{"id":19027,"date":"2021-05-09T15:11:54","date_gmt":"2021-05-09T18:11:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=19027"},"modified":"2021-05-09T15:11:54","modified_gmt":"2021-05-09T18:11:54","slug":"o-castanho-olhar-de-minha-mae-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/o-castanho-olhar-de-minha-mae-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"O CASTANHO OLHAR DE MINHA M\u00c3E (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p>Fiquei intrigado com uma frase lida no para-choque de velho caminh\u00e3o que trafegava sei l\u00e1 para onde \u201cPai a gente pode duvidar, m\u00e3e a gente tem certeza\u201d. Retive o dizer e no retra\u00e7o da estrada dei eco \u00e0quelas palavras. Resolvi fermentar a inquieta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 criei uma estrat\u00e9gia anal\u00edtica: dividi em duas partes, a come\u00e7ar pela hesita\u00e7\u00e3o \u201cpai a gente pode duvidar\u201d. Logo me autorizei supor que se tratava da vag\u00e2ncia de homens, caminhoneiros, Ulisses do asfalto que, certamente tinham aventuras para contar e, qui\u00e7\u00e1, filhos n\u00e3o sabidos. Avesso da oscila\u00e7\u00e3o sobre o masculino, \u00e0 m\u00e3e caberia fian\u00e7a plena, pois pela gesta\u00e7\u00e3o e parto, pela guarda, garantiriam lastro indubit\u00e1vel entre a criatura e a cria. M\u00e3es, Pen\u00e9lopes bordadeiras de cotidianos ininterruptos&#8230;<\/p>\n<p>Foi f\u00e1cil derivar para outros para-choques errantes, muitos afeitos \u00e0 mesma devo\u00e7\u00e3o: \u201camor s\u00f3 de m\u00e3e\u201d, \u201camor de m\u00e3e n\u00e3o tem igual\u201d, \u201cno cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e sempre cabe mais um\u201d, \u201cm\u00e3e, meu \u00fanico porto seguro\u201d. Desse ros\u00e1rio de frases feitas ocorreu at\u00e9 uma trilha sonora, ali\u00e1s, muito apropriada considerando o recente afastamento de Agnaldo Tim\u00f3teo. E ent\u00e3o, como cheiro de m\u00e3e onipresente rezingava algumas das doze can\u00e7\u00f5es contidas em LP de 1995, sob o t\u00edtulo \u201cobrigado m\u00e3e\u201d. \u00c9 claro que dentre as p\u00e9rolas, uma se distinguia, o dueto com \u00c2ngela Maria: \u201cmam\u00e3e, mam\u00e3e, mam\u00e3e\/ eu te lembro chinelo na m\u00e3o\/ o avental todo sujo de ovo\u201d. E de maneira quase pueril desdenhava o ju\u00edzo brega insistindo \u201cse eu pudesse\/ eu queria outra vez, mam\u00e3e\/ come\u00e7ar tudo, tudo outra vez\u201d&#8230;<\/p>\n<p>E em meu livre pensar a estrada se fazia viagem&#8230; Pela saudade que me tomou, foi mec\u00e2nica a exalta\u00e7\u00e3o do amor materno que me incluiu crente de um dos mitos mais benditamente aceitos. Por l\u00f3gico, o enquadramento da condi\u00e7\u00e3o feminina hoje se presentifica em confrontos, e neles o diabinho que me habita cutucava medita\u00e7\u00f5es sobre novos papeis sociais da mulher \/ m\u00e3e (e do homem \/ pai). E foram tantos os prismas que at\u00e9 elenquei alguns relativos \u00e0s novas configura\u00e7\u00f5es familiares: unidades parentais menores, maternidade tardia e concorrida com a realiza\u00e7\u00e3o feminina pessoal, novas parcerias familiares, pais separados&#8230; Nossa, de repente eram tantos os diferenciais que fiquei tonto. Foi assim que busquei amparo em minha hist\u00f3ria familiar, e nela perfilei minha m\u00e3e&#8230;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Olhar-de-mae.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19029\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Olhar-de-mae.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Olhar-de-mae.jpg 400w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Olhar-de-mae-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Por certo, minha experi\u00eancia filial faz coro com tantos que se enquadram na primeira gera\u00e7\u00e3o de filhos de emigrantes \u00e1rabes. A muitos, como eu, restava seguir o rastro dos pais e se dedicar ao com\u00e9rcio. Meu caso, por\u00e9m, foi bem outro, pois desde menino me determinei professor. Ponto fora da curva, o enfrentamento estava exposto. Foi minha m\u00e3e quem primeiro reconheceu que, acima de tudo, eu s\u00f3 seria realizado fazendo o que queria. N\u00e3o que ela endossasse minha inc\u00f4moda escolha, n\u00e3o; mas sua sensibilidade latente fez com que admitisse minha alternativa repartida entre possibilidades pr\u00e1ticas e o caminho do meu cora\u00e7\u00e3o. Nada faltou no conjunto parental para me desestimular, nada. Minha teimosia teve que ser testada no limite e s\u00f3 garanti firmeza pelo surdo paradoxo dada por ela, expresso no olhar amb\u00edguo de algu\u00e9m que compreendia meu desejo fora dos trilhos dados. E seus olhos n\u00e3o mentiam no castanho profundo que me fazia crer no interdito \u201cv\u00e1 em frente meu filho\u201d. Como essa ambiguidade me ajudou! Vendo agora, depois que a carreira se fez, reconhe\u00e7o a sagacidade daquele olhar e adivinho sua dificuldade mediadora. Na quietude de nossos verbos, sobretudo, presidia um pacto amoroso que a permitia uma dissimulada do bem, do meu bem. Ah, os olhos castanhos de minha m\u00e3e!&#8230;<\/p>\n<p>Saboreio as lembran\u00e7as mais ternas de minha m\u00e3e e nessa saudade sinto agora seus olhos castanhos, fi\u00e9is, profundos demais, e legitimo assim alguns dos dizeres desses caminh\u00f5es \u201camor s\u00f3 de m\u00e3e\u201d, \u201camor de m\u00e3e n\u00e3o tem igual\u201d, \u201cno cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e sempre cabe mais um\u201d, \u201cm\u00e3e, meu \u00fanico porto seguro\u201d. Ah que saudade dos olhos castanhos de mam\u00e3e.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fiquei intrigado com uma frase lida no para-choque de velho caminh\u00e3o que trafegava sei l\u00e1 para onde \u201cPai a gente pode duvidar, m\u00e3e a gente &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19028,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-19027","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19027","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19027"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19030,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19027\/revisions\/19030"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/19028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}