{"id":19400,"date":"2021-10-17T08:04:34","date_gmt":"2021-10-17T11:04:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19400"},"modified":"2021-10-17T08:07:32","modified_gmt":"2021-10-17T11:07:32","slug":"as-rosas-nao-falam-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/as-rosas-nao-falam-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"AS ROSAS N\u00c3O FALAM&#8230;(JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cartola em uma gravura de Petch\u00f3, uma rel\u00edquia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Dif\u00edcil dizer como as m\u00fasicas nos afetam e nos envolvem. N\u00e3o se conhece quem fique alheio aos sons melodiosos que tocam de maneira profunda nossos sentimentos, \u00e0s vezes nos comovendo \u00e0s l\u00e1grimas, sempre nos arrebatando. E quem n\u00e3o se extasia com ritmos de predile\u00e7\u00e3o, deixa-se flanar em devaneios, balbucia letras e at\u00e9 se movimenta em dan\u00e7as imagin\u00e1rias. Quem, n\u00e3o?&#8230; Mais ainda, qual \u00e9 aquele que n\u00e3o guarda uma historinha ligada a alguma melodia, a um bailinho de outrora, ou a um risco amoroso, qui\u00e7\u00e1 a um beijo? Drummond dizia que \u201cn\u00e3o h\u00e1 saudade sem trilha sonora\u201d e Caio Fernando Abreu repetia que \u201csaudade s\u00f3 \u00e9 saudade boa se vier acompanhada de alguma can\u00e7\u00e3o\u201d. Eu tenho muitas \u2013 saudades e m\u00fasicas. Algumas delas remetem ao nosso grande mestre e compositor Cartola. Entre outras, uma delas me toca mais que tantas, \u201cAs rosas n\u00e3o falam\u201d.<\/p>\n<p>Lembro-me de certa feita, ao me preparar para longa temporada no exterior, ter que selecionar alguns LPs (sim, sou daqueles velhos tempos), e logo de sa\u00edda, entre tantas alternativas, separei uma grava\u00e7\u00e3o da Beth Carvalho no \u00e1lbum \u201cMundo melhor\u201d, de 1976. Curiosamente, \u00e0 \u00e9poca da composi\u00e7\u00e3o, no alvorecer da Abertura Pol\u00edtica, cabia um romantismo esperan\u00e7oso, intimista, capaz de provocar suspiros amorosos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19401 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Rosa-Nana-169x300.jpg\" alt=\"\" width=\"169\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Rosa-Nana-169x300.jpg 169w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Rosa-Nana-253x450.jpg 253w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Rosa-Nana.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 169px) 100vw, 169px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>As rosas do Renato Nan\u00e1 falam todos os dias: &#8220;ao mestre com carinho&#8221;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Talvez seja exagero, mas creio que poucas can\u00e7\u00f5es empatam com tanta coer\u00eancia letra e m\u00fasica. Parece m\u00e1gica. A cada palavra de \u201cAs rosas n\u00e3o falam\u201d um som correspondente dimensiona a fineza apaixonada contida nas palavras da letra. Perfei\u00e7\u00e3o. Logicamente, n\u00e3o faltaram evoca\u00e7\u00f5es justificadas na biografia do compositor sempre devotado \u00e0 boemia e \u00e0 paix\u00e3o. E lendas foram criadas, muitas, algumas enlevadas e repetidas com pequenas varia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Conta-se que um dia Cartola, depois de breve separa\u00e7\u00e3o e frente a relut\u00e2ncia da amada, ao retornar ao lar, ofereceu \u00e0 sua companheira, dona Zica, umas mudas de roseiras a serem plantadas no jardinzinho de casa.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19402 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cartola-e-dona-Zica-300x201.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cartola-e-dona-Zica-300x201.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cartola-e-dona-Zica-450x301.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cartola-e-dona-Zica.jpg 580w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Cartola e dona Zica, sua fonte inspiradora<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Passados algum tempo, bot\u00f5es se abriram, e encantada a mulher, surpresa, chamou o companheiro para ver, e, diante de tanta beleza, ela teria questionado \u00e0s pr\u00f3prias rosas sobre florescimento t\u00e3o esplendoroso. Dizem que Carola olhando para a mulher teria dito \u201cn\u00e3o sei, e n\u00e3o pergunte \u00e0s rosas, pois as rosas n\u00e3o falam\u201d. Mitificam ainda afirmando que em seguida Cartola pegou o viol\u00e3o e s\u00f3 dedilhou a composi\u00e7\u00e3o com a seguinte letra:<\/p>\n<p><em>\u201cBate outra vez\/ Com esperan\u00e7as o meu cora\u00e7\u00e3o\/ Pois j\u00e1 vai terminando o ver\u00e3o\/ Enfim&#8230; Volto ao jardim\/ Com a certeza que devo chorar\/ Pois bem sei que n\u00e3o queres voltar\/ Para mim\/ Queixo-me \u00e0s rosas\/ Que bobagem, as rosas n\u00e3o falam\/ Simplesmente as rosas exalam\/ O perfume que roubam de ti, ai\/ Devias vir\/ Para ver os meus olhos tristonhos\/ E, quem sabe, sonhavas meus sonhos\/ Por fim.\u201d <\/em><\/p>\n<p>Pois bem, j\u00e1 morando em Nova York, um belo dia resolvi promover um jantar para agradecer amigos que t\u00e3o bem me acolheram. Entre os convivas havia um cr\u00edtico de m\u00fasica que, ao ouvir o tal \u00e1lbum, num gesto repentino disse algo pr\u00f3ximo disto \u201c\u00capa, espera a\u00ed, esta can\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 brasileira, \u00e9 um velho jazz norte-americano, intitulado \u201cLa rosita\u201d, de autoria de Ben Wester e Coleman Hawkins. A cordialidade do momento n\u00e3o abrigava discuss\u00f5es, mas agasalhei d\u00favidas e no outro dia, logo cedo, corri \u00e0 biblioteca da Universidade que guardava uma discografia exuberante e achei a refer\u00eancia. Com inusitada curiosidade ouvi. E fiquei at\u00f4nito. Recomendo a todos que busquem https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zLK2lbRi828 e meditem um pouco sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ambas. Recentemente, lembrei-me dessa hist\u00f3ria e obtive a confirma\u00e7\u00e3o dada por Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o: imposs\u00edvel separar as duas vers\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19403 aligncenter\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Coleman-Hawkins-e-Ben-Webster-300x169.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"169\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Coleman-Hawkins-e-Ben-Webster-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Coleman-Hawkins-e-Ben-Webster-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Coleman-Hawkins-e-Ben-Webster-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Coleman-Hawkins-e-Ben-Webster-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Coleman-Hawkins-e-Ben-Webster-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Coleman-Hawkins-e-Ben-Webster.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Autores da La Rosita, um jazz americano de 1957, muito parecido com As rosas n\u00e3o falam<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Mas, acima de debates sobre pl\u00e1gio ou outra conceitua\u00e7\u00e3o pejorativa, cabe saudar o grande Agenor de Oliveira \u2013 nome de batismo de Cartola \u2013 ressaltando que sua reputa\u00e7\u00e3o est\u00e1 acima do bem e do mal. Algu\u00e9m que comp\u00f4s algo como \u201cQue Infeliz Sorte\u201d, \u201cDivina Dama\u201d, \u00a0\u201cQuem Me V\u00ea Sorrindo\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Sol_Nascer%C3%A1\">O Sol Nascer\u00e1<\/a>\u201d, \u201cAlvorada\u201d, \u201cTive Sim\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/O_Mundo_%C3%89_um_Moinho\">O Mundo \u00c9 um Moinho<\/a>\u201d, \u201c<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Acontece\">Acontece<\/a>\u201d, pode muito. Pode at\u00e9 ter ouvido uma can\u00e7\u00e3o e a recriado em linguagem pr\u00f3pria. O que n\u00e3o vale \u00e9 reduzir um compositor t\u00e3o completo a uma situa\u00e7\u00e3o que merece ser analisada exatamente na chave da mem\u00f3ria. Da mesma mem\u00f3ria que marca a subjetividade da m\u00fasica em nossas vidas. E de nada adianta perguntar \u00e0s rosas. Juro!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cartola em uma gravura de Petch\u00f3, uma rel\u00edquia Dif\u00edcil dizer como as m\u00fasicas nos afetam e nos envolvem. 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