{"id":19139,"date":"2021-06-27T08:53:12","date_gmt":"2021-06-27T11:53:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19139"},"modified":"2021-06-27T08:53:12","modified_gmt":"2021-06-27T11:53:12","slug":"nostalgias-que-ainda-nao-sao-lixo-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/nostalgias-que-ainda-nao-sao-lixo-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"NOSTALGIAS QUE AINDA N\u00c3O S\u00c3O LIXO (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Quase tudo hoje \u00e9 descart\u00e1vel. A sociedade de consumo imp\u00f5e decisivo culto a tudo que \u00e9 novo, e a tal ponto insiste-se nisso que valores afetivos s\u00e3o quase zerados. Tudo, no mundo externo, tem que estar estalando, in\u00e9dito, rec\u00e9m produzido, <em>new blend<\/em>. \u201cNos trinques\u201d \u00e9 reconhecimento do padr\u00e3o consumista que tine aos olhos de uma opini\u00e3o p\u00fablica que nos julga pela apar\u00eancia, sem levar em conta referentes de nossa hist\u00f3ria pessoal.<\/p>\n<p>Sim, persistem resqu\u00edcios de antiguidades, mas poucos, e esses apenas logram sentido quando validados no \u00e2mbito privado. Para o grande p\u00fablico, o que triunfa \u00e9 sempre o porvir; o resto \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, \u201ccoisa de museu\u201d. A loucura \u00e9 tamanha que, alimentando o giro do mercado, at\u00e9 reinventam-se passados que, na aus\u00eancia de alguma subst\u00e2ncia, autorizam simulacros: sim, temos um novo pret\u00e9rito fabricado, objetificado em santos, orat\u00f3rios, pe\u00e7as, adornos.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse a profus\u00e3o das novidades impostas, h\u00e1 uma consequ\u00eancia fatal decorrente da mania de renovar: a amea\u00e7adora multiplica\u00e7\u00e3o de entulhos. E ent\u00e3o o lixo progressivo se imp\u00f5e como trag\u00e9dia em processo. E desenvolve-se uma rotina que torna tudo descart\u00e1vel, sem dignidade alguma, algo disposto a ser jogado fora porque inevitavelmente superado. E assim, sem assumir isso como algo conden\u00e1vel, criamos um problema social de propor\u00e7\u00f5es convenientemente pouco ventilado. N\u00e3o me escapa desta reflex\u00e3o a ficcionada \u201cLe\u00f4nia\u201d de \u00cdtalo Calvino, uma daquelas eloquentes \u201cCidades invis\u00edveis\u201d, onde todas as coisas usadas viravam detritos descartados cotidianamente. E ent\u00e3o as montanhas de restolhos tornando-se volumes aterrorizantes, produzindo insuport\u00e1vel odor.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Oratorio.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-19140\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Oratorio-376x450.png\" alt=\"\" width=\"376\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Oratorio-376x450.png 376w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Oratorio-251x300.png 251w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Oratorio.png 752w\" sizes=\"auto, (max-width: 376px) 100vw, 376px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Sabe, mesmo nos devotos de modismos parece que h\u00e1 algo de resistente ou medrosamente cr\u00edtico. Assistimos e somos levados a participar do movimento global que afinal sustenta mercados e nos promove a fazedores de lixo, mas creio que, sem se revelar, em cada qual reponta um sentimentozinho de culpa. \u00c9 inequ\u00edvoco, mas domesticamos uma desconfian\u00e7a que n\u00e3o nos deixa corromper de todo. \u00c9 como se um \u00faltimo toque divinal obstru\u00edsse a leviandade da tal onda assoladora. Vali-me dessas considera\u00e7\u00f5es como pre\u00e2mbulo para pensar no que \u00e9 menos transit\u00f3rio em nossas vidas, naquilo que preservamos al\u00e9m da delinqu\u00eancia consumista.<\/p>\n<p>Segredo: tenho algumas poucas caixas guardadas com lembran\u00e7as das quais n\u00e3o abro m\u00e3o e n\u00e3o admito pens\u00e1-las como porcarias. Estranho ter mantido pequenos recortes de bons momentos: ingressos de cinema, santinhos, at\u00e9 a primeira multa de autom\u00f3vel, o primeiro dente ca\u00eddo de meu filho&#8230; Dia desses, me peguei paralisado com o comprovante de compra da minha primeira m\u00e1quina de escrever; chorei com um pequeno frasco de perfume, vazio, de minha m\u00e3e. E o len\u00e7o que meu pai usava na lapela do terno perfumou de tal maneira minha mem\u00f3ria que me sugeriu um n\u00e3o lugar l\u00f3gico. Sim, sou levemente acumulador. Coisas poucas, mas aprendi a colocar tanto afeto nos detalhes que delego verdade ao ditado alem\u00e3o garantidor de que \u201co diabo mora nos detalhes\u201d. E esse pequeno arsenal de lembran\u00e7as me constitui al\u00e9m de modernidades.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/papel-amassado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-19141\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/papel-amassado-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/papel-amassado-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/papel-amassado-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/papel-amassado.jpg 750w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Meditando sobre minhas \u201cvelharias\u201d, fiquei me perguntando do significado dessas coisas. Por que n\u00e3o me desfiz de tantas tranqueirinhas? Indo mais fundo, me inquiro sobre o dep\u00f3sito de afetos represados em situa\u00e7\u00f5es que certamente, aos outros, parecer\u00e3o bobagens, algo que deveria ter ido para alguma lata. Sabe, preside ent\u00e3o uma sensa\u00e7\u00e3o de generosidade \u00e0 vida. Como se fossem objetos biogr\u00e1ficos, minhas saudades ficam materializadas em fragmentos t\u00e3o tolos, t\u00e3o sem valores transcendentes. D\u00f3i em pensar que um dia tudo aquilo, aquelas coisinhas t\u00e3o zelosamente seletadas n\u00e3o significar\u00e3o nada para ningu\u00e9m. Foi pensando nisso que resolvi fazer um pequeno invent\u00e1rio de meus tesouros emocionais.<\/p>\n<p>Comecei um texto\/testamento dizendo que sei que quando eu morrer ir\u00e3o desprezar aquela fita azul, envelhecida, da vela da minha primeira comunh\u00e3o, o guardanapo de borda amarela da primeira pizza que comi com aquela que seria minha eterna namorada, a medalha que ganhei pela melhor reda\u00e7\u00e3o da escola&#8230; Dei in\u00edcio, mas parei quando uma quest\u00e3o brilhou forte: quem ir\u00e1 ler isso? E ent\u00e3o me veio a no\u00e7\u00e3o da modernidade: quem ler\u00e1 isso?&#8230; Parei. Amassei o papel. Devolvi os \u201crestos\u201d aos lugares e jurei garantias pessoais: enquanto eu viver, tudo aquilo n\u00e3o ser\u00e1 lixo. Nostalgias&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quase tudo hoje \u00e9 descart\u00e1vel. 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