{"id":19432,"date":"2021-11-14T08:50:25","date_gmt":"2021-11-14T11:50:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19432"},"modified":"2021-11-14T08:51:51","modified_gmt":"2021-11-14T11:51:51","slug":"coca-cola-e-critica-musical-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/coca-cola-e-critica-musical-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"COCA COLA E CR\u00cdTICA MUSICAL (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><sub>para Paulo Pereira<\/sub><\/strong><\/p>\n<p><strong><sub>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/sub><\/strong>A hist\u00f3ria do refrigerante mais conhecido do mundo, a coca cola, se confunde com o trajeto da propaganda em n\u00edvel global. E tudo come\u00e7ou em 1886, em uma farm\u00e1cia na cidade de Atlanta, nos Estados Unidos. Incialmente como xarope, o produto foi sendo adaptado, ganhando gosto popular at\u00e9 chegar ao p\u00f3dio das empresas de maior sucesso de todos os tempos. Atualmente, em cerca de 200 pa\u00edses sua presen\u00e7a na cultura global \u00e9 irrefut\u00e1vel. Como s\u00edmbolo reconhecido e esteticamente bem resolvido, a coca cola passou a se prestar tamb\u00e9m como identifica\u00e7\u00e3o pop dos Estados Unidos, mas insinuando-se tamb\u00e9m como pretexto de cr\u00edtica ao imperialismo ianque.<\/p>\n<p>A coca cola chegou ao Brasil em 1941, compondo o alargamento americano promovido pela participa\u00e7\u00e3o na Segunda Guerra Mundial. A estreia do produto em nossa terra deveu-se \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o dos soldados americanos que saboreavam um produto t\u00edpico de sua cultura. O cen\u00e1rio era o ent\u00e3o chamado \u201ccorredor da vit\u00f3ria\u201d que ia da cidade do Recife (porto de chegada) a Natal (principal posto de lota\u00e7\u00e3o dos pracinhas). Valendo-se de uma f\u00e1brica de \u00e1gua gaseificada preexistente na capital pernambucana, o pr\u00f3ximo passo se deu no Rio, ent\u00e3o capital federal.<\/p>\n<p>Passada a fase da Guerra, como parte de um complexo programa de moderniza\u00e7\u00e3o composto principalmente pela divulga\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, do cinema e da literatura estadunidenses, a coca cola integrava um pacote que trocava a velha tradi\u00e7\u00e3o europeia pelas influ\u00eancias norte-americanas &#8211; isso, ali\u00e1s, ocorria mundo afora como recurso de sedu\u00e7\u00e3o cultural. Sutilmente, por\u00e9m, rea\u00e7\u00f5es despontavam, deixando transparecer cr\u00edticas ao sistema capitalista que se impunha em mi\u00fados comerciais como t\u00eanis, camisetas, chicletes, cigarros, batatas chips, incluindo a popularizada coca cola. Na contram\u00e3o repontavam rea\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que se insinuavam percorrendo um caminho de resist\u00eancia pouco notada, vista sempre isoladamente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19434 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gonzagao-300x210.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"210\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gonzagao-300x210.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gonzagao-450x315.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Gonzagao.jpg 600w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Gonzag\u00e3o: &#8220;&#8230;<em>eu vi um jumento beber vinte coca cola<\/em>&#8220;<\/strong><\/p>\n<p>Em termos de m\u00fasica popular, curiosamente pela primeira vez a marca apareceu em 1956, num xote de Luiz Gonzaga que comp\u00f4s com Z\u00e9 Dantas, uma engra\u00e7ada refer\u00eancia contida na grava\u00e7\u00e3o \u201cSiri jogando bola\u201d com a seguinte passagem \u201c<em>vi um jumento beber vinte coca cola\/ Ficar cheio que nem bola\/ E dar um arroto de lascar<\/em>\u201d. Pela ironia e pelo sucesso justificado na informalidade da m\u00fasica nordestina, houve rea\u00e7\u00e3o expressa pela cr\u00edtica classista que levou o apresentador Flavio Cavalcante, em um dos mais importantes programas de televis\u00e3o, a quebrar em cena o disco gravado pelo Gonzag\u00e3o.<\/p>\n<p>Demorou um pouco at\u00e9 que a coca cola voltasse \u00e0 m\u00fasica. E veio forte com a assinatura vibrante de Caetano Veloso que, no festival de 1967, fez o pa\u00eds vibrar com \u201cLiberdade, liberdade\u201d, narrando um vagante brasileiro \u201c<em>por entre fotos e nomes\/ os olhos cheios de cores\/ o peito cheio de amores v\u00e3os\u201d. E progredindo o bardo dava conta de um brasileiro at\u00f4nito, falando de sua saga desconexa \u201cEla pensa em casamento\/ E eu nunca mais fui \u00e0 escola\/ Sem len\u00e7o e sem documento\/ eu vou\/ eu tomo uma coca cola\/ Ela pensa em casamento<\/em>\u201d. A bricolagem factual embutia cr\u00edtica a um certo desnorteio cultural desafiante de posicionamentos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19435 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Legiao-urbana.jpg\" alt=\"\" width=\"267\" height=\"189\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0 \u00a0 <strong>Legi\u00e3o Urbana<\/strong><em><strong>\u00a0 &#8230; &#8220;quando nascemos fo<\/strong><\/em><em><strong>mos programado&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00a0 Nenhuma men\u00e7\u00e3o ao impacto da marca no Brasil pode deixar de saudar a \u201cGera\u00e7\u00e3o coca cola\u201d do grupo brasiliense \u201cLegi\u00e3o Urbana\u201d. O texto de Renato Russo funcionou como uma esp\u00e9cie de consci\u00eancia orientada contra o padr\u00e3o norte-americanizado. Conv\u00e9m lembrar que falamos de um momento em que a abertura pol\u00edtica j\u00e1 estava definida e que bandas assumiam a vers\u00e3o brasileira de protestos legitimados por varia\u00e7\u00f5es do rock. Ent\u00e3o, \u201cParalamas do Sucesso\u201d, \u201cCapital Inicial\u201d e \u201cTit\u00e3s\u201d faziam os jovens repetir esculachos pol\u00edticos e cr\u00edticas sociais. No radicalismo desta pauta o \u201cLegi\u00e3o\u201d fazia o p\u00fablico delirar entoando, como se hino fosse, \u201c<em>quando nascemos fomos programados\/ a<\/em> <em>receber o que voc\u00eas\/<\/em> n<em>os empurraram com os enlatados\/ dos U.S.A.\/ de nove as seis\/ desde pequenos n\u00f3s comemos lixo\/<\/em> c<em>omercial e industrial\/<\/em> <em>mas agora chegou nossa vez\/<\/em> v<em>amos cuspir de volta o lixo em cima de voc\u00eas\/<\/em> <em>somos os filhos da revolu\u00e7\u00e3o\/<\/em> s<em>omos burgueses sem religi\u00e3o\/<\/em> s<em>omos o futuro da na\u00e7\u00e3o\/<\/em> g<em>era\u00e7\u00e3o coca cola\u201d. <\/em>E o estridente estribilho bradava \u201cs<em>omos os filhos da revolu\u00e7\u00e3o\/ somos burgueses sem religi\u00e3o\/<\/em> s<em>omos o futuro da na\u00e7\u00e3o\/ <\/em>g<em>era\u00e7\u00e3o coca cola\/ gera\u00e7\u00e3o coca cola\u201d. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Tanto grito revoltado possibilitou um debate envolvendo a coca cola e a nossa cultura. Em 1984, Lulu Santos comp\u00f4s com parceiros \u201co \u00faltimo rom\u00e2ntico\u201d e o fez exatamente <\/em>retomando o Caetano de \u201cLiberdade, liberdade\u201d, tentando avan\u00e7ar na medita\u00e7\u00e3o sobre o imperialismo. Dialogando com \u201cLiberdade, liberdade\u201d, agora em uma balada chegada ao rock, um tanto conformado, desapontado mesmo, Lulu se expressa avaliando o processo <em>\u201cFaltava abandonar a velha escola\/ tomar o mundo feito coca cola\/ fazer da minha vida sempre\/ o meu passeio p\u00fablico\/ e ao mesmo tempo fazer dela\/ o meu caminho s\u00f3, \u00fanico<\/em>\u201d. E conclu\u00eda laconicamente se apresentando como \u201c<em>o \u00faltimo rom\u00e2ntico<\/em>\u201d. Em s\u00edntese, a conclus\u00e3o apontava a morte da cr\u00edtica ao capitalismo e o triunfo inquestionado da marca como s\u00edmbolo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19436 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Caetano-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Caetano-300x201.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Caetano.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<strong>Caetano: &#8220;<em>&#8230;tomar o mundo feito coca cola&#8221;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Mas a coca cola est\u00e1 a\u00ed, firme, presente, continuando sua miss\u00e3o metaf\u00f3rica sobre n\u00f3s. N\u00e3o conv\u00e9m, contudo, liquidar a esperan\u00e7a de desdobramentos cr\u00edticos&#8230; Quem sabe logo surgir\u00e1 uma nova can\u00e7\u00e3o para nos lembrar que o combate continua. Tem que continuar. Quem sabe?&#8230; E se algu\u00e9m discordar pode abrir uma coca cola e beber o dia de nossa virada que h\u00e1 de vir. Quem sabe o \u201c\u00faltimo rom\u00e2ntico\u201d tenha aprendido algo da \u201cgera\u00e7\u00e3o coca cola\u201d e entoe o \u201cLiberdade, liberdade\u201d que, ali\u00e1s, come\u00e7ou num xote bem nordestino, confirmando que coca cola causa arroto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>para Paulo Pereira \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0A hist\u00f3ria do refrigerante mais conhecido do mundo, a coca cola, se confunde com o trajeto da &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19433,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19432","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19432","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19432"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19432\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19438,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19432\/revisions\/19438"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19433"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19432"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19432"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19432"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}