{"id":19474,"date":"2021-12-03T10:35:03","date_gmt":"2021-12-03T13:35:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19474"},"modified":"2021-12-03T10:42:53","modified_gmt":"2021-12-03T13:42:53","slug":"literatura-nasce-nas-ruas-de-contramao-marisa-lajolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/literatura-nasce-nas-ruas-de-contramao-marisa-lajolo\/","title":{"rendered":"Literatura nasce nas ruas de contram\u00e3o (Marisa Lajolo*)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>No t\u00edtulo de seu recente artigo no Jornal Contato (26.11.2021), o professor de hist\u00f3ria Sebe Bom Meihy faz uma pergunta muito interessante e provocadora:\u00a0 pode um homem, branco, professor, falar de mulher, negra, semianalfabeta?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A pergunta n\u00e3o cai do espa\u00e7o sideral, nem \u00e9 gratuita. \u00c9, ao contr\u00e1rio, precisa e oportuna.<\/p>\n<p>O professor Sebe Bom Meihy \u00e9 o <strong>homem branco professor<\/strong> e tem em seu vasto curr\u00edculo dezenas de trabalhos sobre a obra de Carolina Maria de Jesus, a <strong>mulher negra semianalfabeta<\/strong>. A recente retomada e relan\u00e7amento da obra da mineira de Sacramento tem gerado curiosos movimentos \u2013 digamos editoriais e cr\u00edticos &#8211; que desqualificam a participa\u00e7\u00e3o de um homem -branco e intelectual- da organiza\u00e7\u00e3o\/discuss\u00e3o da obra da autora de <em><u>Quarto de despejo<\/u><\/em>.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19477 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Audalio-e-Maria-Carolina-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Audalio-e-Maria-Carolina-300x201.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Audalio-e-Maria-Carolina-450x302.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Audalio-e-Maria-Carolina.jpg 766w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Aud\u00e1lio Dantas, jornalista que lan\u00e7ou Carolina Maria de Jesus<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Simultaneamente, ressurge no horizonte a figura de Aud\u00e1lio Dantas, o jornalista negro que lan\u00e7ou Carolina nos anos sessenta do s\u00e9culo passado. Ele teria se apropriado da escritora, tolhendo sua (dela) voca\u00e7\u00e3o especificamente liter\u00e1ria, levando-a a limitar-se a escrever di\u00e1rios? Ele a teria explorado economicamente?<\/p>\n<p>Penso que ambos os movimentos s\u00e3o paralelos.<\/p>\n<p>Ambos desconsideram a complexidade de um sistema liter\u00e1rio, constru\u00eddo ao longo de s\u00e9culos, no contexto de uma sociedade de perfil primeiro colonial e escravocrata, depois independente (at\u00e9 republicana) mas ainda escravocrata e hoje moderna e racista.<\/p>\n<p>A literatura \u2013 textos cuja circula\u00e7\u00e3o os considera <em>liter\u00e1rios <\/em>&#8211; n\u00e3o nasce no cora\u00e7\u00e3o de um escritor inspirado pelas musas. Nasce num contexto social cheio de esquinas e de ruas com m\u00e3o e contram\u00e3o. Sobretudo ruas de contram\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19478 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Sebe-300x184.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"184\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Sebe-300x184.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Sebe-450x276.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Sebe.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Sebe Bom Meihy, uma voz acad\u00eamica no combate aos preconceitos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Talvez se possa imaginar Sebe Bom Meihy e Aud\u00e1lio Dantas como esquinas fundamentais na cartografia da obra de Carolina.<\/p>\n<p>Sem Aud\u00e1lio, talvez a obra de Carolina tivesse, infelizmente, ficado in\u00e9dita, registrada apenas em ef\u00eameros cadernos manuscritos. E ficando in\u00e9dita n\u00e3o teria dado \u00e0 Carolina e sua fam\u00edlia oportunidade de efetiva melhora na qualidade de vida. E sem Sebe Bom-Meihy e seu parceiro Levine, a obra da escritora n\u00e3o teria tido a larga circula\u00e7\u00e3o e o merecido reconhecimento de que desfruta hoje aqu\u00e9m e al\u00e9m-fronteiras. Goste-se ou n\u00e3o, a voz acad\u00eamica \u00e9 decisiva para tornar vis\u00edvel um escritor e sua obra.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19479 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Carolina-M-Jesus-1-231x300.png\" alt=\"\" width=\"231\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Carolina-M-Jesus-1-231x300.png 231w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Carolina-M-Jesus-1-347x450.png 347w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/12\/Carolina-M-Jesus-1.png 433w\" sizes=\"auto, (max-width: 231px) 100vw, 231px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Carolina Maria de Jesus em noite de aut\u00f3grafos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Deixando agora de lado a quest\u00e3o da obra de Carolina Maria de Jesus, gloso, para encerrar, a bem formulada e t\u00e3o oportuna pergunta do professor Sebe Bom Meihy: pode uma mulher negra envolver-se com a publica\u00e7\u00e3o de obra de um homem branco? [E acrescento] pode um ind\u00edgena envolver-se com a publica\u00e7\u00e3o de obra de uma escritora negra? uma h\u00e9tero envolver-se com a publica\u00e7\u00e3o de obra de uma l\u00e9sbica? um ateu envolver-se com a publica\u00e7\u00e3o de obra de um pastor evang\u00e9lico?\u00a0 um judeu envolver-se com a publica\u00e7\u00e3o da obra de um palestino?<\/p>\n<p>Fico por aqui.<\/p>\n<p>Abra\u00e7o o professor Sebe Bom Meihy pela coragem de seu artigo, e tamb\u00e9m a fam\u00edlia de Aud\u00e1lio pela defesa deste admir\u00e1vel brasileiro. Tenho certeza de que o mundo ser\u00e1 melhor quando qualquer um puder envolver-se na publica\u00e7\u00e3o de qualquer outra e qualquer uma puder ajudar qualquer outro a ter seus trabalhos publicados.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*****<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*MARISA LAJOLO, pesquisadora, cr\u00edtica liter\u00e1ria, autora de literatura juvenil e professora universit\u00e1ria (Unicamp e\u00a0 Mackenzie),\u00a0 em parceria\u00a0 com Jo\u00e3o Lu\u00eds Ceccantini organizou em 2009 a obra <em>Monteiro Lobato, livro a livro: obra infantil<\/em> (Editora Unesp\/Imprensa Oficial), pr\u00eamio Jabuti o melhor livro n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o em 2009. Em 2012, seu livro <em>Gon\u00e7alves Dias, o poeta do ex\u00edlio<\/em> (FTD) foi premiado pela Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No t\u00edtulo de seu recente artigo no Jornal Contato (26.11.2021), o professor de hist\u00f3ria Sebe Bom Meihy faz uma pergunta muito interessante e provocadora:\u00a0 pode &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19480,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19474"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19484,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19474\/revisions\/19484"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19480"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}