{"id":19274,"date":"2021-08-22T09:15:44","date_gmt":"2021-08-22T12:15:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19274"},"modified":"2021-08-22T09:15:44","modified_gmt":"2021-08-22T12:15:44","slug":"carta-aberta-a-jefferson-de-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/carta-aberta-a-jefferson-de-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"CARTA ABERTA A JEFFERSON DE (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Prezado conterr\u00e2neo,<\/p>\n<p>Faz mais de duas semanas que estou dedicado a voc\u00ea, aos seus filmes e ao entendimento de seu papel como cineasta. Por certo, busco entender o roteiro de sua trajet\u00f3ria, menino preto que viveu em Taubat\u00e9 de onde saiu para o cinema, e dele para a cr\u00edtica crescente. Acompanhando uma rede de amigos de inf\u00e2ncia, Alfredo Abra\u00e3o, sempre o menciona, com rever\u00eancia e admira\u00e7\u00e3o extremas. L\u00e1 atr\u00e1s, certa vez, quase nos conhecemos pessoalmente por iniciativa de um colega comum, mas quando soube que voc\u00ea estava fazendo um filme sobre Carolina Maria de Jesus, prudente, temi diverg\u00eancias de interpreta\u00e7\u00f5es (acho que o mesmo se deu com voc\u00ea). Por aqueles dias, eu j\u00e1 conhecia os in\u00e9ditos n\u00e3o revelados no livro \u201cQuarto de despejo: di\u00e1rio de uma favelada\u201d e antevia considera\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 glamouriza\u00e7\u00e3o da personagem que voc\u00ea enredaria.<\/p>\n<p>O filme de 2003, \u201cCarolina\u201d, interpretado pela incr\u00edvel Zez\u00e9 Mota, premiado ali\u00e1s, \u00e9 plasticamente \u00f3timo, mas, eu ainda n\u00e3o entendia bem que aquela sua proposta era o fio da meada que o distingue hoje como um admir\u00e1vel explicador do cinema negro brasileiro. Isto n\u00e3o \u00e9 pouco: roteirista, produtor, diretor, pensador. E bem humorado&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Carolina-de-Jesus.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-19275\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Carolina-de-Jesus-450x338.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Carolina-de-Jesus-450x338.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Carolina-de-Jesus-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Carolina-de-Jesus-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Carolina-de-Jesus.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Carolina de Jesus autografando seu livro<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Examinando mais atentamente seu roteiro pessoal, fui aprendendo a admir\u00e1-lo e isto, ao mesmo tempo, me trouxe quest\u00f5es que come\u00e7am com uma perplexidade: como n\u00e3o o procurei antes? Somos da mesma cidade, tivemos o bairro da Estiva como interesse de ambos; passamos pela mesma escola\/USP, fomos bolsistas da FAPESP, e temos amigos pr\u00f3ximos, ent\u00e3o por que n\u00e3o o fiz? Seu curr\u00edculo \u00e9 vasto e a cole\u00e7\u00e3o de pr\u00eamios o distingue de maneira a comprometer minhas \u201cvelhas opini\u00f5es formadas\u201d.<\/p>\n<p>Constatando isto, pensei em escrever sobre voc\u00ea, mas a cada passo sentia-me mais perturbado com seu talento e com meu desconhecimento. Claro, fui aos seus filmes e, confesso, o feiti\u00e7o de suas solu\u00e7\u00f5es f\u00edlmicas me encantava mais e mais. Sem dar conta de tudo, alguns resultados cativaram, em especial os curta: \u201cDistra\u00edda para a morte\u201d (2001), \u201cCarolina\u201d (2003), Narciso Rap (2005), \u201cJonas s\u00f3 mais um\u201d (2007). Cheguei aos seus quatro longas j\u00e1 como admirador, e me extasiei com a realiza\u00e7\u00e3o do \u201cBr\u00f3der\u201d, selecionado para o Festival de Gramado de 2011 (Pr\u00eamio do Cinema Brasileiro). \u201cAmuleto\u201d, de 2015, me entreteve pela tens\u00e3o narrativa e pela absor\u00e7\u00e3o da mitologia de Floripa. \u201cCorrendo atr\u00e1s\u201d emocionou, me enchendo de ternura e at\u00e9 por permitir entender sua liga\u00e7\u00e3o com o futebol \u2013 n\u00e3o me escapou saber que fora centroavante do Esporte Clube Taubat\u00e9.<\/p>\n<p>Apendi que tamb\u00e9m atuou em projetos para a televis\u00e3o como\u00a0\u201c<em>Vinte poucos anos\u201d<\/em><em>,\u00a0\u201cTudo de Bom\u201d,\u00a0\u201cPopstars\u201d\u00a0<\/em>e<em>\u00a0\u201cCentral da periferia\u201d, <\/em>exibidos pela\u00a0TV Globo. Devo dizer que desse conjunto o mais revelador foi sua produ\u00e7\u00e3o para adolescentes, como os epis\u00f3dios da s\u00e9rie \u201cPedro &amp; Bianca\u201d, ganhador do <em>Emmy<\/em> no 2\u00ba <em>Emmy Kids Awards<\/em> e do\u00a0<em>Prix Jeunesse Iberoamericano<\/em>.<\/p>\n<p>Acabo de ver seu recente \u201cDoutor Gama\u201d e estou ainda impactado. Embora quisesse assisti-lo como p\u00fablico, o olhar de historiador me traiu. E foi assim que me investi para medir detalhes de sua articula\u00e7\u00e3o narrativa. Parab\u00e9ns: temas hist\u00f3ricos pertinentes &#8211; em particular o v\u00ednculo da escravid\u00e3o com o programa republicano &#8211; e nele, o protagonismo abolicionista do poeta Luiz Gama. De igual for\u00e7a, a abordagem do ilustre defensor de escravizados com seu mentor e futuro desafeto Furtado de Mendon\u00e7a, nossa que cenas arrebatadoras. E nem o romance familiar lhe escapou. Parab\u00e9ns, Jefferson o filme \u00e9 uma beleza, com excelentes interpreta\u00e7\u00f5es e cen\u00e1rios convincentes, um divisor de \u00e1guas n\u00e3o apenas como cinema negro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/doutor-gama.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-19276\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/doutor-gama-450x445.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"445\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/doutor-gama-450x445.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/doutor-gama-300x296.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/doutor-gama-768x759.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/doutor-gama-80x80.jpg 80w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/doutor-gama.jpg 999w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao longo de tanta produ\u00e7\u00e3o, quis saber, meu caro Jefferson, de alguns detalhes que fogem dos filmes, e me encantei com a leitura do seu atrevido manifesto \u201cDogma Feijoada\u201d texto pelo qual voc\u00ea parodia o sagrado \u201cDogma 95\u201d, traduzindo para o cinema nacional negro as sugest\u00f5es dos mestres Thomas Vinterberg e Lars Von Trier. E que ironia a sua ao apresentar as sete regras para a supera\u00e7\u00e3o dos limites: dire\u00e7\u00e3o, atores, temas, roteiros, custo, abordagens cotidianas e cronograma, tudo preto e poss\u00edvel. Tudo discutindo o Brasil. Tudo feito com muita teoria e inten\u00e7\u00e3o. Tudo t\u00e3o tudo! Uma aula de economia e fun\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1ficas. Em s\u00edntese, voc\u00ea \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura brasileira que quer se \u201cdesoficializar\u201d.<\/p>\n<p>Optei por escrever-lhe uma carta aberta pois acho que tenho um endere\u00e7o maior e que vai al\u00e9m de uma sauda\u00e7\u00e3o pessoal. E, ent\u00e3o, me pergunto por que voc\u00ea n\u00e3o faz milagre em terra pr\u00f3pria? Sei de um esfor\u00e7o empreendido pela equipe de Pedro Rubim, mas s\u00f3 isso. Pouco, n\u00e9?! Mas assim \u00e9 que encontro uma resposta que faz sentido no seu desempenho n\u00e3o transparecido na terrinha. O programa de minha gera\u00e7\u00e3o, de homem, branco, classe m\u00e9dia, n\u00e3o deixava reconhecer o protagonismo de negros que, afinal, n\u00e3o pertenciam a mesma condi\u00e7\u00e3o. Reconhec\u00ea-lo agora por sua obra me faz perceber a gravidade consequente da imagem refletida no espelho da desigualdade. E em Taubat\u00e9 isto \u00e9 dilatado por um entranhado conservadorismo classista.<\/p>\n<p>Seu protesto no nome assumido Jefferson \u201cde\u201d, ao tirar o \u201cde Resende\u201d, refer\u00eancia ao senhor que escravizou seus antepassados escravizados, me permite uma sugest\u00e3o: desculpe-nos, seus conterr\u00e2neos estruturalmente ingratos, e permita-nos cham\u00e1-lo Jefferson de Taubat\u00e9.<\/p>\n<p>Receba meu abra\u00e7o reconhecido.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy, ou se preferir: professor Sebe de Taubat\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Prezado conterr\u00e2neo, Faz mais de duas semanas que estou dedicado a voc\u00ea, aos seus filmes e ao entendimento de seu papel como cineasta. 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