{"id":19458,"date":"2021-11-26T08:02:40","date_gmt":"2021-11-26T11:02:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19458"},"modified":"2021-11-28T08:11:27","modified_gmt":"2021-11-28T11:11:27","slug":"pode-um-homem-branco-professor-falar-de-mulher-negra-semianalfabeta-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/pode-um-homem-branco-professor-falar-de-mulher-negra-semianalfabeta-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"PODE UM HOMEM, BRANCO, PROFESSOR, FALAR DE MULHER, NEGRA, SEMIANALFABETA? (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>ou<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><em>MEDITA\u00c7\u00d5ES SOBRE ESTUDOS DE CAROLINA MARIA DE JESUS<\/em><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 mais para adiar o enfrentamento do pol\u00eamico axioma expresso no t\u00edtulo deste desabafo. N\u00e3o mesmo! E torna-se dif\u00edcil contornar a indigna\u00e7\u00e3o paradoxal que exige, antes de mais nada, a liberdade de express\u00e3o e o direito de cr\u00edtica. S\u00e3o anos de pesquisa \u2013 pelo menos 35 \u2013 que resultaram estudos vertidos em quatro livros e mais de 50 artigos (alguns inclusive traduzidos para cinco l\u00ednguas estrangeiras). Remeto-me aos trabalhos ligados \u00e0 Carolina Maria de Jesus, escritora que rasgou c\u00e2nones e desestabilizou certezas sobre o conceito literatura, mobilidade social de segmentos marginalizados, e que assim mexeu com o prest\u00edgio identit\u00e1rio brasileiro como um todo. Antes da mineira que transitou em v\u00e1rios n\u00edveis da exclud\u00eancia, poucas vozes testemunhais, comprometiam a positividade de um pa\u00eds culturalmente arrumadinho e exibido sem preconceitos expl\u00edcitos e crueldades raciais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-19459 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Autografando-livros-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Autografando-livros-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Autografando-livros-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Autografando-livros-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Autografando-livros-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Autografando-livros.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Maria Carolina de Jesus autografando livros no Instituto Moreira Salles<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer de sa\u00edda que perfilo entusiasmado a crescente onda de defensores de repara\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas em favor de ind\u00edgenas, negros e de vulner\u00e1veis de todos os matizes. Nesta linha, ali\u00e1s, sinto-me convidado a saudar as cotas universit\u00e1rias, de trabalho, de representa\u00e7\u00e3o parlamentar. Todas as cotas s\u00e3o oportunas. Compomos sim um pa\u00eds injusto, cruel e elitista que precisa revistar suas pol\u00edticas de integra\u00e7\u00e3o. Endosso pois atitudes condizentes com as pautas progressistas listadas nas agendas ativistas dos direitos humanos. Isto, ali\u00e1s, serve de introdu\u00e7\u00e3o ao argumento do direito de fala. Sem exce\u00e7\u00e3o, cada pessoa ou segmento deve se manifestar. Muito mais que lugar, todos tem direito de express\u00e3o.<\/p>\n<p>Perfilo princ\u00edpios que se assentam em um pressuposto democr\u00e1tico elementar: o reconhecimento e a valoriza\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a. De todas as diferen\u00e7as. Busco perfilar-me entre aqueles que percebem a democracia como espa\u00e7o coletivo, sobretudo com reconhecimento e respeito aos socialmente desiguais. Na evid\u00eancia do significado da diferen\u00e7a emendada na equipara\u00e7\u00e3o, ou no direito de oportunidades sem distin\u00e7\u00f5es, me coloco na luta que afina a intera\u00e7\u00e3o de pretos com brancos, de mulheres com homens, de detentores da educa\u00e7\u00e3o formal com os n\u00e3o privilegiados. E isto n\u00e3o \u00e9 mera prefer\u00eancia, \u00e9 luta. \u00c9 op\u00e7\u00e3o consciente e dever intelectual que imp\u00f5e argumentos.<\/p>\n<p>Uma das mais aclamadas autoras da cr\u00edtica liter\u00e1ria, a indiana Gayatri Chakravorty Spivak assinou um texto intrigante, justificado no universo te\u00f3rico da p\u00f3s-modernidade global. Em artigo de 1985, delineou o corrosivo dilema afeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de classe sociais e suas express\u00f5es. Sob o t\u00edtulo \u201c<em>Can the subaltern speak?<\/em>\u201d, publicado em portugu\u00eas com o t\u00edtulo \u201cPode o subalterno falar?\u201d, a autora apresenta um argumento que atinge em cheio as express\u00f5es identit\u00e1rias no que ficou conhecido como \u201cdireito de fala\u201d. Com apelo moral sobre a autodetermina\u00e7\u00e3o, a premissa spivaquiana busca responder o dilema da representa\u00e7\u00e3o e da autoria de vis\u00f5es pessoais, particularmente em vista do direito \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia. A compet\u00eancia, o treinamento t\u00e9cnico, o dom\u00ednio de fortunas cr\u00edticas filtradas por s\u00e9culos de cuidados filos\u00f3ficos, tudo, absolutamente tudo, ficaria angulado pelo direito \u2013 dever mesmo \u2013 de todos se enunciarem. Como se uma atitude anulasse a outra, na insensatez da busca de compensa\u00e7\u00e3o da marginaliza\u00e7\u00e3o efetiva, radicais apagam trajetos de quantos percebem na cultura e na ci\u00eancia ideais de aproxima\u00e7\u00f5es que, ironicamente, podem favorecer di\u00e1logos desej\u00e1veis e mudan\u00e7as pol\u00edticas vi\u00e1veis.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-19460 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gayatri-Chakravorty-Spivak-reduzida-285x300.jpg\" alt=\"\" width=\"285\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gayatri-Chakravorty-Spivak-reduzida-285x300.jpg 285w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gayatri-Chakravorty-Spivak-reduzida-428x450.jpg 428w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gayatri-Chakravorty-Spivak-reduzida.jpg 666w\" sizes=\"auto, (max-width: 285px) 100vw, 285px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Gayatri Chakravorty Spivak, cr\u00edtica liter\u00e1ria indiana<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sob a vista do conhecimento universit\u00e1rio, o problema \u00e9 complexo e pol\u00edtico. Complexo porque tange quest\u00f5es que se fundamentam na ess\u00eancia libertadora do saber cr\u00edtico que deve ser revisto sempre. Complexo porque toca na subalternidade de quem fatalmente sente-se visto e explicado pelo outro, n\u00e3o por si ou por seus \u201ciguais\u201d. Emerge deste axioma uma quest\u00e3o moral de consequ\u00eancia grave. A hist\u00f3ria entra como fator matriz na constata\u00e7\u00e3o de que a norma culta, o preparo aprimorado e os meios de produ\u00e7\u00e3o de resultados acad\u00eamicos t\u00eam sido dirigidos por uma minoria branca, elitista, selecionadora do que deve, pode e \u00e9 divulgado. Isso como se n\u00e3o houvesse desvios. A consci\u00eancia da subalternidade aqui funcionaria como den\u00fancia de injusti\u00e7as estruturais que, afinal, aparelham uns e desqualificam outros. Uns seriam os explicadores capacitados, \u00fanicos, e os demais apenas motivo de observa\u00e7\u00e3o, coisificados como objeto de estudos.<\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que numa proje\u00e7\u00e3o futura \u2013 otimista e distante \u2013 o problema aflitivo projetado na diminui\u00e7\u00e3o das desigualdades tender\u00e1 ao al\u00edvio das dist\u00e2ncias. Ainda que esta perspectiva caiba melhor no campo da utopia, \u00e9 de se motivar passos garantidos pelas pol\u00edticas afirmativas. Enquanto isso n\u00e3o acontece, contudo, cabe verificar a corre\u00e7\u00e3o de rotas que, se corrigidas, podem ajudar a causa democr\u00e1tica, integrando o almejado direito de todos se contarem em hist\u00f3rias silenciadas.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19464 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Garoto-negro-lendo-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Garoto-negro-lendo-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Garoto-negro-lendo-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Garoto-negro-lendo-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Garoto-negro-lendo-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Garoto-negro-lendo.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Vivo um dos mais dram\u00e1ticos dilemas de minha vida acad\u00eamica. Perfilando-me entre os pioneiros da recupera\u00e7\u00e3o da imagem de Carolina Maria de Jesus na cena p\u00fablica brasileira, pade\u00e7o esfor\u00e7os de exclus\u00e3o que, com toda seguran\u00e7a, enfraquecem a recep\u00e7\u00e3o da obra daquela autora que precisa ser vista, lida e assumida como causa de todos, n\u00e3o apenas de um grupo que se apropria de seu legado valendo-se das mesmas armas usadas por quem as refuta. Volto \u00e0 sauda\u00e7\u00e3o do direito de fala \u2013 n\u00e3o do lugar de fala \u2013 e reivindico di\u00e1logos \u00fateis ao entendimento democr\u00e1tico do saber. \u00c9 preciso distinguir valores culturais e buscar algo que n\u00e3o seja reduzido a \u201cracismo reverso\u201d, \u201cmachismo intelectual\u201d, \u201cperda de poder\u201d. Nada disso. De minha parte, n\u00e3o cederei um mil\u00edmetro em favor de conforma\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, continuarei buscando parcerias e construindo pontes que liguem o que de melhor a cultura pode oferecer: di\u00e1logo instru\u00eddo e aberto.<\/p>\n<p>Anuncio, em favor de estudos sobre Carolina Maria de Jesus, tr\u00eas livros que vir\u00e3o endossados pela Editora \u00c1tica. Tudo em favor da garantia de que homem branco e acad\u00eamico pode sim falar de mulher negra e de baixa formalidade educacional. Fora exclud\u00eancias dispens\u00e1veis, viva a causa democr\u00e1tica absoluta, em particular a favorecida pela cultura acad\u00eamica. Vamos continuar a luta pela garantia de uma educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica aberta a todos. E que Carolina Maria de Jesus sirva de elo de uni\u00e3o, revertendo assim a repeti\u00e7\u00e3o do que tem sido praticado na exclud\u00eancia em especial de mulheres negras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ou MEDITA\u00c7\u00d5ES SOBRE ESTUDOS DE CAROLINA MARIA DE JESUS N\u00e3o d\u00e1 mais para adiar o enfrentamento do pol\u00eamico axioma expresso no t\u00edtulo deste desabafo. 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