amos outras M\u00e1rcias. Ou\u00e7amos todas as M\u00e1rcias Mura deste pa\u00eds e proponhamos um Tribunal de media\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcia Mura, na USP Vivemos um tempo particularmente dif\u00edcil, contudo sabe-se que o processo hist\u00f3rico se realiza na supera\u00e7\u00e3o do vivido. 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