{"id":18980,"date":"2021-04-25T08:33:45","date_gmt":"2021-04-25T11:33:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/?p=18980"},"modified":"2021-04-25T08:35:42","modified_gmt":"2021-04-25T11:35:42","slug":"doces-portugueses-conventos-e-algumas-safadezas-jc-sebe-bom-meihy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/doces-portugueses-conventos-e-algumas-safadezas-jc-sebe-bom-meihy\/","title":{"rendered":"DOCES PORTUGUESES, CONVENTOS E ALGUMAS SAFADEZAS (JC Sebe Bom Meihy)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Dom Jo\u00e3o V, rei de Portugal, teve caso com uma novi\u00e7a de nome Paula Teresa da Silva e Almeida, que antes fora amante do conde de Vimioso<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As del\u00edcias dos doces s\u00e3o conhecidas e decantadas em prosas e versos em todos os quadrantes da Terra. O que \u00e9 pouco revelado s\u00e3o as hist\u00f3rias que detalhadas podem ati\u00e7ar outros sabores. E quantos segredos guardam esses casos! Muito al\u00e9m do pitoresco, h\u00e1 raz\u00f5es hist\u00f3ricas que justificam a produ\u00e7\u00e3o dessas guloseimas que frequentam nossos h\u00e1bitos alimentares, principalmente depois da chegada dos europeus \u00e0 Am\u00e9rica. A busca de rotas das chamadas \u201cgrandes navega\u00e7\u00f5es\u201d, o encal\u00e7o do tal \u201ccaminho mar\u00edtimo para as \u00cdndias\u201d no s\u00e9culo XIV e XV, se deu primordialmente pelo interesse comercial das especiarias ou condimentos alimentares. A coloniza\u00e7\u00e3o em geral esteve intimamente ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de cana de a\u00e7\u00facar, ent\u00e3o fator essencial para a sobreviv\u00eancia europeia aterrorizada com amea\u00e7as de fome desde o fim da epidemia da \u201cpeste negra\u201d, ocorrida na segunda metade do s\u00e9culo XIV. A prop\u00f3sito, lembremos que a condena\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar como subst\u00e2ncia nociva \u00e9 algo bem recente.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sobremesas-de-Natal.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18981\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sobremesas-de-Natal-450x394.jpeg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"394\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sobremesas-de-Natal-450x394.jpeg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sobremesas-de-Natal-300x263.jpeg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sobremesas-de-Natal-768x673.jpeg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Sobremesas-de-Natal.jpeg 1096w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>S\u00e3o irresist\u00edveis os doces portugueses nas sobremesas de Natal<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Devido a motivos de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica nos ligamos \u00e0s quest\u00f5es da diet\u00e9tica europeia. E n\u00e3o foi s\u00f3 pelo a\u00e7\u00facar, pois outros produtos determinaram mudan\u00e7as radicais no padr\u00e3o alimentar geral. Foi pela Am\u00e9rica que o mundo conheceu: batata, tomate, amendoim, baunilha, milho, mandioca, feij\u00e3o e tamb\u00e9m o tabaco, ingredientes que passaram a compor demandas sem as quais seria imposs\u00edvel imaginar a moderna cozinha mundial. Nesse processo, o Brasil ganhou lugar de pot\u00eancia agr\u00edcola e isso atravessou s\u00e9culos. Das fazendas de cana \u00e0 do\u00e7aria portuguesa foi um pulo, salto que ali\u00e1s colocou Portugal com distin\u00e7\u00e3o entres as melhores do mundo. H\u00e1 autores como Almeida Garret que garantem a primazia dos lusitanos, e a\u00ed a hist\u00f3ria se complica pela reivindica\u00e7\u00e3o de franceses, italianos, \u00e1rabes e at\u00e9 chineses.<\/p>\n<p>A conhecida \u201cdo\u00e7aria conventual portuguesa\u201d guarda segredos capazes de arrepiar cabelos de pudicos e assanhar porn\u00f3grafos. Antes, conv\u00e9m lembrar que, desde s\u00e9culo XVII, a vida mon\u00e1stica em Portugal, principalmente para as mulheres, n\u00e3o se explicava exclusivamente pelas santas voca\u00e7\u00f5es. N\u00e3o. Havia pretextos outros capazes de justificar a op\u00e7\u00e3o pelos conventos: donzelas rebeldes, filhas rejeitadas, desobedientes, sem recursos, ou que davam algum \u201cpasso em falso\u201d. E isso tornou-se pr\u00e1tica plenamente aceita, principalmente no s\u00e9culo XVIII. \u00c9 verdade que n\u00e3o era exclusividade portuguesa, mas ocorreu de maneira exemplar em terras lusas onde o catolicismo em muito perdeu o rigor espiritual e ganhou fei\u00e7\u00f5es mundanas, at\u00e9 depravadas. Por certo, o moralismo cr\u00edtico liter\u00e1rio tratou de sanear essas \u201cimpurezas\u201d que ficaram legadas a pesquisadores ou escritores consagrados como \u00e9 o caso de obras como \u201cA religiosa\u201d de Diderot, ou as bizarras aventuras do Marques de Sade, ambas na Fran\u00e7a. Mas foi em Portugal que a viv\u00eancia dessas pr\u00e1ticas devassas ganhou destaques estarrecedores e tornou-se \u201csocialmente normal\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Prazer-e-pecado.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18982\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Prazer-e-pecado.jpg\" alt=\"\" width=\"275\" height=\"183\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>O prazer era apresentado como sin\u00f4nimo de pecado<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que h\u00e1 leituras rom\u00e2nticas, amorosas e dram\u00e1ticas, enternecedoras de amores enclausurados &#8211; e talvez o mais eloquente exemplo desse tipo de literatura seja a obra \u201cCartas portuguesas\u201d, pelas quais a irm\u00e3 Mariana do Alcoforado declarou seu amor proibido a um militar franc\u00eas. Afora isso, de tal maneira a promiscuidade virou regra na sociedade lusa que se vulgarizou o uso do voc\u00e1bulo \u201cfreir\u00e1tico\u201d, particularmente qualificador de quantos sustentavam as rela\u00e7\u00f5es entre pares amorosos com religiosas. Sem d\u00favida, o mais v\u00edvido exemplo de freir\u00e1tico foi dado por Dom Jo\u00e3o V, rei de Portugal, que teve caso conhecido com uma novi\u00e7a de nome Paula Teresa da Silva e Almeida, que antes fora amante do conde de Vimioso, no conhecido Mosteiro de S\u00e3o Dinis, pr\u00f3ximo a Lisboa. Com o rei, irm\u00e3 Paula teve um filho distinguido, Dom Jos\u00e9, que chegou ao cargo de Inquisidor-mor, mais alto posto da mais controladora institui\u00e7\u00e3o religiosa de Portugal. Particularizar esses casos t\u00e3o pouco divulgados foi motivo para livros como fez J\u00falio Dantas no texto \u201cO freir\u00e1tico: amor em Portugal no s\u00e9culo XVIII\u201d. Mas nem s\u00f3 de amores escusos viviam os conventos.<\/p>\n<p>Por aquele tempo, a produ\u00e7\u00e3o de galinhas tamb\u00e9m era atividade mon\u00e1stica, e isso se justificava nem s\u00f3 pela carne. Em decorr\u00eancia do \u201cgalinhal\u201d, o aproveitamento do ovo se estendeu, pois naquele tempo a clara era usada na remo\u00e7\u00e3o de part\u00edculas verdes ou dos taninos aplicados \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o dos vinhos. Pois bem, restava ent\u00e3o as gemas, e assim se dava um natural destino culin\u00e1rio que resultou na maravilhosa prolifera\u00e7\u00e3o de doces como: baba de mo\u00e7a, dedo de mo\u00e7a, queijadinhas do c\u00e9u, toucinhos do c\u00e9u, pasteis de Santa Clara e de Bel\u00e9m, e muitos mais. Mas o que merece destaque, contudo, s\u00e3o aqueles que n\u00e3o escondem discri\u00e7\u00e3o e comprometem o vi\u00e9s amoroso de freiras. Vejamos: sopapo do convento, garganta de freira, travesseiro de freira, suspiros de freira, barriga de freira, dedos de freira.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Doces-Portugueses-pecado-abencoado-pelas-freiras.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-18983\" src=\"http:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Doces-Portugueses-pecado-abencoado-pelas-freiras-450x300.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Doces-Portugueses-pecado-abencoado-pelas-freiras-450x300.jpg 450w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Doces-Portugueses-pecado-abencoado-pelas-freiras-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Doces-Portugueses-pecado-abencoado-pelas-freiras-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalcontato.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Doces-Portugueses-pecado-abencoado-pelas-freiras.jpg 870w\" sizes=\"auto, (max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Doce portugu\u00eas, um pecado aben\u00e7oado pelas freiras<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 l\u00f3gico que essa doceria se apoiava na erotiza\u00e7\u00e3o promovida pelo consumo de a\u00e7\u00facar. \u00a0O escritor Afr\u00e2nio Peixoto sobre isso disse que as receitas de ent\u00e3o denunciavam segundas inten\u00e7\u00f5es: beijinhos, desmamados, levanta-velho, l\u00edngua-de-mo\u00e7a, casadinhos, mimos-de-amor. Pois \u00e9, o que n\u00e3o se diz, infelizmente, como \u00e9 que esses doces se integraram na tradi\u00e7\u00e3o posta em pr\u00e1tica hoje e, mesmo apreciados, perderam suas raz\u00f5es hist\u00f3ricas. Doces portugueses, vida mon\u00e1sticas e sacanagens s\u00e3o elementos que, tran\u00e7ados, sugerem pecaminoso prazer que hoje podemos usufruir como ora\u00e7\u00e3o. Subamos aos c\u00e9us. Esque\u00e7amos as balan\u00e7as, tudo embalado pela subvers\u00e3o das ordens.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Jo\u00e3o V, rei de Portugal, teve caso com uma novi\u00e7a de nome Paula Teresa da Silva e Almeida, que antes fora amante do conde &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18984,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-18980","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nacional"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18980"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18980\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":18987,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18980\/revisions\/18987"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18984"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalcontato.com.br\/home\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}