{"id":19362,"date":"2021-10-03T10:45:22","date_gmt":"2021-10-03T13:45:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19362"},"modified":"2021-10-03T10:45:22","modified_gmt":"2021-10-03T13:45:22","slug":"desassossegado-com-fernando-pessoa-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/desassossegado-com-fernando-pessoa-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"DESASSOSSEGADO COM FERNANDO PESSOA (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Como as artes ajudam! Sempre. Salvam-nos pelo reencantamento do mundo, pela alternativa ao real, pela beleza sensibilizada. Vale perguntar o que seria de nosso agora sem o conv\u00edvio com a com a m\u00fasica, filmes, novelas, leituras, pequenos clips que sejam. N\u00e3o sou exatamente do tipo que relativiza tudo e se vale da lenga do copo meio cheio, meio vazio. N\u00e3o mesmo. A carapu\u00e7a de pessimista veste bem minha personalidade que, ali\u00e1s, s\u00f3 n\u00e3o me envenena gra\u00e7as \u00e0s catarses permitidas por devaneios estimulados. E choro pelo negacionismo que tudo anula, despreza, desalenta. E domestico a grandiosidade do perigo anunciado pela pol\u00edtica aprendendo a esperar. Mas n\u00e3o \u00e9 alheamento passivo. \u00c9 aguardo instru\u00eddo. Poetado.<\/p>\n<p>Em meio a um tecido de lam\u00farias contidas, um escrito de Fernando Pessoa soou-me como pretexto. O mais amado dos poetas portugueses contempor\u00e2neos, quase sempre evocado pelo seu lado mais tang\u00edvel, acabou por provocar em mim um al\u00edvio filos\u00f3fico motivador de certa aliena\u00e7\u00e3o do bem. Dono de heter\u00f4nimos (21, 72, 127?) ele abrigou um sem-n\u00famero de outros \u201ceus\u201d guardados pelo denominador comum contido no \u201cpoeta fingidor\u201d. Nas del\u00edcias de rimas enigm\u00e1ticas, por\u00e9m, esquecemo-nos de uma de suas dimens\u00f5es mais lustrosas, estas sim, donas de dificuldades provocantes. Falo especificamente de um dos conjuntos mais inquietos da po\u00e9tica ocidental, exatamente do \u201cLivro do desassossego\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-19363\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro-450x253.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"253\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro-450x253.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro-750x420.jpg 750w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro-1140x641.jpg 1140w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Livro.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ah, o \u201cLivro do desassossego\u201d!&#8230; Lembremos, s\u00e3o 500 entradas n\u00e3o dispostas em ordem sequente e que, fragmentadas, oferecem uma articula\u00e7\u00e3o exigente da organiza\u00e7\u00e3o interpretativa do leitor. Foi pensando nestes cacos soltos que fiz uma liga\u00e7\u00e3o pessoal e oportuna. Creio que a primeira informa\u00e7\u00e3o que desafiou essa minha travessia, quando ainda menino, foi causada pela pr\u00e1tica que exercitou escrevendo cartas para si mesmo. Outro lance que me fisgou foi a dimens\u00e3o da frase de Plutarco \u201cnavegar \u00e9 preciso, viver n\u00e3o \u00e9 preciso\u201d. Guardo bem a sensa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel sobre incerteza do verbo \u201cprecisar\u201d: precisar como necessidade; precisar como exatid\u00e3o. Desde ent\u00e3o aprendi a navegar no mar Pessoa exatamente sem exatid\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que da cole\u00e7\u00e3o de detalhes intrigantes, minha leitura desnorteada n\u00e3o poderia deixar o registro da demora da coloca\u00e7\u00e3o p\u00fablica do tal \u201cLivro do desassossego\u201d. Morto em 1935, apenas em 1962 alguns fragmentos foram lan\u00e7ados, sendo que se esperou at\u00e9 1982 por uma edi\u00e7\u00e3o integral. E como as entradas, como se di\u00e1rio fossem, s\u00e3o desconcertantes. Confesso que fiz uma pequena lista de liga\u00e7\u00f5es, mas me detive em um quesito que se ajusta perfeitamente ao meu \u00e2nimo atual. Reuni duas passagens que falam contra ativismos desesperados. A primeira delas leva o t\u00edtulo de \u201cManeira de bem sonhar\u201d e aconselha:<\/p>\n<p><em>Adia tudo. Nunca se deve fazer hoje o que se pode deixar de fazer tamb\u00e9m amanh\u00e3.<\/em><\/p>\n<p><em>Nem mesmo \u00e9 necess\u00e1rio que se fa\u00e7a qualquer coisa, amanh\u00e3 ou hoje. Nunca penses no que vais fazer. N\u00e3o o fa\u00e7as. Vive a tua vida. N\u00e3o sejas vivido por ela. Na verdade, e no erro, no gozo e no mal-estar, s\u00ea o teu pr\u00f3prio ser. S\u00f3 poder\u00e1s fazer isso sonhando porque a tua vida real, a tua vida humana \u00e9 aquela que n\u00e3o \u00e9 tua, mas dos outros&#8230; Despreza tudo, mas de modo que o desprezar te n\u00e3o incomode. N\u00e3o te julgues superior ao desprezares. A arte do desprezo nobre est\u00e1 nisso.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Varios-Fernando.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-19364\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Varios-Fernando-450x254.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"254\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Varios-Fernando-450x254.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Varios-Fernando-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Varios-Fernando-768x433.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Varios-Fernando.jpg 1000w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>S\u00e3o v\u00e1rios Fernando Pessoa<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Em outra passagem intitulada \u201cA inac\u00e7\u00e3o consola de tudo\u201d Pessoa completa a mensagem anterior e prossegue a li\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o agir d\u00e1-nos tudo. Imaginar \u00e9 tudo, desde que n\u00e3o tenda para agir. Ningu\u00e9m pode ser rei do mundo sen\u00e3o em sonho. E cada um de n\u00f3s, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo. N\u00e3o ser, pensando, \u00e9 o trono. N\u00e3o querer, desejando, \u00e9 a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente \u00e0 luz do sol que n\u00e3o h\u00e1, ou da lua que n\u00e3o pode haver.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pois \u00e9, comecei falando da beleza da arte como v\u00e1lvula de tantas incertezas e crueldades que nos s\u00e3o cen\u00e1rios. Aconteceu de, pela poesia, pelas m\u00e3os de Pessoa, ler que devo adiar o meu desespero mutante do presente. O poeta mandou esperar. Resta obedecer. Deixemos para amanh\u00e3 o que fatalmente vai acontecer. Vivamos a tal aliena\u00e7\u00e3o do bem. Vivamos lendo desassossegadamente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como as artes ajudam! Sempre. 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