{"id":19485,"date":"2021-12-05T08:16:16","date_gmt":"2021-12-05T11:16:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19485"},"modified":"2021-12-05T08:16:16","modified_gmt":"2021-12-05T11:16:16","slug":"poesia-e-alienacao-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/poesia-e-alienacao-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"POESIA E ALIENA\u00c7\u00c3O (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Minha hora favorita \u00e9 a madrugada, mas a madrugada dos que come\u00e7am o dia, n\u00e3o dos que alongam a noite. O sil\u00eancio, a mansa espera da luz, o caf\u00e9 quente&#8230; Arrumado, aguardo o jornal chegar. O intervalo entre o despertar e a leitura das not\u00edcias sugere medita\u00e7\u00f5es sutis, coerentes com a cena. Hoje n\u00e3o foi diverso, dei c\u00e9u a uma pergunta que, afinal, faz sentido na altura de nossas vidas pol\u00edticas: que tempo vivemos?! E colocando a quest\u00e3o coletiva no presente do indicativo me olhei com uma d\u00favida fatal: estou sendo correto comigo mesmo?!<\/p>\n<p>Devagar, no pulso dos minutos mais rec\u00f4nditos, veio-me \u00e0 cabe\u00e7a um poema de Brecht \u201c<em>eu vivo em tempos sombrios<\/em>\u201d, e minha mem\u00f3ria fez repetir versos que fugiam do esquecimento \u201c<em>uma linguagem sem mal\u00edcia \u00e9 sinal de estupidez\/ uma testa sem rugas \u00e9 sinal de indiferen\u00e7a\/ aquele que ainda ri \u00e9 porque ainda n\u00e3o recebeu a terr\u00edvel not\u00edcia<\/em>\u201d. E a sequ\u00eancia me desafiava \u201c<em>que tempo s\u00e3o estes, quando falar de flores \u00e9 quase um crime\/ pois significa silenciar sobre tanta injusti\u00e7a<\/em>\u201d. Pronto, estava dada a m\u00fasica para dan\u00e7ar \u00e0 beira do abismo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-19486 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Sebe-1.jpg\" alt=\"\" width=\"259\" height=\"194\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Qual o meu posto neste tempo de &#8220;homens partidos&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Confesso que tentei mudar de trilha, mas n\u00e3o deu certo. Drummond se me avassalou com \u201c<em>nosso tempo<\/em>\u201d e passei a ritmar soturno \u201c<em>esse \u00e9 tempo partido\/ tempo de homens partidos\/ em v\u00e3o percorremos volumes\/ viajamos e nos colorimos\/ a hora pressentida esmigalha-se em p\u00f3 na rua\/ os homens pedem carne, fogo, sapatos<\/em>\u201d e do\u00eda prosseguir \u201c<em>as leis n\u00e3o bastam\/ os l\u00edrios n\u00e3o nascem da lei\/ meu nome \u00e9 tumulto, e escreve-se na pedra<\/em>\u201d. E ent\u00e3o vi alargada a pergunta: qual meu posto neste tempo de \u201chomens partidos\u201d? Dei um giro em meu passado recente e comecei uma briga que implicava a palavra \u201csilenciar\u201d. Ah, como \u00e9 intrag\u00e1vel o veneno que se esconde na combina\u00e7\u00e3o de letras que contornam o \u201ceu\u201d e o \u201coutro\u201d. Silenciar, recolher-se, no m\u00ednimo me aproxima da aliena\u00e7\u00e3o, e ent\u00e3o como me conciliar?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19487 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Avestruz-300x164.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"164\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Avestruz-300x164.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Avestruz-450x245.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Avestruz.jpg 550w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Posso mudar ficando comigo mesmo?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O historiador que mora em mim exigiu a costura do passado e nessa estrada resenhei minhas atitudes com pret\u00e9ritos presentes. Tenho me silenciado para evitar mais rompimentos, e calado me retiro de absurdos imponder\u00e1veis. Caminho quieto, apartado de oposi\u00e7\u00f5es, s\u00f3 falando com meus pares, mas a tran\u00e7a dos dois poemas mais e mais me provocava: estou certo? \u00c9 correto deixar os acontecimentos como est\u00e3o? Que posso mudar ficando comigo mesmo?<\/p>\n<p>Respirei fundo quando jornal chegou e fui a ele ainda com as palavras de Drummond gemendo versos \u201c<em>escuta o horr\u00edvel emprego do dia em todos os pa\u00edses de fala humana\/ a falsifica\u00e7\u00e3o das palavras pingando nos jornais<\/em>\u201d. Ilus\u00e3o tola achar que teria fugas, pois, pelo reverso, constatei pelas not\u00edcias, umas depois de outra, que o meu recolhimento me justificava. Foi assim que cheguei \u00e0s p\u00e1ginas da cultura e li um artigo sobre Clarice Lispector, ela acusada de aliena\u00e7\u00e3o. A sequ\u00eancia do texto puxava outra men\u00e7\u00e3o, agora devotada a uma refer\u00eancia feita pelo \u201cirm\u00e3o Henfil\u201d. O tra\u00e7o radical do chargista desenhava um enterro de apoiadores do golpe civil militar de 1964. Entre os \u201cmortos\u201d alguns \u00edcones maltratados pelo inesquec\u00edvel pincel: Elis Regina \u2013 pelo famoso epis\u00f3dio em que cantou o Hino Nacional nas Olimp\u00edadas Militares \u2013 o pr\u00f3prio Drummond e Clarice, ambos acusados de alheamento e enterrados com a assinatura de Henfil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19488 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/13-X-17-300x172.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"172\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/13-X-17-300x172.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/13-X-17-450x258.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/13-X-17.jpg 747w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Tenho marcado meu territ\u00f3rio<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Conclu\u00ed que mesmo sem me opor de maneira desbragada tenho marcado meu territ\u00f3rio, e assim me vacinei contra a loucura do mundo enfrentando os mesmos versos de Brecht \u201c<em>dizem-me: come e bebe\/ fica feliz por teres o que tens\/ mas como posso comer e beber\/ se a comida que eu como, eu tiro de quem tem fome?\/ se o copo de \u00e1gua que eu bebo, faz falta a quem tem sede?\/ mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo<\/em>\u201d. Sabe, se pudesse dialogar com Brecht diria que \u00e9 o que me resta e se pudesse mandar recado para Henfil pediria para n\u00e3o me enterrar ainda. Preciso de um tempo comigo mesmo, \u00e9 quest\u00e3o de respiro. Silente, sim; alienado, n\u00e3o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha hora favorita \u00e9 a madrugada, mas a madrugada dos que come\u00e7am o dia, n\u00e3o dos que alongam a noite. 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