{"id":19414,"date":"2021-10-31T08:34:51","date_gmt":"2021-10-31T11:34:51","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19414"},"modified":"2021-10-31T08:39:23","modified_gmt":"2021-10-31T11:39:23","slug":"decantando-o-saci-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/decantando-o-saci-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"(DE)CANTANDO O SACI (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Lindo demais!&#8230; Sim, em tempos de tanta desvalia, de \u00f3dio detalhado em palavras e gestos obscenos, de negacionismos estridentes e agress\u00f5es \u00e0s artes, de combate \u00e0 intelig\u00eancia e ao bom senso, de luto e choro, em tempos assim \u00e9 bom celebrar o dia do Saci. Catarse. <em>Catarse-se<\/em>.<em> Catarseemo-nos<\/em> todos, juntos. E com a mem\u00f3ria permitida pela esperan\u00e7a, flanemos no devaneio de uma era em que nossa cultura se via feliz, criativa, marota. Resenhando o que fomos, na intimidade do melhor imagin\u00e1rio, prefiguremos lendas, outros mitos n\u00e3o o que agora se pretende. E ent\u00e3o soltemos a imagina\u00e7\u00e3o constrangida para, no lugar, dar movimento ao popular que habita nossa autenticidade coletiva. E eis que o Saci pode nos levar para regi\u00f5es anteriores. Como tornou-se bom o ninho das utopias amanhecidas!&#8230; Nessa viragem, o Saci ganha lugar-guia e faz-nos sonhadores. Sabe, fico meio bobo pensando na matreirice de suas apronta\u00e7\u00f5es, nas del\u00edcias do jeito safado que achou para sempre incomodar nossa alma de voca\u00e7\u00e3o conformada. E ent\u00e3o lan\u00e7o-me solto em busca de raz\u00f5es que explicam o seu e o nosso jeito brasileiro de ver as coisas.<\/p>\n<p>Reza a tradi\u00e7\u00e3o que h\u00e1 tr\u00eas pistas identificadoras da origem do Saci: ind\u00edgena, europeia e africana &#8211; ou de todas misturadas -, filtrando nossa cultura. Se nativa, vinda do Pantanal guarani; se europeia, tanto de raiz n\u00f3rdica (pelo barrete) ou da heran\u00e7a portuguesa (da brasa nas m\u00e3os como teatralizou \u201co judeu\u201d Ant\u00f4nio Jos\u00e9 da Silva no \u201cObras do diabinho da m\u00e3o furada\u2019\u201d); se africana, colorida na pele tonalizada. E haja tradi\u00e7\u00e3o oral. De todas as estrat\u00e9gias, por\u00e9m, uma \u00e9 mais poderosa pela arg\u00facia sutil. Paradoxos, pois pelas m\u00fasicas pode-se pensar na conquista de nossas almas. Ah, o cancioneiro sobre o Saci!&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19417 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Antonio_Jose_da_Silva-265x300.jpg\" alt=\"\" width=\"265\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Antonio_Jose_da_Silva-265x300.jpg 265w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Antonio_Jose_da_Silva.jpg 370w\" sizes=\"auto, (max-width: 265px) 100vw, 265px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Ant\u00f4nio Jos\u00e9 da Silva autor de \u201cObras do diabinho da m\u00e3o furada\u2019\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pode-se pensar que s\u00e3o tr\u00eas os caminhos da sedu\u00e7\u00e3o musical <em>sacicizada<\/em>: o erudito, o popular e o infantil. A m\u00fasica, diga-se, foi importante instrumento na reserva de mem\u00f3ria afeita ao mais aut\u00eantico <em>ethos<\/em> brasileiro. Em 1912, por exemplo, Villa-Lobos comp\u00f4s o \u201cSaci&#8221; como parte de pe\u00e7a inspirada em nosso imagin\u00e1rio; isto, diga-se, uma d\u00e9cada antes da Semana de Arte Moderna. Na mesma chave erudita e em continuidade, Francisco Mignone produzia um artefato com o mesmo mote. Juntas estas, entre outras produ\u00e7\u00f5es \u201ccl\u00e1ssicas\u201d, espelhavam um projeto mitol\u00f3gico coerente com o que se fazia mundo afora. Na mesma linha, em 1922, Edmundo Villani-Cortes comp\u00f4s para piano uma esp\u00e9cie de \u00f3pera em fra\u00e7\u00f5es: &#8220;Primeira folha do di\u00e1rio do saci&#8221; e &#8220;Terceira folha do di\u00e1rio de um saci&#8221; (para flauta) e &#8220;S\u00e9tima folha do di\u00e1rio de um saci&#8221; (para contrabaixo).<\/p>\n<p>O grande legado musical sobre o Saci, contudo, se deu na passagem do erudito instrumental para o popular cantado, e isso se inaugurou em 1909 com Chiquinha Gonzaga que cantou com a dupla Os Geraldos &#8220;Saci-Perer\u00ea&#8221;. Em 1913, a polca &#8220;Saci&#8221; de J.B. Nascimento, foi tocada pelo Sexteto da Casa. Como toada, em 1918, Gast\u00e3o Formenti comp\u00f4s &#8220;Saci-Perer\u00ea&#8221;, de autoria de Joubert de Carvalho. E da\u00ed para a frente v\u00e1rias outras se perfilaram em diferentes ritmos nacionais: marchas, sambas, bai\u00f5es. Talvez, alguns destaques ilustrem a popularidade e recep\u00e7\u00e3o do tema pelo p\u00fablico urbano que passava, gradativamente, a consumir grava\u00e7\u00f5es: Z\u00e9 Pag\u00e3o &amp; Nh\u00f4 Rosa cantaram &#8220;Saci-Perer\u00ea&#8221;, de Ivani, em 1949; Inhana fez enorme sucesso com o bai\u00e3o &#8220;Saci&#8221;, de Ant\u00f4nio Bruno e Ernesto Ianhaen, em 1956; a dupla Torrinha &amp; Canhotinho fez &#8220;Saci-Perer\u00ea&#8221;, em 1959; mas quem \u201cestourou\u201d mesmo foi Araci de Almeida com &#8220;Saci-Perer\u00ea&#8221;, marcha de Henrique de Almeida e Rubi, gravada em 1960.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19418 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Demetrius-2-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Demetrius-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Demetrius-2-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Demetrius-2.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Demetrius, cantor de sucesso da Jovem Guarda<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Atravessando o tempo, em 1961 apareceu uma novidade vocalizada por Demetrius &#8220;Rock do Saci&#8221;, de J. Marascalco e Richard Penniman. O limite dessa saga, contudo, se deu em 1972, com o Tom Jobim na \u201cA \u00e1guas de mar\u00e7o\u201d, lan\u00e7ada em 1973, interpretada por Elis Regina. Grupos e populares passaram pelo tema que, dentre outros, destacam-se o Secos &amp; Molhados, Falamansa, Cheiro de amor, bem como Kleiton e Kledir no grupo Alm\u00f4ndegas que, ali\u00e1s, colocou a can\u00e7\u00e3o como tema da telenovela \u201cSaramandaia\u201d em 1975.<\/p>\n<p>Este breve itiner\u00e1rio n\u00e3o poderia deixar de lado a inten\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, inconsciente, da apropria\u00e7\u00e3o do Saci para crian\u00e7as, e nesta rota nada mais foi eficiente do que a tomada do tema assumidos pela televis\u00e3o. Enredos dramatizados e musicados dimensionaram abordagens como a composi\u00e7\u00e3o gravada por Guto Gra\u00e7a Mello que atraiu cantores reputados como Jorge Benjor e Carlinhos Brown. E as varia\u00e7\u00f5es se multiplicaram com <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Boca_Livre\">Boca Livre<\/a> gravando &#8220;Saci&#8221; de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Paulo_Jobim\">Paulo Jobim<\/a> e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ronaldo_Bastos\">Ronaldo Bastos<\/a>, 1980); <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ruy_Maurity\">Ruy Maurity<\/a> com &#8220;Sacirer\u00ea&#8221; de Maurity e Z\u00e9 Jorge, de 1984; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gilberto_Gil\">Gilberto Gil<\/a> com &#8220;Saci-Perer\u00ea&#8221; de 1980; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Bia_Bedran\">Bia Bedran<\/a> com &#8220;Quintal&#8221; de 1992; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/M%C3%B4nica_Salmaso\">M\u00f4nica Salmaso<\/a> com &#8220;Saci&#8221; de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Guinga\">Guinga<\/a> e <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Paulo_C%C3%A9sar_Pinheiro\">Paulo C\u00e9sar Pinheiro<\/a> de 1998; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Gal_Costa\">Gal Costa<\/a> o festejou em &#8220;Grande Final&#8221; de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Moraes_Moreira\">Moraes Moreira<\/a> de 2004; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/A_Cor_do_Som\">A Cor do Som<\/a> com &#8220;Dan\u00e7a, Saci&#8221; de <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Mu_Carvalho\">Mu Carvalho<\/a>, em 2006; <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Fl%C3%A1vio_Paiva_%28jornalista%29\">Fl\u00e1vio Paiva<\/a> em &#8220;A festa do Saci&#8221; de Paiva e Orl\u00e2ngelo Leal, de 2007.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19420 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Chiquinha-Gonzaga-recortada-300x182.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"182\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Chiquinha-Gonzaga-recortada-300x182.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Chiquinha-Gonzaga-recortada-450x273.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Chiquinha-Gonzaga-recortada-768x466.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Chiquinha-Gonzaga-recortada.jpg 970w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Chiquinha Gonzaga<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Enfim&#8230; Enfim, eis a\u00ed o Saci nos <em>envolteando<\/em>, permitindo mem\u00f3ria perturbadora do que viramos, e num pulo redentor convidando-nos para desengarraf\u00e1-lo, solto no ar brasileiro que o quer livre, leve a s\u00e1bio do pr\u00f3prio destino. Que assim seja, pois \u00e9 com a recorda\u00e7\u00e3o do que fomos que continuaremos a ser o que queremos. Que revivamos o saci que somos e n\u00e3o o perfil sem gra\u00e7a e sem tradi\u00e7\u00e3o, este Brasil sem cultura, pobre, burro, sem mem\u00f3ria. Bom dia do Saci.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lindo demais!&#8230; Sim, em tempos de tanta desvalia, de \u00f3dio detalhado em palavras e gestos obscenos, de negacionismos estridentes e agress\u00f5es \u00e0s artes, de combate &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19416,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19414","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19414","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19414"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19414\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19423,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19414\/revisions\/19423"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}